A elegância crítica de João Bosco

Publicação: 2018-04-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

O cantor e compositor João Bosco se apresenta em Natal no próximo domingo, às 20h, no Teatro Riachuelo, lançando o seu novo disco “Mano que Zuera”. Além de conhecer as novas canções, o público também poderá cantar junto os principais sucessos da carreira do artista mineiro.

Um dos maiores compositores da MPB está de volta a Natal com o novo show “Mano Que Zuera”
Um dos maiores compositores da MPB está de volta a Natal com o novo show “Mano Que Zuera”

Entre as novas composições, há parcerias com seu filho Francisco Bosco, uma delas é a canção “Nenhum Futuro”, onde faz um retrato do Brasil em desalento; recriação de “Sinhá”, composta com Chico Buarque e que agora ganha ares e sotaques cabo-verdianos; “Ultra leve”, criada com Arnaldo Antunes; outra tendo Roque Ferreira como parceiro; e ainda seus “sambas duro na queda”, compostas com o tradicional parceiro Aldir Blanc. Mano Que Zuera é uma referência ao que estamos vivendo hoje no País. Confira o bate-papo com o artista, por telefone:

Desde 2009 você não lançava um disco com material inédito. Por que tanto tempo sem gravar?
Eu não concordo com isso. Eu acho que vocês que escrevem sobre música têm uma visão sobre ineditismo que é muito diferente da minha. Ineditismo pra mim tanto pode ser uma música realmente, como o nome diz, inédita, ou também pode ser uma impressão sua sobre uma música já existente, de tal forma que você transforme essa releitura em algo diferente, não experimentado antes por outra pessoa. Porque se nós formos considerarmos esse caminho como definição de inédita, o que seria dos músicos instrumentistas que vivem das releituras de músicas de outros compositores que já até faleceram, já tiveram centenas de gravações  de outros músicos. Então, eu acho que a atividade criativa é a que interessa. O ineditismo faz parte dessa atividade criativa. Eu não considero estar trabalhando apenas quando estiver fazendo uma coisa inédita. Eu considero meu ofício como músico estar trabalhando com a música, seja num disco inédito; como em “Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão”, de 2009;  ou seja em DVD, por exemplo, como “Obrigado, Gente!”, de 2006, onde eu estou relendo músicas, inclusive que eu já havia gravado, mas de forma completamente diferente; ou então em “João Bosco: 40 Anos Depois”, de 2012, onde interpreto Antônio Carlos Jobim, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, também de forma peculiar, pessoal. Eu considero isso um trabalho de criação.

Há uma espécie de convenção de mercado de que se o artista não lança algo inédito todo ano é porque não está produzindo.
Essa é uma concepção um pouco anêmica, um pouco destituída de saúde, de vigor. Hoje nós já podemos ter uma visão diferente daquilo que é o ofício do artista enquanto músico. É isso que eu queria só deixar claro pra gente tentar mudar um pouco essa reflexão sobre o ineditismo.

Então fale um pouco sobre o seu mais recente trabalho, “Mano que Zuera”.
É um disco que considero orgânico, porque é gravado praticamente ao vivo, que é como eu sempre gravo meus discos. Sempre foi assim desde o princípio. Mas nesse disco, especificamente, você sente muito a presença da voz e do violão, como algo detonador do início da sua concepção. Seria basicamente um disco de voz e violão com alguns convidados. De repente, um tchelo aqui, um violão de sete cordas ali, uma guitarra ali... E apenas na música-título que a gente deu um luxo de tentar traduzi-la do jeito que ela é mesmo, com alguns naipes de sopro, porque ela é desse mundo, pede isso.

E como você leva esse disco para o palco? Como está esse show?
Canto uma boa parte do disco. Deve ter pelo menos umas oito canções do disco. O que é, no meu entendimento, um pouco, digamos assim, “puxado” para o público, que geralmente gosta de acompanhar as músicas mais conhecidas. Mas ao mesmo tempo, com um pouco de paciência da parte dele, vai ver um bom trabalho, pois é um quarteto de músicos muito criativos. Mas também tem muitas conhecidas, que o público gosta.

Você participou do quadro Ding Dong, do Faustão, com “Papel Machê”, numa recepção bastante calorosa do público. O que você pensa de renovação de público hoje no Brasil e o diálogo com as novas gerações?
Eu te confesso que eu não tenho muito uma leitura sobre esses dados, como isso se processa, enfim. Eu acredito que a gente tenta ir construindo a carreira da gente, e tentando fazer dessa carreira algo importante na vida da gente, com comprometimento, com profundidade, tentando sempre surpreender as pessoas com alguma coisa. Nesse programa do Faustão, a gente tocou “Mano que Zuera” e as pessoas receberam aquilo muito bem. Uma música desconhecida, que nunca foi executada antes. Mas é porque o público tem uma certa confiança no artista que ele gosta. Ele confia no artista e acredita que esse artista pode surpreendê-lo sempre que isso for possível.

E acho também que gerações de pais e filhos acabando passando um pouco para os que estão ouvindo dentro de casa, um pouco daquilo do que eles escutam, que eles gostam, aquelas músicas que eles também acompanham. E muitas vezes as gerações que estão vindo estão ali ouvindo aquilo também, acidentalmente ou por acaso, e acabam descobrindo um autor que não faz parte da geração deles, mas que de repente tem uma comunicação com eles através dessa música. Isso acontece de forma natural. Mas não é uma preocupação minha fazer a música pensando em atingir essa ou aquela geração. A música diante das minhas necessidades criativas, me aprofundo naquilo e me entrego aquilo, e de repente fico torcendo pra aquilo se transformar em alguma coisa palpável e que as pessoas possam descobrir algo interessante ali dentro. Mas não é coisa que eu venha estudar, me preocupar como é que isso se procede. Eu sou muito ingênuo dentro dessa leitura mercadológica.

Serviço
João Bosco lança “Mano que Zuera”. Domingo, dia 15, às 20h, no Teatro Riachuelo. Informações: 4008 3700.


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