A Confeitaria do Custódio

Publicação: 2010-10-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ivan Maciel de Andrade - Advogado

Criou-se durante muito tempo um mito a respeito da indiferença e alheamento de Machado de Assis às questões políticas de seu tempo. Chegou-se ao extremo de afirmar, com ares de reprovação e censura ética, o desinteresse de Machado com relação à luta pelo fim da escravatura, na qual não teria se engajado. Como é que ele que trazia na pele e sob a barba espessa as características de seus ascendentes negros mantinha-se como simples espectador? Mas, aos poucos, através de pesquisas de estudiosos da vida e obra machadianas, foi sendo revelado que ele, na verdade, no jornalismo e nas obras de ficção, assumiu posições muito claras, explícitas, corajosas sobre os mais diversos assuntos políticos. Nunca deixou de participar, com opiniões e críticas ou através de sátiras impiedosas, do que se passava de relevante ou às vezes mesmo de irrelevante, mas com rumoroso valor circunstancial, no Brasil e principalmente no Rio de Janeiro do Segundo Reinado. Adotou-se, para surpresa de alguns biógrafos machadianos desinformados ou inabaláveis em suas convicções, uma interpretação oposta à que prevaleceu durante certo tempo: reconheceu-se que a política está presente em tudo o que Machado produziu. Às vezes de forma arrebatada, na fase mais jovem, ou com a sutileza do humor que lhe era tão próprio, original e inimitável em suas obras da maturidade. O que confundiu inicialmente foi a onipresente preocupação estética de Machado, da qual ele jamais abriu mão ainda quando incorporava ao seu registro de escritor fatos e situações da vida cotidiana.

Exemplo significativo da forma como eram recepcionados os acontecimentos políticos na obra de ficção de Machado está no episódio que se poderia denominar de “A Tabuleta da Confeitaria de Custódio”. Está no romance “Esaú e Jacó” (1904), o penúltimo escrito por Machado. Depois, só o “Memorial de Aires” (1908, ano da morte do escritor). “Tabuleta Velha” é o título do cap. XLIX de “Esaú e Jacó”. Custódio era o dono de uma casa comercial que se chamava “Confeitaria do Império”. O nome estava escrito numa tabuleta. Custódio, que era de uma avareza sem limites, consultou certo dia o Conselheiro Aires, que morava em frente de seu estabelecimento – um diplomata aposentado, muito simpático, erudito e às voltas sempre com a leitura dos clássicos gregos e latinos no original – se devia ou não substituir a tabuleta de sua confeitaria por uma nova: mandara pintá-la e o pintor dissera que o serviço era impossível, dado o estado de deterioração da tabuleta. Custódio hesitava se fazia ou não a despesa e, como tinha grande respeito pelo Conselheiro, o ouviu a respeito. O paciente Conselheiro demonstrou que a solução mais econômica era a sugerida pelo pintor. Então, foi encomendada a nova tabuleta, com grande e sofrida relutância. Antes que a tabuleta fosse entregue (“Tabuleta Nova”, cap. LXIII) Custódio tomou conhecimento de “movimentos revolucionários” e de “mudança de regime”: fora proclamada a República. Custódio desesperado manda avisar ao pintor que pare na letra “d”...

Mas o tragicômico é que a tabuleta já estava pronta, com o nome antigo, tradicional. Custódio, então, procura novamente o Conselheiro Aires e lhe conta os gastos recentes que fizera, seu respeito aos governos, sua total falta de preferência por qualquer regime, a ameaça de ter de fazer nova tabuleta e ainda de perder o nome de sua Confeitaria, com clientela conhecida e fiel. O Conselheiro sugere que Custódio mude o nome para “Confeitaria da República”. Mas Custódia teme que haja “nova reviravolta” e a tabuleta fique perdida. A próxima sugestão do Conselheiro Aires é “Confeitaria do Governo”, que “tanto serve para um regime como para outro”. Mas Custódio lembrou que havia muita gente da oposição capaz de atos de vandalismo. A sugestão seguinte do Conselheiro foi a manutenção do nome original, anotando-se – “Fundada em 1860” (a República é de 1889). Custódio não se convenceu: “Imperial” ficaria muito à vista. O Conselheiro lembra que poderia ter o nome da rua: “Confeitaria do Catete”. Mas já havia outra na mesma rua. Por fim, o Conselheiro resolveu o impasse, com a solução mais simples: “Confeitaria do Custódio”. Acima dos azares da política...

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