A discussão política e as programações mentais passionais

Publicação: 2020-05-23 00:00:00
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Francisco Glauber Pessoa Alves
Juiz Federal (JFRN) e Doutor em Direito

O General Charles de Gaulle, que liderou a França durante a II Guerra Mundial e depois a presidiu de 1959 a 1969, cunhou uma frase célebre: “Como nenhum político acredita no que diz, fico sempre surpreso ao ver que os outros acreditam nele”. A lógica lúcida da conclusão é desconcertante! Sendo a política visceralmente ligada à sociedade humana, eis que reflete relações de lideranças e liderados nos mais diversos ambientes, antes de ser ignorada, deve ser estudada e dissecada através da razão. Desde a Antiguidade Grega já se anteviam as consequências da omissão em participar da vida política. Platão já apontava que não “há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.

Em “The political brain” (O cérebro político), de 2007, de Drew Western (Universidade de Emory), o autor recapitula experimentos que demonstram o comportamento previsivelmente irracional do eleitorado. No mesmo sentido, na obra “The political mind” (A mente política), de 2008, George Lakoff (Universidade da Califórnia, em Berkeley) procura demonstrar que 98% das decisões de escolha ocorrem inconscientemente e sob influência de emoções que nem sequer desconfiamos possuir. Em apertada síntese, a escolha do eleitor é feita com base não na razão, mas nas emoções positivas ou negativas que cada um dos postulantes e seus partidos (eventualmente, suas ideias) despertam em nós, por meio de suas narrativas. Só a posteriori buscamos uma argumentação racional para justificar a decisão.

O voto é algo que essencializa as aspirações de dado eleitor naquele momento histórico específico. Não trato aqui do eleitor que quer ver no cargo um parente ou uma pessoa mais próxima, almejando um benefício imediato com a eleição (= cargo, emprego etc). Falo do eleitor solidário, que se apaixona pelas ideias verdadeiramente republicanas (ou o que se aproxima disso) do candidato e do grupo político que representa. Ele acredita que o seu ungido será o melhor para o exercício da função.  É um direito que a todos assiste. Voto, felizmente, existe para isso.

Sendo assim, natural que a energia direcionada ao seu candidato transforme-se, caso ele seja eleito, em um escudo de otimismo e de esperança. Ele é composto pela autoproteção e pela negação a tudo aquilo que afronte a dedicação em torcer para que o escolhido honre, em tese, suas promessas.  Críticas não são racionalizadas, pensadas, e, principalmente, aceitas. Reconhecer os defeitos da escolha política é reconhecer os próprios defeitos, afinal. Assume-se, no subconsciente, um compromisso de defender a escolha pelo tempo que durar a vida do eleito, justificado apenas pelo voto dado num momento específico, como se fosse um cheque em branco sem limite de crédito ou prazo. Ou ainda como se as expectativas e a ausência de cobranças restassem congeladas no dia da vitória.

Trata-se de um viés cognitivo próprio, específico e humano; uma programação mental passional. Nenhuma fonte de informação que não diga exatamente o que você quer ouvir é válida ou fiável.  O cérebro economiza energia nessas situações, reforçando as próprias crenças – e limitações – e ignorando as posições contrárias, por mais racionais e adequada que sejam. É um mecanismo instintivo.

E o eleitor se vê num paradoxo desconcertante: os erros do seu candidato passam a ser negados e os novos passam a ser ignorados. O senso crítico some e qualquer censura de outrem feita ao candidato passa a ser entendida como a censura ao próprio eleitor.  “Pera lá!! Ninguém pode botar defeito na minha escolha!!” Ora, mas se ao espalhá-la anteriormente aos quatro ventos, você buscou o reconhecimento da sua opção como sendo a melhor, como a memória dos outros haveria de esquecer o que você disse?! O desconforto é quanto à mensagem contrária, quanto ao mensageiro ou quanto à verdade contida na mensagem?!

A neurociência tem estudado isso com mais vagar (Van Bavel JJ, Pereira A. The Partisan Brain: An Identity-Based Model of Political Belief). Diz-se que os lobos frontais do cérebro são os responsáveis pela manipulação do pensamento. Neles é que se situa nossa habilidade de negar, de omitir, de criar uma estória e, sim, de mentir. Cabe ao córtex pré-frontal e ao giro do cíngulo anterior, responsáveis pelo nosso senso crítico e bom senso, agirem para fazer o equilíbrio da assimilação, análise e valoração do conjunto de informações que nos é posta à disposição. E como há informação hoje em dia! Em um smartphone temos acesso a muito mais dados do que qualquer biblioteca medieval (HARARI, Yuval Noah. Homo sapiens). Ainda assim, o obscurantismo permanece em nossos dias.

Dizia o filósofo italiano Umberto Eco: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Opiniões despidas de conteúdo, transmitidas em redes sociais, são aceitas e reproduzidas como se fatos (e não opiniões infundadas) fossem, num fanatismo insensato que se repete independente da matriz ideológica do candidato ardorosamente defendido. Pessoas pouco instruídas replicam esse pensar, claro, mas, pasmem (!), também os estudados, supostamente cultos e educados, procedem da mesma forma. Estes não podem ou devem se dar a este luxo. Indivíduos de bem defendem condutas politicamente e mesmo legalmente indefensáveis, familiares e amigos fincam bandeiras pela defesa de maus políticos com argumentos frágeis e tortuosos, como se houvesse a possibilidade de defender-se o culpado sem virar cúmplice. Embora a falta de formação intelectual seja justificada no analfabeto, não há perdão para a omissão do instruído.

Voltaire, paradigma do racionalismo já afirmara, jocosamente, no século XVIII que quando “o povo começa a raciocinar, é porque já está tudo perdido”. A pergunta-chave é se, depois de séculos de acúmulo de informação e de conhecimento, aprimorando nosso cérebro e nossa cultura, continuaremos a fazer opções políticas com base no pior conselheiro para isso (= o coração), ao invés de valer-nos da razão? E se continuaremos defendendo-as vergonhosamente à míngua de razão e ética?





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