A história da educadora que entrou na escola aos 28 anos, se formou em Economia e virou professora e vereadora

Publicação: 2019-10-02 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Não foram poucos os desafios que Maria Queiroz, a Baía, enfrentou para se tornar professora – inclusive ser uma das mais conhecidas de Natal nas décadas de 60 e 70. Nascida em Grossos, no ano de 1928, sem as duas pernas e com apenas um braço, ela percebeu desde cedo que seus maiores empecilhos não eram suas limitações físicas, mas o preconceito da sociedade. Nunca baixou a cabeça, pelo contrário, acostumou-se na vida a superar barreiras, sempre com muito esforço, mas sem nunca deixar a alegria de lado. Quando foi vereadora da capital, por exemplo, enfrentava sozinha – e cantando – a escadaria para entrar na Câmara Municipal de Natal, todo santo dia. Era seu modo de viver a vida, um modo que a fez admirada por muitos de sua geração.

Livro conta a história da educadora Lúcia Eneida Ferreira Moreira, que só conseguiu entrar naescola aos 28 anos, se formou em Economia e virou professora e vereadora
Livro conta a história da educadora Lúcia Eneida Ferreira Moreira, que só conseguiu entrar na escola aos 28 anos, se formou em Economia e virou professora e vereadora

Falecida em 1981, aos 53 anos, a professora Baía tem agora sua história narrada no livro “Maria Queiroz Baía – Exemplo de Superação e luta contra o preconceito” (Offset Editora), de autoria da professora e poeta Lúcia Eneida, sobrinha da biografada. O lançamento da obra será só no dia 17 de outubro, entre as 18h e 22h, no Salão Cristal da AABB (Tirol), mas a TRIBUNA DO NORTE lembra agora um pouco da trajetória dessa mulher batalhadora em conversa com a autora Lúcia Eneida.

“Baía vem de uma família com poucos recursos, em Grossos. Eram ao todo dez irmãos. Os pais, para garantir a educação dos filhos, foram morar em Areia Branca. Mas, diferente dos irmãos, a escola negou a matrícula de Baía alegando que o lugar de aleijado não era em sala de aula. E o termo dito pela escola foi esse mesmo, aleijado. Pra você ver como era a mentalidade da época”, conta Lúcia. Diante dessa situação, coube a Baía estudar em casa, sozinha, consultando os livros dos irmãos.

Quando os pais se mudaram para Mossoró, a realidade foi a mesma. Nenhuma escola a aceitou. Veio para Natal, passou no exame de admissão para cursar o ginásio no Atheneu, mas não teve jeito: matrícula negada. Seguiu tentando todo ano, mas foi somente quando ela já estava com 28 anos de idade que lhe permitiram o ingresso. Tudo bem, concluiu o ginásio e depois se formou em Ciências Econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Toda essa experiência dificultosa, os empecilhos que lhe foram impostos ao longo do período escolar, possivelmente fez Baía se voltar para a questão do ensino. Ela já vinha dando aula particular desde mocinha, em Areia Branca, mas agora se tornava uma das mais famosas professoras da capital.

Maria Queiroz, a Baía, em foto ao lado dos amigos nos anos 70. Em vez de cadeira de rodas, Baía pediu a um sapateiro para fazer um sapato adaptado, no formato de botinhas. Minha tia ia para a Câmara Municipal sozinha, subia as escadas cantando Maria de Nazaré, lembra a sobrinha Lúcia Eneida, autora da biografia
Maria Queiroz, a Baía, em foto ao lado dos amigos nos anos 70. Em vez de cadeira de rodas, Baía pediu a um sapateiro para fazer um sapato adaptado, no formato de botinhas. Minha tia ia para a Câmara Municipal sozinha, subia as escadas cantando Maria de Nazaré, lembra a sobrinha Lúcia Eneida, autora da biografia

“Ela foi professora particular porque tanto as escolas públicas quanto as privadas não a contratavam. Depois de tanto estudar, travou outra batalhar para ensinar”, lembra Lúcia. A autora chegou a frequentar as aulas na casa da rua Pinto Martins, nº 958, em Areia Preta, onde Baía residia e ensina seus alunos. “Baía deu aula pra muita gente em Natal. Ela era aquela professora que você procurava quando precisava tirar um 10 para passar de ano. Ficou muito conhecida na cidade”.

Tamanha fama a levou a tentar uma cadeira na Câmara Municipal. O problema é que ao invés de a lançarem com o nome que era conhecida, Professora Baía, lançaram-na com seu nome de batismo. Mesmo assim o volume de votos a colocou como suplente. Exerceu o mandato de 1977 até 1981, quando veio a falecer. Foi a única mulher naquela legislatura. Sua atuação, conforme mostra o livro, foi de pioneirismo na luta pelos direitos femininos,  da inclusão e da cidadania.

“Baía só tinha o braço esquerdo. Sua letra era linda. Nunca andou de cadeira de rodas. Um sapateiro fez pra ela um sapato adaptado, como duas botinhas. Ia para a Câmara Municipal sozinha, subia as escadas cantando 'Maria de Nazaré'. Se hoje as coisas são difíceis, imagina antes. Escrevendo esse livro chorei várias vezes”, revela a autora. “Mas o mais marcante em Baía era sua alegria. Nunca se queixou. Viveu sempre de bem com a vida. Para ela não existiam problemas”.

Serviço
Lançamento do livro “Maria Queiroz Baía”, de Lúcia Eneida

Dia 17 de outubro, às 18h

AABB (Av. Hermes da Fonseca, 1017, Tirol)







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