A crônica de Cascudo para a padroeira

Publicação: 2020-11-21 00:00:00
Eulália Duarte Barros
Escritora

Esta bela crônica de louvor à Nossa Senhora é de lição de História de Natal, Luis da Câmara Cascudo escreveu no dia 21 de novembro de 1939. Foi publicada no Livro das Velhas Figuras, Volume VI, na página 67, em edição do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em 1989.
Minha devoção à Nossa Senhora que quis ficar aqui em Natal, em homenagem a Câmara Cascudo que daqui nunca quis sair.

"Nossa Senhora da Apresentação”
Há cento e oitenta e seis anos, Nossa Senhora da Apresentação procurou sua freguesia, numa quarta-feira, 21 de novembro de 1753.

Era nosso Capitão-Mor, Pedro Albuquerque Melo. Governava a todos, dom Luiz Pedro Peregrino de Carvalho e Menezes de Ataíde, décimo Conde de Atouguia e sexto vice-Rei do Brasil.

Natal podia ter cinquenta casas de taipa, cercadas de mato. A Ribeira era um pântano onde dormiam as sombras cinzentas dos coqueirais.  Árvores de vulto cobriam as ruas que correm para sul e leste. Não estavam construídas as Igrejas de Santo Antônio, nem a do Senhor Bom Jesus das Dores. Alecrim, Tirol, Petrópolis, estavam cobertos de matas do litoral, capoeiras ralas, com frutas silvestres, povoadas de cotias, pacas e veados. A Casa do Governo era na Rua Grande (Praça André de Albuquerque). Reinava em Portugal El Rei Dom José. O nosso vigário era o Padre doutor Manuel Correa Gomes, que faleceria sete anos depois, a 4 de agosto de 1760.

Toda a cidade se apertava entre a avenida Junqueira Aires e proximidades do Baldo. Talvez não tivéssemos trezentos moradores.

Nessa época, numa manhã, foi visto, encalhado numa pedra que as marés respeitam, um caixão. Trazido para praia, aberto numa curiosidade de terra menina, encontram a imagem duma Nossa Senhora. Pequena, simples, o manto cobrindo-lhe a cabeça na convenção ritual para a cercadura da coroa simbólica, a Santa sustinha o Deus Menino na curva do braço esquerdo e estendia a destra, dedos unidos e vazios num gesto de suspender o rosário ou de abençoar timidamente.

A pedra ficou chamada Pedra do Rosário. Fora o primeiro porto que a Mãe de Deus deparara em sua jorrada material pelo Atlântico. Na linha da Igreja do Rosário, a Pedra era visitada, mostrada como um vestígio da milagrosa aparição. Hoje reduzida, deformada, serve apenas de suporte a um canto que conduz óleo para os aviões da Air France. A penha onde dom Fuas Roupinho foi salvo, é, em Portugal, local de romaria. Em Natal, a Pedra do Rosário, quase indentificável em sua humilhação, é um mero suporte a um conduto de essência.

Padre, povo, numa aclamação que outrora era lógica, inesperada e irresistível, levaram a imagem à Matriz. Lavraram uma ata narrando o sucesso, com assinaturas autênticas. Ainda esse documento foi visto por João Nepomuceno Seabra de Melo e Alfredo Antonio Pereira Lado. Depois desapareceu.

Natal já era freguesia de Nossa Senhora da Apresentação quando o vulto aportou numa manhã de verão tropical. Já em 1656 sabemos, sem discussão que a Padroeira possuía idêntica evocação religiosa.

Devia, pois existir um outro vulto da Padroeira. A vinda, por mar e vento, a origem misteriosa, conduzida ao sabor do acaso, num rumo que a Fé se inclina a dizer providencial, haloaram a Imagem na moldura radiosa de uma tradição popular.

É uma mostra legítima de escultura portuguesa. Visíveis os traços imutáveis dos velhos santeiros de Braga, no modelado do pescoço, no nariz afilado, à grega, obedecendo o padrão de beleza, na boca, nos olhos pequenos e negros, impostos proximamente, dando uma impressão vaga e natural de infantilidade e de asiatismo. A cabecinha do Menino-Jesus ainda mais viva demonstra a ancianidade lusitana do trabalho. No rebordo do caixão, estreita tira afirmava, em letras que a memória coletiva não esqueceu: “No ponto onde der este caixão, não haverá perigo”.

Do alto do seu altar, a Santa do Rosário, apresentada a 21 de novembro, vê passar os anos e as vidas confiadas à sua misericórdia. Guerras, campanhas, sofrimentos, loucuras, ódios, voam como turbilhões de poeira, sem rastro para a eternidade. Cada ano, no aniversário, acende-se o Céu escuro de novembro com as alegrias luminosas dos fogos queimados em sua honra. Uma multidão se adensa, numa oferenda que os tempos mudam de forma, mas conservam a intenção pura. Pequenina e serena, vinda do Mar numa hora de Sol, a Padroeira olha a Cidade que ela própria escolheu para residência perpétua, há cento e oitenta e seis anos. E a cidade se alarga e multiplica, descendo e subindo os morros, abraçando os tabuleiros nos vinte braços do casario ininterrupto. E o olhar da Padroeira maior se torna, acompanhando a vida social do rebanho humano que Ela apascenta, para entregar depois, alma por alma, às mãos divinas do Filho."









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