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“Guardiães da Tradição”
Publicado: 00:00:00 - 03/08/2021 Atualizado: 00:40:17 - 03/08/2021
João Medeiros Filho
Padre 

Em 16 de julho passado, o Papa Francisco publicou, sob a forma de “Motu Proprio”, a carta apostólica “Traditionis custodes” (Guardiães da Tradição). Esta vem causando celeuma entre alguns católicos. A polêmica reside em torno da liturgia, porém atinge aspectos eclesiológicos. Já em seu nascedouro, a Igreja de Cristo conheceu discordâncias. É o que se infere de Atos dos Apóstolos (capítulo 15) e várias passagens das epístolas paulinas. O catolicismo adota ritos latinos e orientais. Os primeiros desenvolveram-se na Europa ocidental – onde o latim predominou, no passado – e em nações colonizadas por países europeus. Os demais originaram-se em comunidades cristãs do Oriente Médio, da Ásia e Europa oriental. Um dos ritos latinos mais conhecidos é o de Pio V, também chamado tridentino. Vigorou, a partir de 1570, após a promulgação da bula “Quo Primum Tempore”. Sofreu algumas mudanças, sendo a última no pontificado de João XXIII, em 1962. O Concílio Vaticano II propôs uma revisão na liturgia ocidental, resultando daí o novo Missal Romano, aprovado em abril de 1969, em vigência desde 1970 e revisado em 2002.

Ultimamente, com o acolhimento de fiéis dissidentes, especialmente oriundos da Fraternidade São Pio X, do arcebispo Marcel Lefebvre, foi permitido o uso do ritual de Pio V. Em 2007, pelo “Motu Proprio” “Summorum Pontificum”, Bento XVI admitiu, em certas circunstâncias, a liturgia tridentina. O documento autorizava a qualquer sacerdote celebrar nessa modalidade litúrgica, anterior ao Vaticano II. Desde então, coexistem duas formas dentro do rito latino romano oficial: a ordinária promulgada por Paulo VI e a extraordinária, aprovada por Pio V. O Papa Francisco, pelo “Traditionis Custodes”, limitou as cerimônias tridentinas (sempre realizadas em latim). Estas dependem agora da validação do bispo em favor de grupos que já as vinham celebrando. Poderá ocorrer apenas em templos determinados pela autoridade eclesiástica, desaprovadas em igrejas paroquiais (cf. Art. 3, § 2). São proibidos novos grupos e paróquias seguindo esse rito (Art. 3, §§ 2 e 6). Em Campos dos Goytacazes (RJ), existe a única instituição brasileira assemelhada a uma diocese desse gênero, criada para acolher fiéis outrora vinculados a Dom Castro Mayer.

Na justificativa dirigida aos bispos, explicando sua decisão, o Santo Padre afirmou: “Em defesa da unidade do Corpo de Cristo, sou obrigado a revogar a faculdade concedida pelos meus predecessores.” E continua: “O uso distorcido que foi feito desta faculdade é contrário às intenções que levaram a conceder a liberdade de celebrar a Missa no Missal Romano, de 1962.” Para o atual Pontífice, seus antecessores anuíram na celebração da missa de Pio V para encorajar a unidade da Igreja. Assim se expressa Francisco: “Uma oportunidade oferecida por São João Paulo II e, com ainda maior magnanimidade, por Bento XVI, destinada a recuperar a unidade de um corpo eclesial com diversas sensibilidades litúrgicas, foi explorada para alargar as lacunas, reforçar as divergências e encorajar discórdias que ferem a Igreja, bloqueiam o seu caminho e a expõem ao perigo da divisão.” 

A Santa Sé verificou que, em vários lugares, a celebração na forma extraordinária tornou-se uma rejeição ao Vaticano II e à sua eclesiologia. E, por vezes, vem proporcionando a formação de grupos com pessoas insatisfeitas, diante das diretrizes pastorais da Igreja. Sem dúvida, em face do posicionamento político-ideológico de alguns clérigos, muitos fiéis se refugiaram sob o manto dessa liturgia. Em alguns casos, prevaleceram o modismo e a discordância às orientações eclesiásticas. No Brasil, qual o proveito dessas celebrações para o Povo de Deus, se há meio século, o latim deixou de ser ensinado nas escolas, ministrado minimamente nos seminários? É o questionamento de certos teólogos e pastores.

Deve-se ressaltar que “Guardiães da Tradição” não aborda questões dogmáticas ou morais, mas apenas assuntos disciplinares e cultuais. Um “Motu Próprio” equivale a um decreto no foro civil e não a uma lei, podendo ser revogado ou modificado pela autoridade legitimamente constituída. Para tanto, o Papa detém competência, na qualidade de chefe supremo do catolicismo. No citado documento, Sua Santidade não altera decisões conciliares ou doutrinárias, mas aspectos normativos litúrgicos. Rezemos para que haja sempre “um só rebanho e um só pastor.” (Jo 10, 16).



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