A cornucópia

Publicação: 2020-09-22 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

O marketing é o contrário do pensamento crítico. A afirmação não lhe retira o valor como técnica de persuasão, mas não acrescenta qualidade. Constrói e descontrói com a mesma frieza e posto que tem muito mais técnica e nada de ciência. E foi por falta de uma consciência crítica que o episódio das charges do professor de um colégio local ganhou a dimensão do abuso. Como se mais pobre, na formação verdadeiramente educativa, não fosse a ausência do pensamento crítico. 

Das deformações sofridas pelo marketing nenhuma foi maior e mais distorcida do que a do marketing eleitoral. Sua dualidade, voltada intencionalmente para construir quem o contrata e desconstruir o adversário, acabou fugindo do controle de uma técnica e seus limites para ser uma verdadeira luta livre. Tanto que seu ringue passou a ser a judicialização dos confrontos e não da retórica, cujo uso pode ter seus abusos, mas é sempre democrático, sem artifícios cinematográficos.

Quando a campanha deixou as ruas e instalou seu palanque nas telas de tevê, foi inevitável a sua espetacularização. Encarnou aquele estado-espetáculo de Roger Gerard Shcwartznberg, o livro que foi traduzido e lançado no Brasil pela Difel, e durante pelo menos duas décadas ocupou a estante de teóricos, marqueteiros e políticos brasileiros. Nenhum outro, à época, explicou com mais acuidade o espetáculo no qual se transformaram os confrontos que giram em torno do poder.  

E a espetacularização virou um monstro a fazer a glória de uns e a fortuna de outros, não como efeitos desonestos de contratantes e contratados, mas pelas deformações que desorganizam brutalmente até hoje o processo político e, por consequência, os próprios princípios democráticos. A liberdade de opinião deixou-se encantar pela liberdade de agressão e por essas mesmas razões, adotou-se o logro que foi a substituição de argumentos por desaforos com o abandono das ideias. 

Filho bastardo da bastardia que nos golpeou até hoje, o marketing eleitoral é uma usina na qual se transformou a luta política. No estilo feérico, passou a substituir, com perfeição, verdades por verossimilhanças. Nas suas cremalheiras tão genialmente engendradas a serviço da persuasão fabricamos e vendemos falsos líderes e democratas de araque, sem espírito público, que se revelam só depois da posse, quando se desvestem das máscaras e maquiagens que lhe ensinaram a usar. 

Essa indústria encontrou nos próprios políticos, o que é mais grave, sob o falso argumento democrático das garantias de igualdade de luta, a perpetuação orçamentária no leito farto do Fundo Partidário. O artifício, aparentemente natural, faz de cada presidente nacional de partido e dos seus mandantes estaduais, ordenadores de uma despesa sem qualquer padrão de prestação de contas. Milhões e milhões despejados pela cornucópia do governo nas mãos dos seus próprios inventores.  

FERRO - A governadora Fátima Bezerra resolveu apostar na construção da ferrovia Mossoró-Souza, na Paraíba. Para conectá-la à Transnordestina e evacuar a produção exportável deste RN.

DÚVIDA - A ferrovia, por magnitude física da obra, tem alguns entusiastas no governo, mas sem muita justificativa econômica. O Ceará, racional, exporta frutas via hubs aéreos. É o mais lógico. 

ALIÁS - Se a governadora Fátima Bezerra avaliar mais de perto o desempenho do seu governo na luta pelo desenvolvimento, vai descobrir que não tem planejamento consistente. Tem muita farofa. 

LIVRO - Marcelo Dias tem um novo livro pronto reunindo 54 crônicas e 150 fotos feitas por ele sobre as livrarias e bibliotecas que visitou ao longo de suas viagens aos vários países da Europa.

ENXUTA - A Folha de S. Paulo que descartara o velho colunismo social - caras e bocas - e agora retirou o horóscopo. Vão caindo, por inúteis, aquelas velhas leituras sem densidade de formulação. 

ANTES - A busca pela produção de conteúdo de qualidade já atingira a coluna de Nina Ricci, no Estadão, hoje informativa, e o Globo eliminou de vez. Na sociedade crítica glamour pede talento. 

ÓBVIO - A colunista Laurita Arruda tem razão: a nota da Fiern ao creditar ao mercado as decisões econômicas, para explicar a retirada da Hering do Estado, foi só o exercício palavroso do ululante. 

FÉRIAS - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, sobre a inteligência emprestada pelo marketing: “Se o marketing sai de férias a inteligência do cliente pede licença para descansar”.

DEFESA - Fonte do governo, de tradicionais raízes petistas, em conversa com esta coluna, revelou pessimismo no que taxou de ‘orfandade do governo no plenário da Assembleia’. Ninguém elabora o argumento de defesa nem sabe sustentá-lo. E disse: o governo sempre perde a guerra da retórica.

BALANÇO - A fonte reconhece que o sucesso de alguma iniciativa do governo recebe aprovação com a participação decisiva do presidente da casa, Ezequiel Ferreira. E que os desgastes, no caso dos aumentos para os grandes salários, vão para a conta do governo. E a tendência vai ser piorar.

FUTURO - Indagada sobre o que explicaria a postura leniente do governo, a fonte petista avalia que faltaria uma voz combativa. Mas, também reconhece, o governo tem uma postura passiva. E adverte: “Só que agora vem chegando o terceiro ano da gestão, decisivo para fixar sua imagem”.





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