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Quadrantes
A coragem para escrever
Publicado: 00:00:00 - 31/10/2021 Atualizado: 12:11:21 - 30/10/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor]

MUITAS VEZES me surpreendo com perguntas íntimas, que eu mesmo me faço. Uma delas é sobre eu ter me arvorado em escrever um bocado de palavras e continuar insistindo com essa prática até hoje. Já ultrapassei meio século de vida e ainda não descobri as razões de ter começado, lá atrás, com esse absurdo. O pior é não entender por qual motivo ainda escrevo e a ilusão de que sou lido por alguém além de mim.

NÃO IGNORO ser essa atitude de um extremo atrevimento. Escrever não é fácil, exige coragem e se requer alguma competência. Eu nem sei se sou um sujeito intimorato e competente, vou é correndo riscos. Escrever é assim...correr riscos e rabiscos, puxar pela memória e pela pena. Em algum lugar eu já me disse: a pena mitiga a pena. Para deletar medos e para não (se) apagar. E dói, enquanto fantasmas não são expulsos pelos toques das falanges distais feridas.

FOLHAS EM BRANCO ou uma tela do computador, ambas confundem a visão, obnubilam verdades na mira e a gente segue se enganando para viver melhor. Viver é a regra, antes de se colocar para fora as vísceras e as ideias mal engendradas. Nem sempre sigo a máxima “primum vivere, deinde philosophari.”, o que seria uma visão razoavelmente lógica acerca da existência. Preciso pensar algo para colocar no horizonte vital do papel. É o que me pede a alma, essa alma antiga que guardo em mim.

TENHO PERGUNTADO repetidamente sobre as razões. E há uma pista, a de que existe uma convicção – nem sempre identificada – em cada um dos que levam a vida a produzir palavras: a da construção de mundos à parte. Talvez seja a razão maior, comum a todos os que se valem das tintas, a de se crer na possibilidade do refazimento do mundo, para que um mundo ideal tome lugar, mesmo com os defeitos e as idiossincrasias do ousado criador. Ideal ou idealizado, nem sempre um mundo melhor, frise-se.

UMA CERTEZA é a de que – mesmo com essa tentativa de recriação ou de representação do mundo – aquele que escreve, que inscreve essas novas possibilidades, está sempre cercado de incertezas, inseguranças, medos mesmo. A coragem para escrever pode ser mais uma elaboração mental, algo impossível, inalcançável, inexplicável. Mesmo assim, as palavras vão se derramando e já não haverá mais tempo e nem disposição de corrigi-las, permitindo-se, então, a outrem, conclusões e intrusões que poderiam ter sido evitadas muito antes do lápis correr sobre a folha pálida.

VOLTO À INDAGAÇÃO primeira e sempre fico sem qualquer laivo de resposta. Por que escrevo? Por que me aventuro nessa selva, sem chegar jamais a um paraíso que me acomode e que me traga a paz de não mais precisar das palavras? Mário Quintana, evidentemente inspirado em Dante, trouxe-nos uma possível resposta a essa indagação absurda (na verdade, outra pergunta que se assoma) num poema intitulado “selva selvaggia”: “Que importa/que importa qual seja enfim o seu verdadeiro universo?/Ele em breve será inteiramente devorado pelas palavras!”

NO FINAL DAS CONTAS, chego à conclusão de que não há mais o que fazer, restam pouquíssimas as possibilidades quando alguém se emaranha no universo enlouquecido das palavras. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Elas vêm em voo desabalado e bicam, até que as mãos sangrem e derramem ideias, mesmo que incompletas e fraturadas, nas páginas que sofrem com a nova cor e o novo grito da palavra escrita e (re)inaugurada.

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