‘Crise econômica aumenta casos de nem-nem’

Publicação: 2015-02-08 00:00:00
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Entrevista - Adalberto Moreira Cardoso
Sociólogo

João Vitor Santos

Instituto Humanistas Unisinos

A chamada “geração nem-nem’ no Brasil é mais um fenômeno que traduz os efeitos das desigualdades sociais. A maioria desses jovens que nem estão no mercado de trabalho, nem na escola – daí a expressão nem-nem – encontram-se inevitavelmente em famílias de mais baixa renda. São pessoas que dependem do ensino público para a formação profissional, mas que, em função da má qualidade da educação, se colocam no mercado de trabalho mais precário. Sem qualificação e formação, acabam alijados de ambos.
Adalberto Moreira Cardoso - Sociólogo
Essa é a tese do professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Adalberto Cardoso. “70% dos nem-nem estão entre as famílias representadas dentro dos 40% mais pobres. Entre as famílias mais pobres, a chance de um jovem de 16 anos ser nem-nem é muito maior do que nas famílias mais ricas”, destaca o professor em entrevista por telefone à IHU On-Line.

E se o jovem, além de ser pobre, for mulher e tiver alguma deficiência o quadro ainda piora. “A taxa maior (de nem-nem) está entre as jovens até 29. São mulheres que estão nessa condição ou porque se casou, ou porque teve um filho precocemente ou teve um filho na idade não precoce e saiu do mercado de trabalho. (...) Outro fator que ajuda a compor essa taxa são pessoas com algum tipo de deficiência física ou com algum tipo de doença. Isso dificulta que a pessoa tenha acesso às escolas e ao mercado de trabalho. O problema de acessibilidade das escolas do Brasil ainda é grande”, avalia Cardoso.

A reversão desse quadro não é tarefa simples. Requer ações mais incisivas do Estado na melhora e qualificação da escola, principalmente pública. Pagar melhor professores e equipar melhor as escolas são tarefas dos governos. Mas a sociedade também precisa ter sua parcela de contribuição. Confira a entrevista.

Segundo o IBGE, um quinto dos jovens brasileiros é da geração nem-nem. A que o senhor atribui esse percentual?
Na verdade, a proporção é um pouco menor. Um quinto foi no Censo de 2010. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013 trouxe uma taxa um pouco menor, de 16 por cento. De todo o jeito, não há uma causa apenas. São muitas. A grande maioria desses jovens nem-nem é de mulheres. Agora em 2013 era de 74%, dos jovens na faixa de 16 a 29 anos. Então, a taxa maior está entre as jovens de 23 e 24 anos, até 29. São mulheres que estão nessa condição ou porque se casou, ou porque teve um filho precocemente ou teve um filho na idade não precoce e saiu do mercado de trabalho. Não necessariamente isso configura um problema social. Pode ser simplesmente a reprodução de um padrão marital do Brasil, que é antigo. Você tem papeis femininos assumidos pelas mulheres. Isso mudou muito nos últimos anos, pois você tem cada vez menos mulheres na condição nem-nem porque tiveram filho ou porque casaram. Há um processo de modernização da sociedade brasileira em que as mulheres ficam mais tempo na escola e também entram mais cedo no mercado de trabalho. Então, essa taxa de mulher nem-nem por causa de filho ou casamento vem caindo.

Outra causa é que as mulheres que tem filho muito precocemente, ainda na adolescência 14, 15, 16 anos. Por exemplo, uma garota de 16 anos que tem um filho. A chance de ela ser nem-nem é de 80%. Isso contribui para compor essa taxa. Essa mulher sai da escola muito cedo, não entra no mercado de trabalho porque está cuidando do filho. Tem ainda os casos de jovens de famílias muito pobres que estão em casa cuidando de irmãos ou dos pais doentes. São famílias pequenas que não tem outra forma de cuidar dos seus, doentes ou crianças, e que obriga um dos seus filhos, em geral a mulher jovem, a assumir a tarefa. Essa pessoa também sai da escola e não está no mercado de trabalho.

Outro fator que ajuda a compor essa taxa são pessoas com algum tipo de deficiência física ou com algum tipo de doença. Gente com problemas estruturais de fala, audição, de mobilidade. Isso dificulta que a pessoa tenha acesso às escolas e ao mercado de trabalho. O problema de acessibilidade das escolas do Brasil ainda é grande. Escolas para surdos e mudos existem, mas não são simples e nem de fácil acesso, principalmente para famílias mais pobres. Um dado importante é que 70% dos nem-nens estão entre as famílias representadas dentro dos 40% mais pobres.

Questões relacionadas a etnia ou classe social impactam nesse dado?
A renda é um fato importante. E está ficando cada vez mais importante. A renda familiar explica hoje mais do que qualquer outra coisa. A renda per capita da família onde há o nem-nem tem um efeito maior do que todos os outros fatores juntos. Entre as famílias mais pobres, a chance de um jovem de 16 anos ser nem-nem é muito maior do que nas famílias mais ricas. Então, a classe social conta, especialmente para os muito jovens. Até porque também os jovens de famílias mais pobres deixam a escola muito cedo para trabalhar, aos 16, 17 anos, em geral em empego muito ruim e precário, quase sempre no setor informal. O problema é que essa pessoa, em geral de famílias mais pobres, deixou a escola para ter que trabalhar e perdeu seu emprego. Vai continuar nessa roda viva de empregos precários, baixa renda. E ao longo da sua vida isso vai ter um efeito muito grande. Isso quer dizer que a situação de nem-nem é um elemento importante na produção de desigualdade em longo prazo, porque os jovens que são nem-nem numa cerca idade, sofrerão esse efeito para o resto da vida. Essas pessoas não se qualificaram de maneira adequada. Pode ser que voltem a se qualificar mais tarde, mas aí já estarão numa idade ruim de competição com as pessoas que não deixaram a escola. Elas vão ter condições de competição muito pior. Isso ajuda a reproduzir uma parte da desigualdade brasileira.


O senhor chama atenção para os jovens que tem algum tipo de deficiência, mas que as escolas não têm condições de suprir suas necessidades e dar uma educação de maior qualidade. No entanto, as empresas parecem sofrer desse mesmo mal. Não?
Também. Não só as empresas, mas também as cidades brasileiras não são amigáveis para pessoas com deficiência física, principalmente com dificuldade de locomoção. Você não tem passeios bem adaptados para isso. Algumas grandes cidades tem isso, mas não por toda a cidade. E cidades menores do Brasil não têm mesmo. Então, as pessoas, em geral, dependem de outras pessoas para levar elas para o trabalho, pois não tem transporte público adaptado para isso. O que quer dizer que, entre as famílias mais pobres, a chance de a pessoa ser nem-nem é muito maior, porque as famílias mais ricas podem colocar enfermeiros, cuidadores, podem pagar escolas especiais. O ensino público em geral não tem qualidades de acessibilidade. Isso é uma barreira para uma parte grande das pessoas com deficiências.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE diz que esse fenômeno dos nem-nem também ocorre em outros países. Em quais?
Os dados a OCDE mostram que o fenômeno é mundial. Os dados do Brasil estão um pouco acima da médica mundial de 2010. Eu comparei dados do Censo com os dados da OCDE. E o Brasil estava, em 2010, com 20% e a média mundial é de 16%. Só que 2010 foi um ano em que houve pico da crise internacional no mundo inteiro. E os países da Europa foram os que mais sofreram. Mas a diferença é que houve um impacto conjuntural importante sobre uma geração específica de jovens. E é por isso que lá faz sentido você falar em geração nem-nem. No Brasil, isso é estrutural. Não é uma geração.
Não podemos falar de geração nem-nem, mas de gerações. Porque, todos os anos, se pegar a Pnad desde sempre, você vai ter uma proporção que varia de 14 a 20% de jovens que estão nessa situação. Então, não é uma situação específica conjuntural. É estrutural, que junta problemas na escola no Brasil com problemas do mercado de trabalho. Até certa idade, 22 anos, a “culpa” é do sistema educacional. Depois disso, são problemas relativos a baixa qualificação das pessoas que deixaram a escola muito cedo, com condições precárias do mercado de trabalho.

A OCDC também diz que, na maioria dos países, a situação é transitória. O que precisa ser feito para resolver isso Brasil?
Assim como não há uma única causa, as medidas são muitas. E isso para populações diferentes. Por exemplo, os deficientes. É preciso condições de acessibilidade no Ensino Público. E isso para todos os tipos problemas de deficiência. Você precisa de políticas específicas para evitar que jovens tenham filho muito cedo. As escolas tem que ter educação sexual. Teria de ser parte obrigatória de escola pública fundamental. Não resolveria o problema, mas ajudaria.

Uma questão importante é a melhoria da escola pública. Uma parte dos jovens deixa a escola para trabalhar porque a escola é uma ruim. Ou, ainda, porque ele vai olhar para o lado e ver filhos de famílias mais ricas estudando em escolas de qualidade e sabe que não ter como competir com essas pessoas. Como vai passar no vestibular? Então, não investe na sua formação porque sabe que não vai entrar na universidade. Políticas de melhorias no Ensino Fundamental e Médio, mas também políticas de acesso, principalmente dos mais pobres, a universidade são importantes. Essas políticas existem hoje no Brasil e já está demonstrado que isso tem mudado as perspectivas do jovem com relação ao Ensino Médio. Mesmo que a qualidade do Ensino Médio seja considerada ruim pelos jovens, eles permanecem na escola porque tem perspectiva de entrar numa universidade. Ele vai ficar no Ensino Médio para tentar, de alguma maneira, entrar na universidade. Seja via Exame Nacional do Ensino Médio(Enem), ou outros programas de políticas de financiamento de ensino privado. Essa também é uma política correta que está sendo implementada no Brasil.