É de manhã...

Publicação: 2019-12-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Não tenho dúvidas, Senhor Redator, da aura de sensualidade que cerca as mulheres quando passam de manhã bem cedo pelas calçadas deste Morro Branco que nunca deixaram ser bairro e, até hoje, muito injustamente, é um humilde pedaço escondido do Tirol. Sigo com os olhos quando caminham absortas, quase sempre sem maquiagem, os cabelos ainda cheios de sono, levadas por um ar blasé como se parecessem esquecidas da própria beleza sedutora. 

Vejo daqui, desta pequena varanda, de onde acompanho a manhã e espero o sol pular os morros e cair no chão dorminhoco da ruazinha. Ou então, mas raramente, lá dos alpendres da biblioteca arremedados nos traços coloniais em telha vã. Deixam-se levar no passo lento, como se puxadas por seus cachorrinhos, cães de agrado e companhia que animados fuçam aqui e ali acendendo o faro nos cheiros das calçadas, enquanto elas, suas donas, só admiram.

Não ouso puxar conversa. Tenho medo que aconteça de novo aquele desfecho trágico de uma figura local que imbuído do melhor da arte da sedução elogiou a cadelinha de uma mulher bonita que passava. Resolveu perguntar se vivendo só a cadelinha não sofria com sua solidão, e se não seria bem melhor ter um companheiro. A mulher, intérprete fiel e sincera, respondeu que a ter a companhia de quem não desejava era até muito melhor viver sozinha.

Olhando sem ser notado, por precaução, ainda assim desconfio que elas não sabem da sensação de paz que é vê-las de manhã cedo no passeio com seus cachorrinhos. Cumprem a orientação dos veterinários que recomendam fazê-los andar. Assim, exercitam os músculos levando-as também a longas e calmas caminhadas. O que de resto ajuda a conservar por mais tempo o rijo frescor das carnes femininas, a quem a biologia impôs a maldição das celulites.

Usam shorts ousadamente curtos que insinuam revelar o proibido aos olhos estranhos ou vestem aquelas calças compridas e pretas, justas como uma segunda pele. E caminham pelas calçadas, desavisadas de qualquer perigo, iluminadas pela discreta e bem-comportada sensualidade que mal se anuncia no seu passo sensual. E exalam um calmo e belo pudor que, principalmente nesses tempos desabridos, há de ter também sua parte no mistério encantador.

Eis tudo o que vejo e posso contar da pequena altura desta varanda que se abre para as ruas e os morros. É como um janelão cheio de dias, noites e madrugadas. Ou a gávea de uma velha nau de onde é possível olhar esse mundo daqui de galos anunciando o sol quando cochila do outro lado dos morros. E os ventos banzeiros que nesses tempos de verão fogem do mar e chegam alegres, lambendo o rosto da gente, enchendo de vida os dias que amanhecem. 

PALCO

SONHO - Os funcionários estaduais da administração direta ainda esperam a boa notícia de que a governadora Fátima Bezerra poderá pagar um dos três meses dos três ainda em atraso.

JOGO - O deputado José Dias reclama, mas sabe: o pouco tempo para debater a reforma da previdência no RN é jogo jogado. Estratégia conjunta da própria Assembléia com o governo.

POSSE - Não será antes do início de abril a posse do juiz federal Ivan Lira como imortal da Academia Norte-Riograndense de Letras. As atividades da Academia voltam após o carnaval.

LUXO - A editora Rocco antecipa os 100 anos, em 2020, de Clarice Lispector e relança logo as obras completas. Com o luxo de capas criadas por Victor Burton, ícone das artes gráficas.

PAIXÃO - A edição da revista Cult que está nas bancas revela a paixão do escritor Albert Camus pela atriz espanhola Maria Casarés e transcreve algumas de suas belas cartas de amor.

LUTA - Sai o ‘Chamamento ao Povo Brasileiro’, da Ubu, os textos de Carlos Mariguella organizados por Vladimir Safatle com as apresentações de Antônio Cândido e Jorge Amado.

MIMO - Esta toca, guardada por tatus que vigiam suas salas, tem agora a mais perfeita edição fac-similar de ‘Mensagem’, de Fernando Pessoa. O historiador Manuel Neto trouxe de Lisboa.

MISSÃO - De Dino, o melancólico filósofo do Beco da Lama, sobre a tarefa do jornalismo nesses tempos de estranhas conveniências: “Só cumpre a obrigação se levar o leitor a pensar”.  

CAMARIM

HISTÓRIA - A França, através da representação diplomática no Brasil, pretende comemorar  em Natal os 90 anos do voo histórico que representou, para os franceses, a primeira travessia aérea do Atlântico,  no avião ‘Comte La Vaulx’, um feito heroico pilotado por Jean Mermoz.

POUSO - Mermoz partiu de Saint-Louis do Senegal às 11h30, dia 12 de maio de 1930, hora local, ao lado de Dabry, o navegador, e do radiotelegrafista Gimié, e pousou nas águas do Potengi no dia seguinte, 23 de maio, às 7h20, após voar sobre Atlântico 21 horas e l0 minutos. 

VIDA - A vida e os feitos de Mermoz estão contados nas mais de novecentas páginas de sua nova e reveladora biografia do escritor natalense Roberto Silva que acaba de ser escrita com revelações, inclusive na vida de Mermoz em Natal. Vai ser lançado nos 90 anos da travessia.

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