A dimensão de um homem

Publicação: 2019-07-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A dimensão da vida de cada pessoa é singular e substancialmente diferente de quem quer que seja. Eis um aspecto fantasticamente heterogêneo. Múltiplo e imensurável como os grãos de areia. O homem tem dentro de si e em seu redor manifestações da amplitude universal. Mas, infelizmente, a grande maioria, em todas as nações, culturas e tempos, por sua maneira de ver o mundo e a vida, tolhe-se e não enxerga. Perde a sensibilidade para identificar seu lugar no conjunto da harmonia e da beleza universais. Enfim, amar, conhecer e desfrutar o amor infinito de Deus. Mas tudo começa com a disponibilidade e a determinação para servir ao próximo e à sociedade.

Há homens que se projetam além do seu tempo. Realizam ações, criam, inventam, concebem, sonham, avançam. Promovem a ascensão espiritual, cultural, científica, moral, ética e tecnológica de sua coletividade, de sua nação ou da própria humanidade. Sem dúvida alguma, é mais fácil detectar essa contribuição individual à sociedade do que avaliar a magnitude de alguém no âmbito de sua privacidade. Difícil é conhecer o universo daquelas relações em que, anonimamente, uns se doam aos outros. Partilham sem esperar reciprocidade, motivados pela consciência de que todos são irmãos em Deus. Somente Deus e cada um em sua consciência desvendam plenamente a dimensão humana. A verdade para o homem é aquela que faz dele um verdadeiro homem. Projeta-o além de si mesmo. Eleva-o aos espaços transcendentais. Eis uma concepção que emerge dos ensinamentos de São Paulo, que teve a visão do infinito. Pois o bem frutifica. Fermenta no coração dos homens amor, paz, solidariedade e justiça. Por isso os que desfrutam do reconhecimento da sociedade exibem em suas biografias mistura entre si e a busca do bem comum. Não se pertencem. Convertem-se em legado, que se transmite às novas gerações. Semeiam esperanças. Nesse sentido, o tempo não se demarca nem se individualiza. Porque uma nação é o que é, o que foi e assim será. É uma entidade, um ser, uma alma intemporal, coletiva, que se aperfeiçoa, evolui, sem deformar, contraditar ou corromper sua própria gênese, isto é, tudo quando a gerou e a criou.

Paris, 1840. Retornavam os restos mortais de Napoleão Bonaparte. Mais de um milhão de franceses, silenciosos e emocionados, reverenciavam a passagem do sarcófago para o "Museu dos Inválidos". Entre eles, Hypolite Taine (historiador) e Stendhal (romancista). Concluíram que o "Corso" seria lembrado por seu legado universal: os Códigos Civil e Comercial, o Tribunal de Contas e a consolidação do conceito de unidade nacional. Essas coisas estariam acima do seu gênio militar e de suas vitórias. O francês comum sempre associaria a ele, por todo o futuro, a grandeza de sua pátria. Do mesmo modo, Juscelino Kubitschek plantou seu nome nos corações dos brasileiros das gerações contemporâneas e futuras. Deflagrou um processo de modernidade sem fim, que se irradiou de Brasília: industrialização, urbanização e interiorização irreversível do Brasil. Afonso Arinos de Mello Franco, um dos mais ilustres e conspícuos homens públicos brasileiros, mineiro como Juscelino, seu vigoroso opositor (era membro da "banda de música" da UDN), foi conciso e taxativo ao avaliá-lo como estadista: "Juscelino se sobrepõe à História. Seu nome viverá mais de mil anos". Homens que não se julgam por suas contradições, erros ou fragilidades. São os casos de Churchill, Roosevelt, Gandhi, João Paulo II, De Gaulle, Nelson Mandela. Suas ações pelo coletivo definem sua dimensão. Não se pertencem. São exemplos vivos. Incessantes. Perenes. Serão sempre fonte de inspiração para as gerações futuras.

Há um ensinamento do mestre Cascudo invariavelmente atual: "será sempre o universal dentro do regional". Há atitudes, exemplos, modos de ser, viver, agir, pensar e querer, circunscritos ao nosso Estado ou à nossa cidade, que possuem sentido e substância universais. Ninguém pode ignorar que a criação e funcionamento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte mudaram a face do Estado. Em muitos sentidos. Tampouco não se pode deixar de associar essa instituição ao Dr. Onofre Lopes da Silva. Menino pobre, nascido no distrito de Comum, município de Nísia Floresta. Médico humanitário. Homem digno, austero, visionário, obstinado e de elevado espírito público. Faleceu em 13 de julho, dia também do seu nascimento. Dr. Onofre conjugou altivez, dignidade, retidão, coerência, coragem pessoal e espírito público. Em novembro de 1968 a minha turma (Faculdade de Direito) estava às vésperas da diplomação (ocorreu em 8/12/68). O restaurante universitário, então funcionando na Av. Deodoro, fora ocupado por estudantes. A conjuntura do país era instável, culminando em 12 de dezembro com a mais brutal irrupção de autoritarismo: o AI-5. Havia um impasse. A turma deliberou constituir comissão, que integrei, objetivando uma solução pacífica. Dr. Onofre, por três ou quatro vezes, acolheu-nos na Reitoria. Apesar dos preconceitos e do "patriotismo" de alguns condestáveis da instituição. Dr. Onofre nos deu "carta branca", preservados certos termos legais e morais. Dialogávamos com ele, os rebelados e mais ninguém. O Reitor foi taxativo com as autoridades federais. Não admitiria uso da força: "o chão da Universidade é sagrado". Suas condições foram, por fim, aceitas. O líder do movimento pediu garantias para chegar à Casa do Estudante. Os estudantes saíram um a um.  Dr. Onofre e eu testemunhávamos à retirada no portão, enquanto o carro do Reitor conduzia o estudante líder ao seu destino. Conheço inúmeros outros episódios em que se ressaltam seu caráter, sua visão e seu amor pela UFRN e o RN. Dr. Onofre é exemplo e viva inspiração. Foi um menino pobre cuja vida o consagrou para o bem comum. Eis um homem cuja dimensão se projeta no tempo. Seu legado é imperecível.      



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