“Estamos com novos modelos de assistência”

Publicação: 2018-11-11 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Em aproximadamente 18 meses, a Unimed Natal conseguiu crescer, na contramão do mercado da saúde suplementar no Brasil, 13%. Pelo menos 15 mil novos clientes foram incorporados à cartela da cooperativa que hoje conta com 150 mil usuários do plano de saúde no Rio Grande do Norte.

Créditos: DivulgaçãoFernando Pinto, presidente da Unimed NatalFernando Pinto, presidente da Unimed Natal
Fernando Pinto, presidente da Unimed Natal

Os números positivos, de acordo com o presidente Dr. Fernando Pinto, são frutos de várias ações. Ele lista, na entrevista a seguir, algumas delas. O reposicionamento e articulação no mercado, lançamento de novo portfólio de produtos mais amplo e robusto estão entre as ações implementadas desde abril do ano passado e que contribuem para o crescimento da empresa.

Outro ponto destacado pelo presidente da cooperativa foi zerar o pro rata (que consiste no rateio da receita pelas despesas) dos médicos cooperados em setembro deste ano. Com isso, foram repassados mais valores para os médicos cooperados. Esse e outros pontos são abordados pelo Dr. Fernando Pinto na entrevista. Acompanhe.

O Brasil ainda sente os reflexos da crise econômica que tirou muita gente do mercado de trabalho e que fez com que os brasileiros adotassem um novo sistema de vida. A Unimed conseguiu ir num caminho diferente. Como isso foi possível?
Na realidade, a Unimed realmente caminhou na contramão da Saúde Suplementar. Nós perdemos, de 2014 para 2018, em torno de três milhões de usuários. A Saúde Suplementar tem direta relação com a questão da economia. Em função da queda do PIB e, principalmente, do desemprego há, normalmente, uma queda no número de usuários de planos de saúde. Na nossa situação em específico, na Unimed Natal, desde que nós assumimos a gestão em abril do ano passado, a empresa chegou a crescer 13%. Para se ter uma ideia, a Saúde Suplementar nesse período, ela na realidade encolheu. E mesmo tendo uma certa melhora na economia, não houve uma resposta no mercado em relação ao número de usuários. O nosso aumento se deve, principalmente, a ações de mercado.

De que forma?
Nós implementamos um novo portfólio de produtos da Unimed. Não só portifólios básicos, mas também portifólios diferenciados para dar assistência a usuários que querem planos diferenciados, com planos fora de Natal, com cobertura nas áreas de São Paulo e Rio de Janeiro, como também produtos que atendiam a uma faixa popular. Então, a gente diferenciou o portifólio de produtos. Além disso, houve uma massificação de campanha junto às corretoras de planos de saúde para fortalecimento da marca Unimed. Foi todo um trabalho de mercado realizado através de campanhas, de treinamento de corretores e, obviamente, com políticas de incentivo para essas vendas. Isso permitiu que a empresa tivesse esse crescimento e nós chegamos a atingir em torno de 150 mil vidas. Houve um crescimento de carteira em torno de 15 mil vidas em relação aos números que nós tínhamos. Isso se deve, também, a um trabalho de profissionalização do setor no mercado. Nós temos centros técnicos especializados na área, não só na parte de mercado, mas também na parte assistencial e administrativo-financeira.

Dentro desse crescimento no número de clientes e vidas asseguradas pela Unimed houve também crescimento da inadimplência ou está dentro do que a empresa considera aceitável e como a Unimed tem trabalhado para reverter esse quadro?
A inadimplência sempre existiu. Nesse cenário econômico conturbado, principalmente em decorrência do desemprego, muitas pessoas cancelam ou param de pagar o seu plano de saúde. O que nós estamos fazendo aqui é incentivando a política de retenção desses clientes, de fazer negociações com flexibilização de prazos de pagamentos, redução de multas e juros para que esse cliente possa permanecer no plano. Nós sabemos que, muitas vezes, é uma situação pontual em função da questão econômica e que, posteriormente, ele vai voltar a utilizar o plano. O setor de saúde é, talvez, o último a ser afetado dentro da economia pela necessidade, por ser um serviço essencial. Às vezes, as pessoas cortam outras despesas e deixam o plano de saúde. Mas, quando o plano de saúde pesa no bolso,  compromete a receita do usuário em relação à sua alimentação, ao aluguel, às despesas com educação e etc., há um sacrifício do plano de saúde. Nós temos incentivado essa política de poder   permitir esse clientes e facilitar para ele permanecer no plano.

Um ponto que chama atenção e que talvez pouca gente saiba é o valor que a Unimed movimenta mensalmente. Qual a importância disso para a economia potiguar?
A empresa tem uma importância enorme dentro desse cenário. Hoje, a Unimed tem um volume de arrecadação superior à Prefeitura de Mossoró, que é a segunda maior cidade do estado. E, de certa forma, apesar de se ter uma arrecadação elevada, as despesas assistenciais são muito altas. A margem de lucro de uma operadora de saúde é muito pequena. Ela chega a 2% a 2,5%. Isso é o que acontece com a maioria das operadoras. E o custo assistencial cresce, às vezes, de maneira exponencial. O custo assistencial cresceu, de um ano para o outro, cerca de 16%. Isso é superior a todo o reajuste que existe pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Esse é uma grande desafio para todas as operadoras de planos de saúde.

O que significa o custo assistencial?
É todo o custo que é gasto com consultas, exames, com procedimentos e internações médicas. Um outro problema é que a inflação médica é normalmente muito maior que a inflação convencional. A inflação dos planos de saúde no ano de 2017 foi 13,53%. Enquanto o IPCA foi 2,95%. Só aí se tem mais de quatro vezes a inflação em cima de materiais, de medicamentos, de órteses e próteses e etc.. Apesar de se ter uma arrecadação elevada também se tem uma despesa assistencial muito alta. Essas despesas assistenciais, eu diria, são hoje o maior desafio para qualquer operadora de planos de saúde. Além dessa questão, o que impacta na despesa assistencial é o que a Agência Nacional de Saúde Suplementar faz a cada dois anos.

O que ocorre nesse intervalo de tempo?
Ela joga um rol de novos procedimentos. Por exemplo: novas cirurgias, novas tecnologias, novos medicamentos e cada vez que isso é colocado, impacta no resultado das operadoras e em todo o cálculo assistencial. Se um usuário não tinha cobertura em determinado procedimento ou medicamento, ele passa a ter. E, obviamente, isso impacta porque a cada dois anos são acrescidos novos procedimentos. Além disso, nós temos, de certa forma a parte de judicialização, ressarcimento ao SUS, que é uma obrigatoriedade das operadoras e gastos muito elevados em relação aos exames de diagnósticos. Muitas vezes, existe um uso abusivo e eu até diria de desperdício. Nós temos uma série de exames normais, repetidos e uma série de exames que o usuário sequer vai pegar. A Unimed chega a gastar, mensalmente, cerca de R$ 15 milhões só em exames de diagnósticos. Uma das coisas extremamente importantes é a utilização racional desses exames. Fazendo uma Medicina baseada em evidência e, obviamente, não comprometendo a liberdade individual de cada profissional. Mas, muitas vezes, grande parte dos recursos são desperdiçados. Outro problema é a questão de novas tecnologias. A incorporação de novos procedimentos, de órteses e próteses, materiais e equipamentos caros são incorporados a cada ano. Isso termina impactando também dentro do custo assistencial.

Quais são os procedimentos que mais impactam, os mais onerosos?
Os procedimentos quimioterápicos. Se gasta muito anualmente com a utilização dessas drogas. A cada ano, o mercado lança drogas diferentes com tratamentos com custos elevadíssimos. Mas não somente os quimioterápicos, as drogas chamadas de imunossupressoras. Elas tem indicação, principalmente, para tratamentos de algumas patologias reumatológicas. O rol da ANS, na sua última publicação, trouxe uma série de novas drogas que não se tinha conhecimento e elas impactaram, sobremaneira, no custo assistencial das operadoras. Outra coisa que impacta bastante é a utilização das órteses, próteses e materiais. Existem cirurgias com custo mais elevado como as neurocirurgias, cardíacas, vasculares e ortopédicas. Todas elas utilizam materiais especiais e de custo elevado.

A Unimed Natal é uma das principais apoiadoras da cultura local. Como a empresa avalia isso?
Isso é muito importante e faz parte da responsabilidade social da empresa. Nós fazemos isso de duas formas: através da nossa ONG Atitude e Cooperação. Ela tem a finalidade de retirar jovens carentes de áreas vulneráveis e incorporar esses jovens através da arte, da música e dos esportes. A Unimed desenvolve vários projetos através dessa ONG. A outra forma, é através da Lei de Incentivo Djalma Maranhão. Como a Unimed faz uma alta contribuição através do ISS, esse ISS pode ser utilizado nesses projetos de incentivo à Cultura, de valorizar a Cultura genuinamente potiguar. Esses projetos são avalizados pela Prefeitura de Natal e a Unimed faz a chancela desses projetos autorizando que o ISS seja descontado através da Lei Djalma Maranhão.

A empresa completou 41 anos em outubro deste ano. Quais são os projetos futuros da Unimed Natal?
Na realidade, grande parte dos projetos nós conseguimos implementar esse ano e trouxemos para a empresa novos modelos de gestão. Uma das coisas que a gente fez foi trazer técnicos em várias áreas: mercado, assistencial, administrativa e financeira para fortalecer a nossa equipe e implementar novos modelos de governança baseado no modelo de governança corporativa. Isso hoje é o que as grandes empresas do mercado fazem. Nós estamos desenhando, para a partir do ano que vem, novos modelos de assistência, que são os modelos baseados na atenção primária, na prevenção, numa busca ativa de pacientes crônicos. Uma das coisas boas ao longo deste ano, é que nós conseguimos retirar a cooperativa do dispositivo chamado pro rata. Há muitos anos, o pro rata da Unimed estava negativo junto aos médicos cooperados e era usado há mais de 22 anos. Nós conseguimos zerar esse pro rata mês passado. Foi um grande desafio e fez com que a remuneração dos profissionais melhorasse.