“Cultura política no Brasil é do adesismo fácil”

Publicação: 2017-07-29 00:00:00 | Comentários: 0
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O senador Álvaro Dias (Podemos-PR) afirma que a cultura política no Brasil é “do adesismo fácil”. Ele aponta oportunismo de alguns parlamentares que apoiam governos no momento em que podem tirar algum proveito; mas deixam a aliança, quando percebem desgaste excessivo e que o presidente vai cair.

Álvaro Dias está em Natal para participar, hoje, do lançamento do “Podemos”. Trata-se de um partido que está sendo formado a partir do antigo PTN. O  senador paranaense Álvaro Dias é o presidenciável do  partido, e ontem, falou à TRIBUNA DO NORTE sobre a situação nacional e as proposta do novo partido.

“Cultura política no Brasil é do adesismo fácil”

Qual a mensagem deste novo partido?
Um discurso que não se  ouviu, recentemente, no Brasil. É um discurso de modernização, de inovação, tentando fazer a leitura correta do que pensa essa nova sociedade brasileira, que emergiu das ruas, com multidões que passaram a exigir mudanças no país. Imaginamos que é dessa forma que a população se posiciona, exigindo uma nova política. Evidente que o discurso da nova político é velho. Toda campanha surgem candidatos que dizem: “Sou o novo, a nova política”. Isso faz com que a população desacredite em qualquer proposta nova que surge e ela se coloca como São Tomé: “É preciso ver pra crer”. E nós estamos dizendo que queremos ser o futuro. Esperem para nos julgarem.

Qual seria a inovação para a política nacional?
O que queremos introduzir de atual é exatamente fazendo a leitura e selecionando as prioridades da população, assumindo-as como as causas pelas quais devemos lutar. A realidade social é dinâmica, há constantemente mudanças dessas prioridades e nós não podemos ser estáticos, ficar paralisados. Devemos nos movimentar. Por isso a denominação de partido em movimento, acompanhando a realidade social. Esse é o nosso desejo, a fotografia do Podemos que queremos construir no Brasil.

A cada eleição cresce o número de votos nulos, brancos e abstenções, com eleitores rejeitando a política. Como o senhor traduz isso?
Por isso estamos nos movimentando. Esse movimento tem origem exatamente na descrença popular em relação aos partidos, às instituições públicas e aos políticos de forma geral. Os partidos estão destruídos. Na verdade, precisamos fazer autocrítica, os partidos no Brasil são siglas para registros de candidaturas e passaram a ser, segundo alguns procuradores, organizações criminosas, lavanderia de dinheiro sujo. Esse é o cenário: Descrença generalizada. O surgimento do Podemos, agora, vem para que possamos nos afastar dessa mesmice lamacenta do quadro partidário brasileiro.

A impressão é de que não houve reação no Congresso Nacional...
O oportunismo na política é algo que às vezes não é notado. Mas se pensarmos na história recente, verificamos que durante bom tempo poucos foram os opositores a esse sistema corrupto que se implantou no Brasil. Lembro que, às vezes, me sentia solitário no Senado, nesses 15 anos, denunciando corrupção, adotando providências, tentando  instalar CPIs, muitas vezes malsucedidas, representando na Procuradoria Geral da República, fato que teve como consequência a instalação de muitos inquéritos, até com ações junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Fizemos isso. E os outros onde estavam? Nós temos que nos conformar com essa realidade, a cultura política no Brasil é do adesismo fácil. As pessoas querem só a sobra do poder, as benesses, poucos são aqueles que ousam ir para o campo da oposição e para o enfrentamento. Mas, quando o barco afunda, os oportunistas pulam e se posicionam como os grandes oposicionistas da hora. Eu vi gente comemorando a vitória da presidente Dilma Roussef e, depois, quando se instalou o processo de impeachment, se posicionando como grande oposicionista.

O ex-PTN fez parte da base aliada de Temer e desembarcou. Isso não deve ser visto como oportunismo?
Não é oportunismo, é o cumprimento do  compromisso do partido. O partido afirma que vai ouvir sempre a população, desde o programa do partido, que será redigido a milhares de  mãos. O povo brasileiro vai poder sugerir o que devemos mudar no programa do partido. O voto da presidente do Podemos, a deputada Renata Abreu (SP), na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), pela admissibilidade da denúncia contra o presidente Temer, foi consequência  da consulta à população. Ela colocou a indagação nas redes sociais para que a população decidisse o voto em nome do Podemos. O desembarque foi porque a população não concorda com esse sistema de governança corrupto, do balcão de negócio. Está custando muito caro ao Brasil a preservação do mandato do presidente com essa negociata promíscua que ocorre entre o Executivo e o Legislativo.

O Brasil suportaria mais um agravamento da crise, se Temer fosse afastado?
Acho que nós temos de ser coerentes. Evidente que fico muito confortável nessa posição, porque quando se instalou o processo de impeachment da presidente Dilma, considerei que estava pela metade, porque deveria se estabelecer um procedimento único para a presidente e o vice-presidente, porque ambos estavam no mesmo terreno escorregadio da corrupção, do crime de responsabilidade e, por isso, ambos deveriam ter sido cassados. O impeachment deveria ter sido completo. Então teríamos eleição direta e não estaríamos nesse drama no qual hoje estamos. Mas é inevitável adotar uma postura coerente. Se fomos pelo impeachment da presidente Dilma, uma vez que razões existiam para tal, como não ser pela aceitação da denúncia contra o presidente Temer, se há razões também sobrando para que esse procedimento seja adotado da forma correta?

O senhor acha que a admissibilidade da denúncia passa no Congresso?
Acho que nesta primeira etapa o presidente preserva o seu mandato, mas repito que a um preço muito salgado para o povo brasileiro. Tudo pode ocorrer, mas a impressão que se tem é que, nessa primeira denúncia, ele consegue salvar-se. No entanto se fala que o procurador da República tem outra denúncia para ser protocolada, e vem na esteira de novas delações premiadas do Eduardo Cunha, do  doleiro Funaro, que podem agravar a situação de Temer.

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