“Há erros na política econômica, mas o país ainda é viável”

Publicação: 2014-10-05 00:00:00
Entrevista - Marcelo Queiroz
PRESIDENTE DO SISTEMA FECOMÉRCIO RN

Um dos eventos que vêm marcando, ao longo do ano, o 65º aniversário da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte, o seminário “Fecomércio RN, 65 anos à frente”, promovido pela entidade na segunda-feira (29), foi pontuado por uma verdadeira aula sobre o atual quadro econômico nacional e, principalmente, sobre o que devemos esperar para o futuro de curto e médio prazos.
Marcelo Queiroz - Presidente do sistema Fecomércio RN
As palestras do ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, e do jornalista Carlos Alberto Sardenberg, prenderam por mais de duas horas a atenção de um Teatro Riachuelo quase lotado e foram acompanhadas com atenção especial pelo presidente do Sistema Fecomércio RN, Marcelo Fernandes de Queiroz. “As palestras escancararam os erros da política econômica, mas deixaram um alento que o país ainda é viável”, afirma Queiroz. Nesta entrevista, ele faz um apanhado do atual momento do Brasil, a partir da visão do economista Maílson da Nóbrega e do jornalista Carlos Alberto Sardenberg.

Como o senhor avalia o seminário “Fecomércio RN, 65 anos à frente”?
Foi um sucesso. Tivemos um público satisfatório e sobretudo muito conteúdo. As duas palestras foram capazes de traçar um quadro bem nítido do nosso momento atual e também do que podemos esperar para o curto e o médio prazos. Além disso, apontaram caminhos. Muitos empresários e diretores da Fecomércio que estavam no evento me disseram que ouvir de dois especialistas o que eles ouviram foi um alento.

Em que sentindo?
Por exemplo, uma das coisas que ambos os palestrantes deixaram claro é que os governos, de uma maneira geral, precisam investir na produção, no desenvolvimento sustentável como alternativa ao modelo de crescimento baseado unicamente no estímulo ao consumo das classes sociais emergentes, que está esgotado. Nós temos visto isto no cotidiano de nossas empresas. O comércio – que é pilar da economia do Rio Grande do Norte – sente este esgotamento do consumo na pele, no dia a dia. Os números mostram isso. Basta olharmos o crescimento das vendas do varejo potiguar. Este ano, o acumulado está em 2,5% (considerando dados até julho). No ano passado, no mesmo período, a alta foi de 9,5%.

Mas, a falta de estímulo ao consumo não é ruim para o comércio?
O problema está na forma como se estimula o consumo. O governo tem feito isso através de oferta maciça de crédito, redução de impostos, principalmente o IPI de alguns produtos e com políticas assistencialistas como o Minha Casa Melhor, por exemplo. Em um primeiro momento, medidas deste tipo tendem a aquecer o comércio. Mas a médio e longo prazos elas viram pontos frágeis. Pegando os exemplos que eu citei, vamos falar primeiro do crédito. O crédito às pessoas físicas, desde 1995, cresceu no país incríveis 4.738%. É muito recurso em pouco tempo. O resultado é o aumento do endividamento e, o que é pior ainda, da inadimplência das famílias. Hoje, a inadimplência no país gira em torno dos 7,5%. Ela já foi de 2,5%, 3%. O nível de endividamento das famílias passa dos 63%. Por outro lado, os incentivos fiscais concedidos para alguns produtos, em prejuízo da arrecadação de IPI, trouxeram complicações para os municípios – já que o IPI é um dos componentes do FPM – e isso tem reflexos profundos nos pequenos comércios das pequenas cidades. É um ciclo.

E sobre as políticas assistencialistas?
Olha só: o Sardenberg disse uma coisa em sua palestra que eu achei bem emblemática. Ele disse: “O governo tem comemorado como sucesso do Bolsa Família, o fato de ter dezenas de milhares de inscritos. Eu acho que o sucesso deste programa seria ele não ter mais inscritos. Se a essência dele é estimular a manutenção das crianças na escola, quando estas crianças estudam, se formam e ingressam no mercado de trabalho, elas começam a não precisar deste auxílio. Este é o verdadeiro sucesso”. Percebe como este raciocínio é emblemático? O que nós, empresários do setor produtivo precisamos defender – e temos defendido – é que os governos precisam buscar o desenvolvimento sustentável. Estimular o crescimento da economia, através do crescimento das empresas e combinar isso com investimentos em educação do nosso povo é o caminho mais eficaz, mais sustentável.

O que o senhor está dizendo é que é preciso deixar um pouco de lado o assistencialismo e apostar no crescimento da economia como estímulo ao desenvolvimento social? É meio aquela história do ensinar a pescar e não só dar o peixe?
Isso. A meu ver, os números e percepções passadas pelos palestrantes deixaram isso muito claro. Quando o governo Lula lançou o Bolsa Família, no hoje já distante ano de 2004, o argumento foi de que precisávamos erradicar a miséria extrema. Tudo bem. Mas já se vão dez anos e, voltando à máxima do Sardenberg, o que temos visto é crescer, cada vez mais, o número de beneficiários. Não se trata de ser contra o Bolsa Família ou outros programas assistencialistas. Talvez eles até precisem existir ainda durante um tempo. Mas precisamos ter um planejamento para eles, e principalmente combiná-los com políticas de incentivo ao crescimento econômico. Lembra do número que eu dei sobre o aumento do crédito para pessoas físicas desde 1995? Pois bem, ele é explicável pelo fato de que o Brasil não tinha, até 1994, uma estabilidade econômica que embasasse a concessão de crédito. O Mailson da Nóbrega destacou isso. Vivíamos em um país cujas incertezas com o futuro não permitiam o planejamento. Isso criou um represamento do crédito. OK, o aumento do crédito para as pessoas físicas é explicável. Mas o que não explica, de jeito nenhum é que, no mesmo período, o crédito para a indústria tenha crescido 1.162%, para o comércio 1.019% e para o setor rural 1.247%. Até mesmo o crédito para o setor habitacional cresceu bem menos: 1.062%. Fica claro que a política econômica não está voltada para o estímulo ao crescimento duradouro da economia. E os resultados começam a aparecer.

Que resultados?
O nosso crescimento pífio em 2013, a previsão ainda mais pífia para 2014 e as projeções de pouco menos de 1% para 2015. Tanto o Mailson quanto o Sardenberg deixaram muito claro isso. E disseram mais: que o Brasil não pode se acomodar. Temos hoje um quadro na nossa economia que é completamente esdrúxulo do ponto de vista técnico. O país tem juros altos, crescimento baixo e inflação em alta.

Mas existe algum alento?
Claro que sim. Os palestrantes fizeram questão de dizer que o país é viável. Temos reservas, equilíbrio financeiro e credibilidade internacional. Há muitos erros na política econômica mas eles podem ser traduzidos em uma única coisa: falta de investimentos no crescimento do Brasil. Outra frase emblemática das palestras, esta dita pelo Mailson da Nóbrega, foi que “não há país forte sem empresas fortes”. O Brasil ainda tem um estigma muito grande com o empresariado. Nós geramos o emprego e a renda que sustenta o crescimento do país. Somos trabalhadores também. Não podemos ser olhados como vilões. Estimular um setor, uma empresa, investindo ou garantindo uma carga tributária mais justa, por exemplo, é investir no emprego que este setor gera. Veja o caso do setor de Comércio e Serviços no Rio Grande do Norte. Geramos mais de 290 mil empregos com carteira assinada. É quase 45% de todo o emprego formal gerado no estado. Estimular nosso setor – no qual se insere o turismo, por exemplo – é garantir não apenas a manutenção destes empregos mas a criação de muitos mais. Além disso, com as entidades do Sistema S, nós ainda temos investido na formação e qualificação de pessoal, de mão de obra. Só com o Senac, por exemplo, iremos formar em 2014 mais de 60 mil pessoas, sendo 45 mil em vagas gratuitas. A meu ver, é assim que se constrói o verdadeiro alicerce para estabelecer um salutar desenvolvimento econômico e social.

Carreira
Já desempenhou, entre outras funções, as de primeiro-secretário, vice-presidente e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Rio Grande do Norte, Membro da Câmara do Comércio de Produtos Farmacêuticos, da Confederação Nacional do Comércio (CNC) desde a criação daquela instituição, em 04 de julho de 2001; Fundador e Diretor-Presidente da Unifarma – Rede Unificada de Farmácias, composta por 300 farmácias no Estado do Rio Grande do Norte; Paraíba e Pernambuco;          Membro da Diretoria da Federação Brasileira de Redes de Farmácias Associativistas – Febrafar; Membro do Conselho Nacional do Senac e   Membro do Conselho Nacional do Sesc.

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