A dona do Fole

Publicação: 2018-10-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Destrava o fole, mão direita no teclado, mão esquerda nos botões, pronto, fez-se o som. Um único instrumento – mas que parece três –, é capaz de contagiar o dia de qualquer um com alegria. Música para sorrir, aproximar as pessoas, dançar, contemplar. A sanfona é tudo isso. Instrumento que chegou ao Brasil e foi tão bem adotado. Faz parte do imaginário do Nordeste. E em Natal, se tem alguém que conhece todos os segredos desse instrumento, essa pessoa é a musicista Suzete Sales, de 76 anos. Oito baixos, 48, 80, não importa, ela domina.

Suzete Sales, sanfoneira e professora de música
Suzete Sales, sanfoneira e professora de música

Nascida em Caraúbas, na tromba do elefante, quando ainda pertencia ao município de Apodi,  Suzete começou na arte da sanfona aos 9 anos, contra o desejo da família, uma família musical – de avô, pai, mãe e tios. Da resistência dentro de casa, ela passou a enfrentar o preconceito nas ruas de uma Natal dos anos 50. E foi assim, com a sanfona nos braços, que ela foi fazendo seu nome.
Sua base no acordeon é o clássico: chorinho, bolero, fox, valsa. Forró? Só nos anos 70, ao retornar de uma temporada no Rio de Janeiro. E seu retorno foi de cabeça. Montou a primeira banda de forró formada só por mulheres, As Potyguaras. Tocou em todo o Nordeste e pelo Sudeste. Foram nove anos de atividades. Mas Suzete precisou interromper a carreira por motivos pessoas. Depois de nove anos fora dos palcos, ela se prepara para voltar, ao mesmo tempo que segue fazer uma das coisas que mais ama: dar aulas de acordeon.

Família de músicos
Fui gerada em meio ao som da sanfona. Meu avô era agricultor. Quando chegava do trabalho tomava banho, pegava o fole de oito baixos dele e ia tocar forró pra ganhar mais um dinheirinho. Levava os filhos, um tocava pandeiro, outro cavaquinho. Tudo lá em Caraúbas. Meu pai era caminhoneiro, viajava com a sanfona no caminhão. Durante a noite ele não pegava estrava. Parava onde tinha uma pousada e pegava a sanfona pra tocar. Minha mãe tocava cavaquinho.

Enfrentar a resistência da família
Quando eu disse que queria uma sanfona, ninguém em casa gostou. Meu pai dizia que não queria filha dele tocando em boteco. Mas eu via toda minha família tocando e ficava doida para aprender e participar daquilo. Insisti. Chorei muito para conseguir. E aos 9 anos ganhei minha primeira sanfona. Não era um instrumento popular entre as mulheres. Sofri muito preconceito. Mas eu escolhi esse instrumento desde bebê.

Um presente pra nunca mais esquecer
Minha primeira sanfona era pequenininha, uma de 48 baixos. Deu para tocar com ela até os 19 anos, quando precisei me desfazer dela para conseguir o dinheiro da passagem para o Rio de Janeiro. Fiquei sem ela. Mas antes eu tinha comprar uma outra, com meu próprio dinheiro, o dinheiro que eu fui juntando das festas que fazia ao tocar com a outra. Era uma de 80 baixos, imitação das italianas. Foi a que levei para o Rio. Quando voltei a Natal, vim com uma sanfona nova, italiana legítima. E a de 80 baixos deixei pelo Rio mesmo, doação para uma comunidade religiosa.

Estudar a sanfona
Na minha época, ali pelos anos 50, era muito difícil encontrar um professor de acordeon em Natal. Eu fui aprendendo aos poucos. Uma das minhas primeiras escolas foi uma que veio do Rio de Janeiro. Alguém me viu tocar na cidade e me deu uma bolsa para estudar lá. Foram seis anos estudando nessa escola. Depois fui para o Neves, só porque queria aprender a ler partituras. No Rio, estudei na Escola Villa-Lobos. E na volta a Natal, conclui o curso de música na UFRN.

Chorinho e bolero
Nos anos 50 em Nata tocava mais chorinho, bolero, fox, samba, valsa. Depois que veio Luiz Gonzaga. Então a minha formação foi de acordeon clássico. Mas quando o forró foi chegando, eu fui pegando de ouvido. Via o pessoal aglomerado e me metia no meio. Magrinha, pequenininha, com a sanfona. Toquei muito na Praça Gentil Ferreira. Tinha muitos sanfoneiros típicos, de fole de oito baixos, tocando forró pé-de-serra lá. Toquei muito com Zé Meninino. Em qualquer lugar que eu ouvia uma batida eu já ia pra lá com a sanfona.

Festas de bairro
Antes de ir para o Rio toquei muito nas quadrilhas de bairro. Mas não tinha pagamento. Eles me davam um corte de tecido, frango, guiné. Não era dinheiro, mas eu ficava feliz demais. Também tocava bastante na Assen, na Prudente de Morais. Acho que era o primeiro clube da cidade. Me encontrava com o melhores sanfoneiros para tocar. Nesse período também gravei meu primeiro LP. Eu tinha 19 anos.

De carroça pela cidade
Antigamente não tinha muitos meios para se divulgar. Então eu fazia o que? Vestia uma roupa bem extravagante, alugava uma carroça e sai pela cidade só eu e o carroceiro guiando o burrinho. Pegava a carroça na praça de São Pedro, perto do Cemitério do Alecrim, sentava no banquinho e ia tocando no ritmo da passada do animal. Ia até as Rocas e voltava. Depois pagava o carroceiro e retornava pra casa com a sanfona na cabeça.

Professora mirim
Eu comecei a dar aulas de acordeon aos 10 anos de idade. Cheguei a ter turmas de mais de 30 alunos, a maioria meninas. As mulheres não levavam pra frente. Naquele tempo o sonho delas era de casar e ser mãe.

Tocar para presos do Centro de Dentenção
Ainda pequena eu juntava uma turma para toda quinta-feira ir tocar no Centro de Detenção de Natal [hoje Centro de Turismo]. A gente fazia isso voluntariamente, no horário dos presos pegarem sol. Foi uma iniciativa da minha cabeça. Também fazia isso no Hospital das Clínicas [hoje Hospital Onofre Lopes], com as freiras, na hora de lazer do pessoal. Nas favelas era a mesma coisa, eu ia às margens da linha férrea das Quintas. Eu vestia meu uniforme de escoteira e ia angariar donativos para ajudar os pobres.

No Rio de Janeiro
Fiz um curso de datilografia sem meu pai saber e me mandei para o Rio, sozinha, com 24 anos, sem nunca ter saído do Estado antes. Tocar sanfona não dava dinheiro. Minha intenção era ir para o Rio fazer meu pé-de-meia e voltar pra terrinha. O ano era 1971. Quando fui para o Rio fui formada em acordeon, mas não fui para tocar. Arranjei trabalho num laboratório de revelação de fotos. No Rio estava em alta o samba. Me casei com um músico que era guitarrista. A gente tocava muito MPB.

Luiz Gonzaga
Nunca vi um show do Luiz Gonzaga. Meu pai, sim. Mas eu ouvia as músicas dele desde criança, em Caraúbas, quando passava o carro de som na rua com os anúncios de pasta de dente, de sabonete, de talco Ross, e a música era do Luiz Gonzaga. Eu corria pra calçada, ficava pulando com os braços pra cima. Era uma música vibrante, diferente do clássico que foi o que primeiro aprendi.

Do clássico para o forró
Eu só fui tocar forró mesmo quando voltei do Rio, isso em 1988. Encontrei o forró forte em Natal. Fiquei tocando avulso, formando pequenos grupos para tocar conforme surgiam os convites. As vezes com forró, às vezes com bossa nova, para casamentos. Já toquei também repertório francês, espanhol. Participei de festivais e de concursos. Eram muitos sanfoneiros, mas só tinha eu de mulher. Comecei a receber vários convites. Acabei sendo a primeira mulher a tocar em banda de forró estilizado aqui em Natal. Não gostei muito da experiência então pensei em criar meu grupo, as Potyguaras.

Uma banda só de mulheres
Montei as Potyguaras no ano 2000. Era uma banda só de mulheres, eu na sanfona. Que eu tenha notícias, foi a primeira banda de forró só com mulheres. Por isso que chamou tanta atenção. E a gente tocava forró autêntico. O repertório ia de Luiz Gonzaga a Alcymar Monteiro, passando por Flávio José. Fizemos show no Sudeste e principalmente no Nordeste. Toquei muito na minha Caraúbas também. Foram nove anos em atividade. Mas pare já tem nove anos por causa do meu marido. Ficou doente, tive que cuidar dele. Ele faleceu faz pouco tempo. Agora tenho seguido com minhas aulas e estou me preparando para voltar a tocar.




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