A crônica em forma de samba de Criolo

Publicação: 2017-08-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O samba sempre esteve por perto, seja em casa, quando o pai colocava discos clássicos para tocar, ou no bairro, nos batuques depois do futebol na várzea. Mas Criolo queria viver intensamente o rap. E viveu. Agora, depois de três álbuns de rap – embora o samba aparecesse de modo pontual – o rapper paulista põe pra fora seu lado sambista de uma vez só com o disco de inéditas “Espiral de Ilusão”, composto apenas de sambas. Lançado em abril deste ano, o trabalho será apresentado pela primeira vez em Natal, nesta sexta-feira (26), às 21h, no Teatro Riachuelo.

Criolo remete as memórias de infância com seus sambas de bairro
Criolo remete as memórias de infância com seus sambas de bairro

A espinha dorsal do show é o disco novo, mas Criolo também irá cantar sambas dos álbuns passados, como “Linha de frente”, do álbum “Nó na orelha” (2011), e “Fermento pra massa”, do “Convoque seu buda” (2014). Também estarão no repertório canções que acabaram não entrando no disco.

“Espiral de Ilusão” remete à sambas antigos e está estendido a várias nuances do gênero, indo das percussões ancestrais, ao breque, passando por melodias de flauta. A interpretação é segura, versátil e passa a impressão de que Criolo está no samba há muito tempo – a aproximação do cantor com o gênero é algo de nove anos pra cá. Nas letras, apesar de certo tom de nostalgia, o olhar do artista está voltado para o cotidiano atual do subúrbio, tanto no que o subúrbio tem de duro, quanto de poético. Suas crônicas urbanas também trazem críticas afiadas, como na canção “Menino Mimado”, dirigida à classe política.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Criolo falou sobre como foi transpor esse novo trabalho para o palco, comentou seu momento artístico atual, recordou a origem do samba em sua vida, lembrou a importância musical dos pais, da vivência no bairro em que vive, o Grajaux, e comentou a situação política do país, assunto que não escapa da sua veia poética de compositor.

Como surgiu a ideia de fazer um disco de sambas?
Sempre ouvi um pouco de tudo. Mas 80% do meu tempo era voltado pro Rap. Há nove anos, o Jeferson Penteado, irmão de um amigo antigo, da época que chegou o fliperama no bairro, me convidou para ir no Pagode da 27, a roda de samba do Grajaux. O samba sempre esteve presente no bairro, eu é que só andava pelo rap. Mas de nove anos pra cá venho me aproximando do samba. O convívio com a roda, a experiência de viver aquela energia do samba na rua, fez com que aquela sonoridade fosse se intensificando em mim. Nunca imaginei que fosse acontecer um disco assim, mas quando fui ver, aconteceu.

Então o disco tem muito dessa atmosfera do bairro?

É um trabalho que tem muito de memória do meu pai. Ele jogava futebol na várzea, lá tinha uns batuques. Em casa ele botava os disco de samba pra rodar. Mamãe era diferente, gostava de seresta. O disco tem uma experiência de comunhão familiar e de comunidade. As composições tem muito do ambiente, dos espaços de samba que comecei a frenquentar, como o Pagode da 27. O disco tem uma relação não só com a música, mas com o aspecto sociocultural da roda de samba. O Pagode da 27 realiza ações no bairro, desde recolher agasalhos, até a distribuição de cestas básicas, passando por cursos de iniciação musical, coral.

Ao vivo, como foi montar uma apresentação de samba?
Depois de me apresentar só com microfone e toca-disco, no primeiro disco (Ainda há tempo, de 2006), tive que aprender a trabalhar com banda nos discos “Nó na orelha” (2011) e “Convoque seu buda” (2014). Agora estou aprendendo tudo do zero de novo. Não tem mais bateria, guitarra, teclado. É só violão sete cordas, cavaquinho, cavaco com afinação de bandolim, flauta transversal, saxofone, trombone de vara e mais quatro percussionistas que trazem uma força ancestral. A energia visual é a mesma criada para a capa do disco, feita pelo Elias Andreato, grande artista nosso, um senhor que criou capas históricas para Paulinho da Viola e Martinho da Vila.

As músicas tem muito de crônica urbana. Como é seu processo para traduzir a realidade em que vive?
O meu termômetro é o meu quintal. Meu pai está para se aposentar e se não tivermos um suporte, vai ser difícil. A gente sabe como o país está. Você vai num posto de saúde e vê a fila. Vai no supermercado vê o preço dos produtos. O trajeto de ir de casa para o trabalho, que deveria ser de 40 minutos, hoje leva uma hora e meia. Se chove, a gente já sabe que vai ter enchente.

A música “Menino Mimado” foi dirigida a alguém específico?
Esse menino minado são vários políticos batidos no liquidificador. Isso é muito louco, cara! Grana, poder, essa turma já tem, mas mesmo assim ficam fazendo essas loucuras. Esses políticos estão por aí só para defender os interesses deles. O negócio está brabo. Tem que tacar fogo no Brasil.

O que mais tem te incomodado no país?
A gente vive uma guerra civil. Já vi gente ser assassinada na minha frente várias vezes. Desde pequeno. É guerra, mano! Ai se fala em números. É um negócio muito frio isso de números. Mas se eles querem números, estão ai, tudo número ruim. Se tem alguém sofrendo é porque tem gente ganhando com isso. Essa desgraça gera renda pra alguém.

Você vê a música como força transformadora da sociedade?
A educação é o único caminho pra mudar esse cenário. E a música é uma coisa muito forte. É emoção. Acredito muito nisso. O exemplo eu tenho dentro de casa. Minha mãe dedicou a vida às coisas do bairro, provocando encontros entre os artistas, encontros educacionais. Não importa se a pessoa não tem diploma. A ideia era unir forças pra se mudar as coisas.

Rap, samba, que outras ideias na música você pensa em desenvolver?
Hoje estou com 42 anos, a música mudou minha vida totalmente. Mas até os 35 a conversa no bairro era que você não deu certo. Mais de 30 anos, desempregado, é porque não deu certo. Então vem o disco “Nó na orelha”, que foi o ápice de transformação pra mim. Mas você não esquece o sofrimento. E nos trabalhos você vai no que você vive, no que você vê. E de repente acontecem as músicas. Se te mostrasse o que tem na minha cabeça tu ia ver a loucura. Mas não sei bem o que vem pela frente. Ainda me vejo iniciando na música e quero viver muita coisa.



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