A cultura pós-guerra na terra do sol

Publicação: 2011-06-16 00:00:00
Yuno Silva
repórter

Há um clima de nostalgia no ar. Mais que isso, há todo um sentimento que circula sobre a província para se remontar a memória de uma Natal cosmopolita. Capítulo importante dessa história é a saudosa Sociedade Cultural Brasil-Estados Unidos, que ganha destaque nas páginas do livro “Nos bons tempos da SCBEU – viagem nas memórias dos anos dourados de Natal”, do professor Juarez Chagas. O lançamento do título, que sai pela Sebo Vermelho Edições com 600 páginas e cerca de 900 fotografias, será amanhã (sexta, 17) às 18h, no Iate Clube de Natal, embalado pela banda Anos 60.
A SCBEU tomavatodo o quarteirão entre a Getúlio Vargas e rua Cel. Joaquim Manoel, no bairro Petrópolis
A publicação custará R$ 50 na ocasião, com direito a autógrafo do autor – depois poderá ser encontrado nas principais livrarias da cidade por R$ 70.

“A Scbeu, criada em 1957, tinha status de academia e sua trajetória se confundiu com a história da própria sociedade natalense na época. Foi lá que funcionou o primeiro cinema driving e a primeira biblioteca da cidade, criada por Zila Mamede em 1958. Sem falar dos intelectuais que participaram da fundação da escola, um ano antes de também fundarem a Universidade Federal”, relembra Chagas, exaltando a importância da primeira escola de inglês da capital potiguar. “Gente da alta sociedade, artistas, intelectuais... três gerações estudaram na Scbeu”, aponta o escritor, responsável pela edição mais volumosa já publicada pela Coleção João Nicodemos de Lima (326 títulos) do Sebo Vermelho.

Vale registrar que Zila viria a criar a biblioteca estadual Câmara Cascudo em 1969 e a Central da UFRN em 1974. A poeta e bibliotecária, ao lado de outras 42 personalidades do quilate do médico Onofre Lopes; do jurista Edgar Barbosa; do ex-governador Tarcísio Maia; do advogado Dalton Melo; Dom Nivaldo Monte; Humberto Nezi; Otto de Brito Guerra; Protásio de Melo, entre outros nomes não menos importantes no contexto histórico e social da cidade, participou da fundação da escola – que funcionou em um casarão com vista para o mar, no alto da Av. Getúlio Vargas, Petrópolis, próximo ao Hospital Universitário Onofre Lopes, em um terreno que ia até a Rua Cel. Joaquim Manoel (onde hoje funciona o edifício Harmony Medical Center). A escola ocupava um quarteirão inteiro.

A Guerra Fria e o rock and roll

Aluno, professor e derradeiro diretor da Scbeu, que funcionou entre 1957 e 1983, Juarez Chagas chegou a iniciar o livro logo após o encerramento das atividades da escola, mas percebeu “que se escrevesse a história completa seria um livro policial”, conta Desistiu por um tempo. Mudou o foco, e só retomou o projeto em 2005: “Preferi ressaltar o lado bom dos tempos da Scbeu”, pondera. O livro traz um rico acervo de documentos e fotografias que o autor conseguiu evitar que fossem parar no lixo – o autor tem todos os originais e contou com muitos colaboradores.

Chagas faz referências históricas e culturais para contextualizar o período retratado com o que andava rolando pelo resto do mundo, e lembra que as primeiras bandas de garagem conheceram o rock’n roll através do acervo de LPs e compactos da biblioteca. O pioneirismo da Scbeu também se reflete na realização das primeiras matinês e festas americanas da cidade. “O primeiro Halloween só foi promovido em 1963 devido a resistência das pessoas em comemorar um dia dedicado às bruxas”, diverte-se.

A partir do livro de Juarez, pode-se entender como Natal continuou sendo ‘bombardeada’ pela cultura yankee mesmo depois da Segunda Guerra Mundial: “A Scbeu foi a primeira instituição binacional da cidade (Brasil-EUA), era um pedaço da América do Norte aqui e tudo o que acontecia lá fora chegava à cidade através da escola”, garante o autor. “Era uma maneira dos Estados Unidos marcarem presença durante a Guerra Fria com os soviéticos”, acrescentou.

Entre a turma roqueira presente “Nos bons tempos da Scbeu...” destaque para o cantor e compositor Leno; Reinaldo Azevedo, da banda Anos 60; os irmão Lima (Fon, Eustáquio e Lóla) d’Os Vândalos; e o jornalista Petit das Virgens, visto em retratos empunhando seu violão. O livro de 63 capítulos também traz 200 depoimentos de ex-alunos, professores e diretores da instituição. “Não tenho dúvidas que se trata de um registro histórico importante para se compreender as transformações e o momento atual da cidade”, disse Juarez, com um ar de saudade no olhar.

O outro lado da história

A trajetória da Scbeu também guarda um lado obscuro, mal explicado, sobre a venda do enorme terreno onde funcionou a escola. Situado em área nobre, de localização privilegiada, a propriedade foi alvo da cobiça imobiliária a partir do momento que o governo norte-americano resolveu se desfazer do imóvel.

Segundo o jornalista Petit das Virgens, um dos personagens retratados no livro “Nos bons tempos da Scbeu...” de Juarez Chagas, na época do Governo (Jimmy) Carter, presidente dos EUA entre 1977-81, a política norte-americana entrou em choque com o modus operandi do presidente-general Ernesto Geisel (1974-79). “Estávamos em plena Ditadura Militar e, por conta de questões ligadas aos Direitos Humanos, os Estados Unidos resolveram se desfazer de todas as propriedades no Brasil – o terreno da Scbeu estava no meio dessa história, e o então diretor da escola na época teve a prioridade para comprar ou vender o terreno”, lembra Petit.

“Ele (o então diretor) ofereceu a área para um conhecido construtor e político da cidade, que tentou comprar a área direto com a Embaixada Norte-Americana no Recife. Para garantir a prioridade de venda, o então diretor teve que acionar a justiça. Ganhou o processo e no fim das contas vendeu o terreno por um valor bem abaixo do praticado no mercado”, disse o jornalista. “O comprador até se comprometeu a construir uma escola em parte da área, como forma de compensar o ótimo negócio, mas ficou só na intenção mesmo. Ex-diretores chegaram, inclusive, a cogitar a abertura de uma auditoria, mas perceberam que as investigações poderiam envolvê-los também.

“Perdemos um importante patrimônio arquitetônico, cultural e educacional em nome da especulação. A Scbeu era um paraíso, verdadeiro filé do ponto de vista imobiliário”, garante Petit das Virgens, que chegou a escrever uma matéria na época (dando todos os nomes aos bois) sobre o episódio da venda do terreno, mas lamenta nunca ter sido publicada.

Depoimentos

“Era bom sair pelo portão de trás, descendo a colina através de seu enorme e bem cuidado gramado. Tão grande que, hoje, vários condomínios poluem a paisagem por lá.”
Leno, cantor e compositor, aluno do Scbeu entre 1963 e 64.

“Era um dos mais importantes points da cidade na época. Nunca deveria ter se acabado. Este livro será um louvável resgate à sua memória e importante para a história da cidade.”
Carlos Eduardo Alves, ex-prefeito, advogado, aluno entre 1973 e 75.

“A minha lembrança mais remota de entrar naquele enorme território, é de quando a meninada da redondeza, com baladeiras e zarabatanas, ia lá para caçar lagartixas e calangos (…) Lembro também daquela biblioteca que abrigava discos de música norte-americana.” Luiz Lima (Lóla), instrumentista e compositor, aluno entre 1962 e 73.

“Foi a melhor escola de língua inglesa que tinha em Natal. Merecia todo o apoio da comunidade.” Pery Lamartine, escritor e ex-vice-presidente da Scbeu.