A dona da história

Publicação: 2014-03-19 00:00:00
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Yuno Silva
Repórter

Era uma vez... uma mulher que adora sonhar. Ela vivia se perguntando o que fazer para aliar trabalho com o prazer de ser feliz e levar felicidade a outras pessoas. Não que fosse triste, pelo contrário, o bom humor sempre fez parte de seu cotidiano e estava decidida a compartilhar isso com o mundo que a rodeava. O seu querer era tanto que, uma noite,sonhou como nunca havia sonhado: cercada por crianças de todas as idades, ela se viu brincando e correndo. Contando histórias e se divertindo muito. A experiência foi tão real, mas tão real, que acordou no meio da madrugada na dúvida se estava mesmo dormindo!

Quando o dia amanheceu, Dalva Lúcia Avlis nunca mais foi a mesma. Assumiu a identidade nada secreta de Daluzinha e começou a contar histórias por todo lugar, aos quatros ventos, onde quer que chegasse. Assim, a odontóloga por formação se transformou em uma grande contadora de história. Isso aconteceu há quase seis anos; hoje sonha acordada.

Leituras sem parar
À frente da Maratona Potiguar de Contação de Histórias, evento que chega a sua segunda edição com uma programação de 50 horas ininterruptas, Daluzinha Avlis recebe outros contadores e, claro, o público, para uma ‘overdose’ de “Era uma vez...” no IFRN-Cidade Alta. A Maratona começa nesta quarta, às 8h, e só termina às 10h de sexta-feira (21). O acesso é gratuito, a censura é livre, e a garantia é de varar dias, noites e madrugadas com histórias de todos os tipos – para crianças, jovens e adultos. A única exigência é se deixar levar, embarcar junto nessa viagem onírica que celebra o Dia Internacional da Felicidade (ONU) e o Dia do Contador de Histórias – 20 de março, data criada em 1991 na Suécia.

Nesta segunda Maratona, a grande novidade da programação será o batizado lúdico-literário, que acontece hoje às 16h, abençoado por artistas de vários segmentos como o flautista Carlos Zens, que estará representando os músicos. Durante o batizado coletivo, Zens e Daluzinha estarão acompanhados por um professor, um escritor infantil, um poeta, um artista plástico (Djalma Paixão), um dançarino, representantes de etnias e da área de saúde (Ana Tânia Sampaio).

Na primeira versão do evento, realizada em 2012 no Solar Bela Vista, a Maratona potiguar de Contação de História reuniu mais de 2 mil crianças e contou com uma equipe de 85 voluntários. “Viramos as noites sempre com público”, garantiu Daluzinha por telefone ao VIVER. Na primeira edição ela dormiu 2h15, e agora disse estar preparada para dormir “no máximo” 3h.

A contadora de história adiantou que as crianças “menorzinhas” podem ficar até às 18h, mas os adolescentes podem esticar até mais tarde – ou mesmo varar a madrugada se acompanhado pelos pais ou responsáveis. O evento irá fornecer água aos participantes, mas o lanche é por conta de cada um.

Alucinação de ser feliz
Servidora pública, responsável pelo setor de educação da Vigilância Sanitária Estadual, setor que ajudou a idealizar, Dalva Lúcia, ou melhor, Daluzinha lembra que passou três anos buscando respostas para seu desejo de atrelar trabalho e prazer: “Quando tive o sonho achei que estava ficando louca, ou tendo algum tipo de alucinação”, recordou. Ela atendeu areportagem da TRIBUNA DO NORTE em um salão de beleza, cabine ‘secreta’ onde a dentista vira contadora de história.
Dalva Lúcia: Viramos as noites sempre com público
Naquela madrugada, quando tudo aconteceu, começou a escrever, colocar as ideias no papel, e bem cedo acordou a filha mais nova, Tatiê, para contar o sonho. “Ela me perguntou espantada se eu estava ficando maluca, mas logo gostou da ideia. Em seguida liguei para a mais velha, Tilie, que estava morando em Belo Horizonte: deu apoio na hora e disse que contação de história era a minha cara”, comemora. A primogênita falou para a mãe que ela gostava de contar histórias “nas festas, na hora de dormir” antes de sonhar com aquilo. “Na hora não lembrei de nada, depois é que fui percebendo que sempre tinha sido uma contadora de história”.

Maratona de histórias terá mais de 200 voluntários


Natural de Areia Branca (RN), e graduada no Rio de Janeiro, cidade para onde mudou com a família ainda bebê, Daluzinha destaca que o ato de contar histórias também funciona como instrumento educacional e cultural. “Promove alegria, solidariedade, saúde e paz”, acrescentou a contadora profissional de histórias.
Ano passado a Maratona de contações atraiu crianças e pais
A primeira edição da Maratona aconteceu em 2012, no Solar Bela Vista, e, segundo ela, reuniu mais de 2 mil crianças. “Para conquistar a confiança das pessoas, e das escolas que procurei para fazer o convite, disse que tinha uma super equipe de voluntários me ajudando. Na verdade ainda estava só, procurava contadores de histórias há dois anos, mas até o dia do evento consegui juntar 85 voluntários. Dessa vez seremos mais de 240 voluntários”. Ela enumerou entre voluntários contadores de histórias policiais militares, religiosos, advogados, escoteiros, nutricionistas, artistas plásticos, músicos e professores.

Contando apenas com apoio formal do IFRN, ela convida voluntários que possam filmar, fotografar e/ou tocar violão. A proposta é promover a Maratona de dois em dois anos, e nos intervalos colocar em prática o projeto “Distribuindo Baraka”, que pode ser entendido como distribuir ‘energia vital’ em grego ou ‘bençãos’ – conceito difundido entre segmentos islâmicos do continente africano.

“Quero agradecer todo mundo que está envolvido, e para não esquecer ninguém cito minha voluntária número um, minha mãe, Vovó (Maria Dalva) Avlis, que faz minhas roupas, aventais e tapetes que uso nas contações”.

Serviço
2ª Maratona Potiguar de Contação de Histórias. De quarta (8h) até sexta-feira (10h) no IFRN-Cidade Alta. Acesso gratuito.