A decantação

Publicação: 2020-09-11 00:00:00
Vicente Serejo 
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Ninguém se iluda e, para se perceber, não precisa negar os seus méritos: o ex-juiz Sérgio Moro não chegará à galeria dos candidatos a presidente da República, com peso, sem as boas qualidades que angariou, mas se for capaz de mantê-las e transformá-las em prestígio popular. Ele pode encontrar nas ruas o monstro que ele mesmo criou quando besuntou Lula do repúdio coletivo, mas também com a criatura que amamentou e depois foi capaz de devorá-lo inteiro.   

O poder é uma máquina capaz de moer heróis, ídolos e vilões com uma sem-cerimônia espantosa. Não se trata de enquadrar o ex-juiz Sérgio Moro numa das categorias mencionadas, mas de admitir, por precaução e reserva de raciocínio, que ninguém, no poder, tem a garantia de que não corre o risco de ser engolido. Ninguém sabe moer melhor e mais friamente do que o presidente Jair Bolsonaro todo aquele que, de alguma forma, for uma pedra no seu caminho. 

Por uma razão óbvia: a primeira estratégia do poder é sua manutenção. Não importa o preço de devorar ministros que lá tenham chegado como ídolos ou até heróis. O poder destrói e, justamente por ser o poder, reconstrói-se. Não foi sofrido para Jair Bolsonaro abrir mão dos esteios do seu populismo eleitoral, lançar mão dos ídolos que incensou, buscar o centrão, trocar simpatias e sair firme do outro lado do desfiladeiro levando seu poder na garupa do seu cavalo.

Hábil, Bolsonaro tem convivido com a retórica das reformas ditas modernizadoras, mas   não hesitou em abrir as burras do governo, garantido pelo estado de calamidade e o orçamento de guerra, para voltar ao Estado-Protetor. Logo descobriu que a farta e necessária distribuição de renda com o auxílio emergencial era bem mais eficiente do que todos os gráficos de déficits terroristas do ministro Paulo Guedes e que não era tão iminente assim a tal derrocada anunciada. 

Ora, se é verdadeira a boutade do ex-ministro Delfim Neto, de que nem os economistas vão conseguir destruir o Brasil, muito menos conseguirão mudar a prática da política brasileira, principalmente a ponto de convencer que o poder venha a abrir não do poder em nome de uma revolução modernizadora. Muito menos com a magia do neoliberalismo de Paulo Guedes que sequer tem o aplomb de bruxo capaz de ser o bom encantador da serpente chamada Bolsonaro. 

Esta coluna não é - e não tem sido, trincheira na defesa dos métodos do ministro Rogério Marinho. Mas, as inquietações do ministro Paulo Guedes refletem com nitidez seu amadorismo político, se antes não revela algo pior - a mania de imaginar ser rei num reinado feito de muitos vassalos. Quanto mais esperneia, mas perde substância e dilui o caldo fraco de sua performance, ele que tem sido útil para ser, e personificar, o lado mau do poder. Sua decantação já começou. 

LUTA - Protocolada a ação indenizatória dos proprietários dos 1.500 hectares não indenizados na área do aeroporto Aluísio Alves. E pede o embargo caso a União não assegure o pagamento. 

BASÍLICA - A matriz de Acari, de Nossa Senhora da Guia, a padroeira, pode ser Basílica, o grau honorífico mais elevado que o Direito Canônico confere aos símbolos de grade fé da Igreja.

HISTÓRIA - Erguida em 1863, o sonho do povo de Acari é uma luta de fé liderada pelo padre Fabiano Dantas e conta com o prestígio do padre Flávio Medeiros que hoje atua no Vaticano.  

RECORDE - A euforia do Idema ao anunciar a concessão de trezentas licenças ambientais em apenas seis ou oito meses, só será testada quando, na prática, for constatado seu acerto técnico.

CUIDADO - Não significa negar o cuidado com estudos prévios na aprovação final de projetos, com garantia de que seus efeitos não engessam a economia, nem venham ferir o meio-ambiente. 

CORRETO - Certíssimos o governo e a prefeitura de Natal quando cancelam o ano letivo de 2020. É lembrar: o ano letivo tem 180 dias de aulas. Ministrá-lo em três meses seria uma fraude.

RAZÃO - De um deputado livre-atirador e venenoso, sem papa na língua, ontem, boquinha da noite: ‘A Assembleia rejeitou a CPI da Arena das Dunas porque acabaria entrando no plenário”. 

OLHAR - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois do terceiro uísque para matar o Covid: ‘O encanto de algumas mulheres está na falsa timidez que os olhos escondem’. 

REFORMA - Na visão de um dos atuantes deputados de oposição, o hibridismo da decisão da Assembleia, ao adotar o modelo de duas formas - virtual e presencial - nas suas sessões, embora justo em razão da pandemia, amortece ainda mais o debate em torno da reforma previdenciária. 

ARTIFÍCIO - E afasta o grito da posição da área sindical dos servidores públicos na hora em que a luta é para preservar os direitos legítimos e sofre a perda de conquistas que, na verdade, esconde a clara proteção previdenciária dos grande salários. Em nome da crise, pagam os fracos.

LIMITE - O modelo híbrido pode perdurar até depois de setembro, limite federal para que os estados aprovem suas reformas e se integrem às medidas nacionalmente adotadas. A oposição resiste com seus 11 votos, mas não se sabe até quando. Só o Legislativo pode evitar suas perdas. 





Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.