A desumanização

Publicação: 2021-01-23 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

O que se vê em meio à pandemia é uma guerra suja pelo poder. Em que vale qualquer golpe baixo. Desde a mais acintosa e deslavada mentira às mais agressivas ofensas pessoais. Cada um tenta puxar, a todo custo, o tapete do outro, pública ou clandestinamente. Não me surpreenderia se a coisa chegasse a ameaças de desforço pessoal. E não se diga que esse entrevero tem motivações ideológicas. O pessoal que está brigando não sabe sequer o que é ideologia. Embora a moda hoje seja se declarar de direita. O que é que esse rótulo significa para quem o adota como se fizesse uma profissão de fé? Se indagado, o direitista se limitaria a dizer que é contra a esquerda e o comunismo.

E se alguém avançasse mais pedindo uma definição dessas posições que o militante de direita combate, haveria uma enxurrada de absurdos e despautérios ou talvez de desaforos e xingamentos. Nada racional ou consistente. Decididamente ninguém está pensando em ideologia. Está pensando, na realidade, nas eleições de 2022. Enquanto isso, os espectadores que se estraçalham nas redes sociais torcem por seus ídolos como fazem as torcidas organizadas de times de futebol – com fanatismo e obsessão. São reproduzidos incansavelmente os áudios e vídeos tendenciosos que a propaganda feita pelas lideranças recomenda que sejam divulgados. Os bons soldados cumprem ordens, sem discutir.

Sinto que está ocorrendo uma espécie de desumanização. A prioridade não vem sendo conter o agravamento da pandemia pelos meios mais eficazes. A preocupação dominante, que acirra divisões e conflitos, é político-eleitoreira. A hora não é de definir culpas e responsabilidades pela tragédia. Tenho a convicção de que o negacionismo é genocida. Sem ele, haveria menos casos e menos mortes. Mas não é isso que verdadeiramente interessa agora. É preciso antes de tudo superar a crise sanitária e sua irmã gêmea, a crise econômica. Um desafio que tem de ser enfrentado com todas as forças de que dispõe a nossa sociedade, com todos os meios que podem ser mobilizados pela nação brasileira.

Será que governantes e políticos não percebem que o momento exige união, coesão, harmonia, identidade de ações e objetivos? Será que estão de tal forma entorpecidos pelo desvario do poder e pela ambição de mantê-lo ou expandi-lo que não são capazes de gestos de grandeza, de abrir mão de seus mesquinhos projetos pessoais? Será que não pensam no país, que parece ter perdido a bússola da História, e em sua população massacrada pela covid-19? Será que se transformaram em zumbis? 

Depois de uma longa e sofrida espera, a vacinação se iniciou na pátria que merecia ser bem mais amada do que a amam (se é que amam) os que cantam o hino nacional (se é que cantam) nas solenidades oficiais. Ainda assim, sob impacto de desavenças próprias das republiquetas de bananas. Proponho, sem pieguice, um novo tipo de solidariedade: a vacinal. Vamos desalojar – pelo menos, temporariamente – a odiosa polarização de nossa mente e pautar as nossas atitudes pela tolerância!   

Os céticos dirão: isso é utópico. Pode ser, sim, mas é a melhor forma de conviver com a distopia do programa de vacinação, das ameaças à democracia e da paranóia criada por um vírus “serial killer”.  











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