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Quadrantes
A destruição de Mozart
Publicado: 00:00:00 - 01/05/2022 Atualizado: 15:21:35 - 30/04/2022
Cláudio Emerenciano 
Professor da UFRN

A madrugada avança. Um manto de friagem cobre a cidade. Enquanto a chuva alterna uma densidade forte, impetuosa, molhando intensamente telhados e as ruas, ou simulando parar com pingos renitentes e constantes. A cidade dorme. No aconchego dos lares os sonhos poderiam ser comparados a pontos de luz. Tudo se passa na consciência e nos corações dos homens. Atos de doação, entrega, disponibilidade e de autêntica irmandade. Enquanto solidária partilha de sofrimentos enfeixa a cena predominante nos hospitais. Mães estreitam pela primeira vez, com ternura indescritível e indisfarçável emoção, os filhos que acabaram de nascer. Todos, no regaço de suas mães, vivem instantes em que a luz e as vibrações da vida os surpreendem: contrastes com o ventre materno. Cada um tem direito ao amor. Todos são, infinitamente, fruto do amor de Deus. Desfrutando amor humano, poderão testemunhá-lo por toda a vida. Como revelar e praticar o amor se não o conhecerem? Sem o vivenciarem?   

Naquela madrugada o curso da vida exibe contrapontos, contradições e enigmas. Há os que repetem, em casebres ou em casas de todos os tipos, em apartamentos, nas favelas, juras de amor tão puras e tão belas quanto às de Romeu e Julieta. Pois a densidade do amor é eterna. Após tantos séculos, os sentimentos são os mesmos em substância, natureza e sentido. Nada mudou. São universais e intemporais.

Prometem, como Abelardo e Heloísa, que o ato de amor jamais será esquecido ou perdido. É infinito pelos laços ali nascidos, extravasados e consagrados. Outros, sem consciência de sua amplitude, nem de sua dimensão espiritual, proclamam jamais se perder um ao outro.

Mesmo tendo de empreender jornada tão impensável quanto à de Dante: à procura de Beatriz na “Divina Comédia”. Há os que, indormidos, amargam o sentimento da perda de um ente familiar, querido e inesquecível. Ou um amigo, que sedimentou vínculos inesgotáveis.

Mas há também os que, pela reflexão, pela oração, pelo recolhimento espiritual, ascendem a outras dimensões. Realizam voos sobre o mundo. Procuram contemplar e entender as tragédias humanas. Imaginam-se acima das nuvens, muito além, questionando o sentido de tudo quanto revela a Criação. E, por mais que conheçam a realidade e seus absurdos, ou seja, o legado da insensatez, assumem o espanto e a perplexidade de um personagem de Voltaire, “Micrômegas”, um visitante interplanetário, aparvalhado ante o espetáculo de estupidez, violência, mesquinharia, mediocridade, injustiças, indignidade e hipocrisia dos homens. Eis um cenário que, infelizmente, em escala planetária, estimula a perda do discernimento, da crítica, da avaliação serena, impessoal, justa e objetiva. A “globalização” deflagrou um processo de egolatria, isto é, do culto individual a si mesmo. Há uma erosão da capacidade de indignação pessoal e coletiva. A maior dimensão do homem é espiritual e moral. Cada um assimila e exercita sua dignidade. O que não acontece atualmente. Sobretudo no Brasil. Adulteram a alma, a cultura, sentimentos e valores do povo. Há de se perguntar: - para onde vamos? Sectarismos estúpidos e boçais afrontam a alma do povo.

Wolfgang Amadeus Mozart foi um gênio. Aos quatro anos dava concertos e aos cinco compunha. É o símbolo universal das potencialidades humanas. Saint-Exupéry associou-o a uma flor incomparável: bem tratada, cultivada, ampliará seus atributos. Contrariamente, em geral, as nossas crianças são embrutecidas por uma sociedade materialista, insensível, ignorante e sem amor.  É a destruição de Mozart.

Crianças ucranianas, que se encontram refugiadas com suas famílias no interior da siderúrgica Azovstal, na cidade de Mariupol, revelam ao mundo, consternado e traumatizado, expressões arrebatadoras de sua pureza sem fim. Uma menina de sete anos, por exemplo, num caderno traça e pinta pássaros e animais domésticos. Um deles, um cavalo azul, que me fez remontar ao belo livro de Diógenes da Cunha Lima, em justa homenagem ao ilustre conterrâneo Dr. Djalma Marinho. Seu título: “O homem que pintava cavalos azuis”. Na página treze, Diógenes reporta a “História da Etúria” e à resposta de um artista para explicar suas pinturas: “Eu sou o homem que pinta cavalos azuis, como os vejo”. Enquanto o exército russo, implacavelmente, cerca a área, objetivando sua aniquilação, fuzileiros ucranianos resistem heroicamente. Reedição contemporânea dos “300 das Termópilas”. As crianças, promessas de novos gênios, parecem repetir o vate português dos tempos dos descobrimentos: “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, pois quando o homem sonha, o mundo pula e avança...”. Não se pode privar a humanidade de sonhar, desejar, aspirar e idealizar. Também não se pode imaginar o triunfo irreversível dos tiranos. Todos, ao longo da História, acabam mal. O Mahatma (Grande Alma) Gandhi foi taxativo e premonitório: “Quando me desespero lembro-me de que em toda a História a verdade e o amor sempre venceram. Houve tiranos e assassinos e, por um tempo, eles parecem invencíveis, mas, no final, sempre caem. Pense nisto. Sempre.”

Crianças que sofrem em todo o mundo. Vítimas de guerras, violências de todo gênero, injustiças, miséria. fome, abandono etc. Cinco milhões de ucranianos, em sua grande maioria mulheres e crianças, abandonaram seu país, completamente devastado por militares russos. Não há limites para as mentiras, o cinismo e as maldades de Vladimir Putin. Por inúmeras vezes, ele e seus prepostos na ONU, afirmaram que invasão militar da Ucrânia seria incogitável. Mas a verdade e o amor vencerão.  

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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