“Covid acelerou a transformação digital”, diz Rodrigo Romão

Publicação: 2021-02-28 00:00:00
Ricardo Araújo
Editor

Créditos: Adriano Abreu

O mundo se transformou numa velocidade ainda mais rápida com a pandemia do coronavírus, a partir de março de 2020 e, mais recentemente, com a descoberta de suas variantes. A digitalização de processos, projetos futuros para a maioria das empresas, se tornou essencial se fazer no presente como forma de sobrevivência do negócio. O ser humano está cada vez mais dependente dos dispositivos móveis que, hoje em dia, não são mais para comunicação, mas para a resolução de problemas diversos.

Na esteira dessas necessidades, empresas de Tecnologia da Informação se viram cada vez mais demandadas. Desenvolver aplicativos de alta resolutividade, entregar produtos de fácil manuseio e universais se tornou ainda mais urgente. Para isso, porém, é preciso mão de obra qualificada e conectada com o que o mundo pede. No Rio Grande do Norte, o Instituto Metrópole Digital  (IMD/UFRN) se tornou um celeiro de empresas com tais características e que hoje são referência no desenvolvimento de tecnologias diversas, conforme detalha Rodrigo Romão na entrevista a seguir. Acompanhe. 

Por quais motivos a Tecnologia da Informação se sobressaiu em relação aos demais segmentos do mercado de trabalho durante a pandemia do novo coronavírus?
A pandemia exigiu uma reconfiguração da convivência social, a qual impactou diretamente a forma como estávamos acostumados a consumir produtos e serviços. O distanciamento social não alterou, num primeiro momento, a necessidade de consumo por parte da população, mas criou uma grande lacuna para muitas empresas na forma como atenderiam aos seus clientes a partir daquele momento. Foi exatamente nesse vácuo que a Tecnologia da Informação (TI) obteve protagonismo, oferecendo soluções para as demandas oriundas de todo o impacto econômico e social causado pela Covid-19. Com serviços de TI sendo cada vez mais requisitados, o crescimento desse segmento frente a outros foi uma consequência natural.

Qual o percentual de crescimento das empresas que atuam nesse setor no Parque Metrópole Digital e quais se destacam (por serviço oferecido)?
É importante destacar que a maior parte das empresas credenciadas ao Parque Metrópole Digital se caracteriza como startups: empresas que visam  resolver um determinado problema por meio de um modelo de negócio escalável e repetível, sob condições de extrema incerteza. Embora sejam empresas de TI e operem (total ou parcialmente) com modelos de negócio digitais, fenômenos como a pandemia entram na cota da incerteza e impactam bastante a vida desses empreendedores, muitas vezes inviabilizando a solução existente - sendo necessário abandoná-la - ou exigindo ajustes e revisões para manutenção da viabilidade do empreendimento. É o que no jargão de empreendedorismo se chama de “pivotar" um negócio. Diante disso, é difícil precisar um percentual de crescimento das empresas do Parque. Mesmo assim, aponto com
o destaque os negócios com soluções para os mercados de educação e de saúde, que foram bastante demandados. Outro destaque interessante oriundo das empresas atendidas pelo Parque foi a captação de recursos financeiros em editais de fomentos que, em 2020, foi superior a R$ 1 milhão.

O que caracteriza a revolução “Transformação Covid-Digital”?
Utilizei esse termo em outra entrevista para ilustrar um entendimento - que não é somente meu - de que a Covid-19 foi um gatilho que acelerou o processo de transformação digital no mundo dos negócios. O leitor certamente conhece alguém economicamente ativo que, por desejo próprio, não utilizava smartphone, não possuía conta digital e/ou cartão de crédito, e que nunca havia feito uma compra online. O cenário trazido pela Covid-19 faria dele um “invisível digital", caso não se adequasse à transformação ocorrida nas formas de consumo. Com o passar do tempo, esse cidadão passou a transferir dinheiro, a pedir comida, a comprar remédios e a fazer consultas médicas, tudo por aplicativos disponíveis em seu aparelho móvel. Se houve transformação digital por parte de um consumidor, imagine a proporção disso para uma empresa. Segmentos tradicionais, cuja relação de consumo era física (escolas, restaurantes, academia, lojas de roupa etc.) se viram digitalmente invisíveis da noite para o dia e precisaram, de uma forma muito abrupta, sair do “off-line" para o “on-line". Essa transformação digital seria algo inevitável, independentemente da pandemia. A Covid-19 contribuiu para acelerar  esse processo.

Para o Rio Grande do Norte, que é um Estado com um parque tecnológico restrito, qual a relevância dos resultados obtidos pelas empresas que atuam no IMD ao longo da pandemia?
Acredito que o ponto mais relevante é o entendimento de que a tecnologia de informação é um segmento de mercado que demonstrou solidez e grande resiliência, mesmo num cenário tão incerto quanto esse que vivemos. O desempenho desse segmento é tão expressivo que a consultoria Gartner prevê que os investimentos mundiais em TI crescerão 6,2% apenas em 2021. Talvez, a TI ainda não tenha sido encarada como um potencial potiguar. Esperamos que esses resultados possam dar luz a essa oportunidade econômica. 

De que maneira o Estado pode tirar proveito e ampliar os números positivos a partir dessas empresas?
Acredito que esta questão é bastante complementar à anterior. Nesse sentido, adotar políticas públicas e incentivos para a área de TI podem ser estratégias de investimento interessantes para o Estado. Um fato recente e muito salutar foi a aprovação da Lei Geral de Micro e Pequenas Empresas, principalmente pela abertura de licitações com participação exclusiva de micro e pequenas empresas instaladas no RN (perfil majoritário das empresas de TI do Parque), permitindo que esSe importante segmento da economia tenha acesso às compras governamentais. Apostar em TI é apostar numa área transversal, multi e interdisciplinar. Isso significa que os investimentos gerarão efeitos para além do próprio segmento econômico, contribuindo para o  desenvolvimento próprio e de outras potencialidades econômicas do Rio Grande do Norte.

Podemos ser considerados um Estado que exporta TI a partir de tais empreendimentos? Elenque motivos.
Sobre a exportação de TI, creio que possamos falar sob duas perspectivas: exportação de talentos (profissionais) e exportação de serviços (empresas). Sob a ótica da nacionalização e internacionalização de talentos formados no RN, acredito que seja algo mais consolidado. Temos visto muitos egressos da UFRN atuando em grandes empresas nacionais e internacionais, inclusive em big techs (gigantes da tecnologia) como  Google e Microsoft. Certamente outras instituições de ensino situadas no RN devem ter relatos semelhantes.  No que diz respeito à exportação de empreendimentos de TI, temos empresas com atuação em todo o território nacional. No aspecto internacional, há startups com clientes oriundos de diversos países, porém não podemos dizer que tratam-se de empresas internacionalizadas, ou seja, que tenham suas operações pensadas e estruturadas para atuar em outros países  - o que é bem diferente.  Nesse sentido, vale a pena destacar a criação, em 2020, da Rede Potiguar de Fomento à Internacionalização, que conta com a participação do Parque Tecnológico Metrópole Digital, da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Brasil-Portugal, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE/RN), da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), Governo do RN, Prefeitura Municipal do Natal e a Rede Potiguar de Incubadoras e Parques Tecnológicos (Repin). A finalidade  da rede é contribuir para internacionalizar o setor produtivo do Rio Grande do Norte, em especial – mas não apenas – na área de Tecnologia da Informação.

Qual o perfil de trabalhador que essas empresas procuram hoje em dia? E onde essas pessoas ficam sediadas, home office?
Essa é uma pergunta fundamental e esse perfil profissional não seria apenas para o segmento  de TI, mas para qualquer  organização que deseja alinhar-se ao atual contexto de transformação digital. O Fórum Econômico Mundial, por meio do relatório “O Futuro do Trabalho" divulgado em outubro de 2020, apresenta previsões interessantes. A primeira delas são as profissões que irão “bombar". Das 20 profissões apresentadas, 14 são na área de TI, dentre as quais podemos destacar: cientista e analista de dados; especialista em Inteligência Artificial e especialista em Big Data. Mesmo as profissões sem formação específica em TI têm o segmento da tecnologia como o grande palco de trabalho, como é o caso do profissional Desenvolvedor de Negócios e o especialista em Marketing Digital. O segundo destaque vai para as habilidades mais demandadas para o futuro (mas valem para o presente também). De acordo com o relatório, o “pensamento crítico e analítico" será o mais exigido pelas empresas, seguido de “aprendizagem ativa", “resolução de problemas complexos", “criatividade, originalidade e iniciativa" e “liderança e influência social''. Nesse ponto cabe abrir um parênteses bem interessante, para falar do quanto o Instituto Metrópole Digital (IMD) está alinhado a essas tendências do profissional do futuro. Partindo da premissa de que não existe mais o “terminar os estudos", o IMD tem se destacado na formação profissional direcionada ao mercado de trabalho, sobretudo pelo PES (Programa de Estudos Secundários), destinado a profissionais de qualquer área do conhecimento que desejem uma certificação em Bioinformática, Ciência de Dados, Inovação e Empreendedorismo, Inteligência Artificial, entre outros assuntos. Voltando à pergunta, quanto ao formato de trabalho, é notório que o home office trouxe ganhos multifatoriais para empresas e colaboradores e, certamente, é algo que veio para ficar. Ainda assim, sob o ponto de vista da cultura empresarial, tão logo a convivência social possa acontecer de forma mais fluída, eu acredito numa maior aderência ao formato híbrido, no qual o colaborador poderá trabalhar tanto na empresa como em sua própria casa. Em alusão à meteorologia, podemos brincar que vem aí uma frente fria com previsão de instabilidade para carreiras lineares. Amanhã, todos seremos profissionais de tecnologia que entendem de outra área, provavelmente trabalhando em nossas casas.