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A essência dos adjetivos
Publicado: 00:00:00 - 11/10/2020 Atualizado: 11:23:39 - 10/10/2020
João Maria de Lima
Professor

Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Mt 20,16

Machado de Assis, maior escritor da literatura brasileira, cunhou a seguinte frase: “Os adjetivos passam e os substantivos ficam”. Não há o que contestar no pensamento machadiano. Aliás, trata-se de bela sentença para chamar a atenção ao uso exagerado de adjetivos, pois a linha que separa a vagueza da eficiência em sua aplicação pode ser muito tênue. O adjetivo precisa acrescentar precisão e economia à frase. Nunca enfeitar o enunciado.

Adjetivos bem selecionados têm o poder de determinar a atmosfera de um texto. Em histórias de terror, por exemplo, são eles que dão o tom assustador e ajudam a criar, nos leitores, as impressões necessárias para aceitar os fatos extraordinários que serão narrados.

Substantivo e verbo são a roupa e o sapato da frase. As demais classes gramaticais, os acessórios. Adjetivos, advérbios, pronomes, artigos indefinidos e outros devem ser usados com pão-durismo. Ensinou Monteiro Lobato, "o adjetivo é escasso e sóbrio — vai abundando progressivamente à medida que descemos a escala de valores".

Voltando à frase de Machado, realmente os adjetivos passam. O caro, o barato, o feio ou bonito, o esperto, o pobre ou o rico mudam de condição. O arroz estava barato; agora, está caro. O bonito pode ficar feio; o humilde pode ficar arrogante. O doente pode recuperar-se; o forte fica fraco; e o raivoso pode virar amoroso.

Adjetivos bem-vindos particularizam o nome. Dão validade à informação. Observe: “Comprei uma calça azul”. “Gosto de camisas brancas”. “Dois jogadores argentinos se destacam no campeonato brasileiro de futebol”. Nesses casos, “azul”, “brancas” e “argentinos” prestam um senhor serviço à frase. Tornam o nome mais particular. Eu não comprei qualquer calça, mas a calça azul. Não é de qualquer cor de camisa que gosto, mas da branca.  Os jogadores poderiam ser brasileiros, paraguaios, chilenos ou colombianos. O termo “argentinos” elimina as demais possibilidades.

Além de caracterizarem os referentes dos substantivos, os adjetivos cumprem outra importante função: estabelecer, com o substantivo, relações de tempo, de espaço, de finalidade, de procedência etc. São os denominados adjetivos de relação. Observe: prova mensal (tempo); bairro americano (espaço); azeite espanhol (procedência); pronto-socorro cardiológico (finalidade).

Por outro lado, há adjetivos que contaminam, como um vírus, o substantivo. São os adjetivos-ônibus. Vazios e sem graça, não acrescentam informação ao nome. São tão inespecíficos que podem se juntar a qualquer substantivo. É o caso de “maravilhoso”. O cantor pode ser maravilhoso. A casa pode ser maravilhosa. O professor pode ser maravilhoso. A noite pode ser maravilhosa. Tudo pode ser maravilhoso. Conclusão: “maravilhoso” não diz nada. Da mesma linha, temos “excepcional”, “fantástica” e “bonito”.

Certos adjetivos, quando vêm acompanhando determinados substantivos, formam chavões pela insistência do uso: ascensão meteórica, lucros fabulosos, inflação galopante, congestionamento monstruoso, prejuízos incalculáveis, vitória esmagadora. Não é difícil desfazer o mau gosto. Basta esquecer o adjetivo e especificar o substantivo: lucros fabulosos (lucros de R$ 3 bilhões em um ano), inflação galopante (inflação de 60% ao mês), congestionamento monstruoso (congestionamento de 100km), vitória esmagadora (85% dos votos válidos). 

A escritora Marta Medeiros define bem a relação “substantivo X adjetivo”: “O substantivo é a alma, o adjetivo é a lágrima. O substantivo é o amor, o adjetivo é o beijo. O substantivo é o crime, o adjetivo é o sangue. Ambos complementares, porém o substantivo é o conteúdo, o adjetivo é apenas o papel de embrulho”. É importante atentar para a funcionalidade do adjetivo; afinal “Quem receber um profeta por ele ser profeta, terá uma recompensa de profeta. Quem receber um justo por ele ser justo, terá uma recompensa de justo”( Mt 10,41).

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