A dona da galinhada do Alecrim

Publicação: 2018-10-28 00:00:00 | Comentários: 1
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

O potiguar tem carinho pela própria comida. Claro que não todos, mas aqueles com ligação às coisas da terra sim. E movidos por saudosismo gustativo, esses potiguares não dispensam um bom prato tradicional, típico, onde além do sabor em si, é possível degustar boas memórias. Em Natal, um lugar bastante procurado por saudosistas da comida afetiva é o Restaurante de Totoia, na Rua Mirabeau, no Alecrim, carismático bairro que em outubro está comemorando 107 anos de história.

À frente do restaurante está Dona Ozenir Cabral, de 73 anos, a Totoia. O apelido ela herdou do marido, junto com o restaurante, quando ele faleceu em 1995. Desde então o estabelecimento passou a ser sua vida, e a atividade na cozinha, seu grande lazer. O pequeno restaurante é uma extensão de sua casa, onde ela atende a clientela fiel para o almoço.
Ozenir Cabral herdou o apelido Totoia do marido é famosa pelos quitutes preparados em sua casa no Alecrim
Ozenir Cabral herdou o apelido Totoia do marido é famosa pelos quitutes preparados em sua casa no Alecrim

Apesar de ter começado pra valer na cozinha somente na década de 90, depois de se aposentar como professora, Totoia já mostrava seus dotes culinários na primeira fase do estabelecimento, uma bar na esquina da mesma rua. A aptidão para preparar saborosos pratos ela começou a desenvolver aos 14 anos, na sua cidade de origem, Itajá, no Vale do Açu. Foi lá que Ozenir recebeu os primeiros elogios, vindos dos cortadores de carnaúba que trabalhavam para seu pai.

Sobre sua trajetória na cozinha, o bairro do Alecrim e a história do restaurante de 43 anos, cuja galinha caipira é uma das mais famosas de Natal, como fama até nacional, Totoia conversou com a TRIBUNA DO NORTE.

Itajá

Comecei a cozinhar com 14 anos, fazendo comida para os trabalhadores do meu pai que cortavam carnaúba. Ia com minha avó levar a refeição. Os trabalhadores gostavam, diziam que quando a comida era de Ozenir dava até gosto de trabalhar. Acabei ficando como a chef lá do Oiticica.

Direto para o Alecrim

Cheguei em Natal em 1964. Vim morar logo no Alecrim. Quando cheguei já tinha todas essas casas da rua. Uma coisa que sinto saudade é do povo que vendia leite na porta de casa. O leiteiro vinha num jumentinho, batia o sino e a gente vinha lá de dentro da casa com um caldeirão, comprava três litros de leite.

Tem das serestas

Também gostava bastante de passear por aqui. Todo domingo eu ia com Totoia tomar uma cervejinha lá no Cantinho da Jia e comer jia assada. Era bom demais! Os barzinhos aqui tinham seresta. A gente voltava pra casa de manhã sem nenhum aperreio. Antigamente também tinha a Churrascaria Dom Pedrito, na avenida 2. Hoje é a Veneza. Tinha muitos barzinho, como o Bar de Pedro, é do tempo do nosso. O Arnaldo também começou aqui, com um bar num ponto onde hoje é o Bar de Chico Capim.

Debulhar feijão na calçada

O bairro hoje está muito diferente. Uma das coisas que lamento é não poder mais sentar na calçada para debulhar feijão, que era o que a gente fazia antes. Um saco de feijão verde debulhando com a vizinhança. Contando histórias, rindo. Hoje temos que ficar de porta fechada por causa da violência gritante.

Feira do Alecrim

Na época do bar e no começo do restaurante a gente comprava muita coisa lá na feira. Até hoje a gente compra a farinha lá. Acho que o nome do dono da barraca é Luiz. É ele outra pessoa que vende. O alecrim é o melhor bairro. Aqui tudo é perto, supermercado, hospital, banco. Gosto demais de morar aqui. Dá pra resolver tudo. Como o povo diz, “se você não encontrar no Google, procure no Alecrim.

O bar de esquina

Começamos com um bar, o Bar do Totoia, meu marido. No começo a gente só vendia tiragosto de pé de balcão. Peixe-frito, buchada, picado, ova de curimatã. Foi uma época muito boa. Aquele bar recebeu até ministro. Fiquei me perguntando o que diabos esse homem foi fazer ali, naquela espelunca. Foi com um amigo de Natal. Comeram peixe, galinha, tomaram cachaça. O homem foi usar o banheiro, aqueles banheiros bem rústicos. Quando o pessoal ia no banheiro, passava por dentro da cozinha, que era enorme, via as panelas no fogo, destampavam pra sentir o cheiro da comida.

Da esquina para a garagem de casa

O bar era um espaço alugado. O dono pediu de volta e tivemos que sair. A gente tinha essa casinha aqui então continuamos o estabelecimento aqui. Fizemos uma reforma. Você vê que a casa não tinha nenhum perfil de restaurante. Desde o barzinho quem cozinhava era eu. Não é que eu queira dizer que só eu que sei cozinhar. Mas é que eu tento manter o sabor de quando comecei e que agradou as pessoas. Tenho pouquíssimos clientes do Alecrim. São frequentadores antigos. Acho que eles vêm aqui pelo saudosismo dos pratos do interior, como Galinha Caipira, Carneiro Guizado.

O apelido

Totóia era meu marido. Herdei não só o restaurante, como o apelido dele quando ele morreu. Eu era professora, ensinava em várias escolas. Só vim vestir a camisa do restaurante mesmo quando me aposentei, em 1994. No ano seguinte meu marido morre, então assumo o lugar. Deu certo. Até hoje estou por aqui E estou nessa porque é a coisa que mais tenho prazer em fazer. Me identifico muito com essa atividade.

Aprovada pelos chefs

Alex Atala veio aqui no ano passado. Ainda estou com as fotos no celular. Ele estava dando uma palestra na Festa do Boi e depois veio jantar aqui. Já era tarde, eu tava sem nada pronto. Ele queria algum fruto do mar. Ofereci caviar, o nosso caviar, um caldinho de ova de curimatã. Eles já veio por aqui outras vezes também. Vez por outra fala de fazer uma galinhada lá em São Paulo. Eu digo que se ele me chamar eu vou. Mas outros chefs conhecidos também passaram por aqui. Marcelo Sampaio, chef e garimpador de sabores novos, falou bastante do meu restaurante. Érick Jacquin foi outro que conheci aqui. São todos pessoas bem agradáveis, peguei muitas dicas com eles.

Quando as galinhas eram abatidas em casa

Eu compro as galinhas vivas. Olho direitinho uma por uma. Antes era eu que abatia as galinhas. Sangrava para tirar à cabidela. E fazia aqui em casa mesmo, no terceiro piso. Foi uma determinação da Covisa. Não podia misturar o local de abate com a cozinha. Como aumentou a demanda, não demos mais conta. Agora elas são abatidas numa galeteria. Já trazem elas cortadas e a gente higieniza.

Alecrim pra sempre

Já recebi muita proposta pra sair daqui. Mas eu já tô com idade. Começar tudo de novo seria complicado demais pra mim. O restaurante tem o tamanho que eu dou conta. E eu acho agradável trabalhar aqui. Quando acaba o expediente, eu já adianto algumas coisas do dia seguinte. Gosto de ir pra cozinha à noite, com a cozinha toda limpa. Faço as sobremesas, doces. Depois subo as escadas e vou dormir.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários

  • tonni.castro

    Salve o bairro do Alecrim, sua história, sua gente honesta, trabalhadora e integrada á paisagem do bairro, como é o caso do pessoal à frente desse restaurante, simples, rústico mas profundamente acolhedor.