Viver
A história de Mussum, para além do cacildis!
Publicado: 00:00:00 - 02/04/2019 Atualizado: 21:12:49 - 01/04/2019
Yuno Silva
Repórter

Carioca da gema, debochado e bonachão, Mussum não desperdiçava a chance de 'melar o pé' nem de criar neologismos terminados em “is” – ou “évis” – todos os domingos na TV. Sua personalidade folclórica resistiu ao tempo, atravessou gerações, e se transformou em uma memória vívida que paira no imaginário coletivo até de quem não tinha idade suficiente para ter visto suas performances junto de Os Trapalhões. Vira e mexe sua imagem ressurge ora em memes engraçadinhos nas redes sociais, ora em rótulos de alguma 'biritis' que pega carona na fama de 'bebumzis'. Mas engana-se quem limita o humorista, ator, músico, cantor e compositor Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) ao personagem.

Divulgação
Personalidade folclórica de Mussum resistiu aotempo e paira no imaginário coletivo até de quem nunca o conheceu

Personalidade folclórica de Mussum resistiu aotempo e paira no imaginário coletivo até de quem nunca o conheceu

Personalidade folclórica de Mussum resistiu ao tempo e paira no imaginário coletivo até de quem nunca o conheceu

A fronteira entre eles (criador e criatura) é bem maior que o 'da poltrona' imagina, e o documentário “Mussum, um filme do cacildis” entra em cartaz nessa próxima quinta-feira (4) para desfazer estereótipos e ir além: “O Antônio Carlos tinha um outro lado bem diferente do Mussum trapalhão: ele também era engraçado na vida real, mas extremamente disciplinado e rigoroso, e só bebia socialmente. Tinha que dar conta de jornada dupla de trabalho, e não admitia piada racista nem preconceitos”, contou a diretora Susanna Lira.

Em Natal, o filme será exibido pela rede Cinemark dentro da programação do “Projeta às 7”, iniciativa que dá visibilidade à produções nacionais em sessões de segunda à sexta sempre às 19h.

“Espero que o projeto faça bem ao filme, é uma janela importante que pode criar um fluxo capaz de ampliar a presença do filme na grade – depende da receptividade do público. Estamos estreando em 20 praças”, disse a diretora, que já circulou com o documentário por festivais como o Mimo, em Recife e no Rio de Janeiro; o Aruanda na Paraíba; e o festival Arquivo em Cartaz (RJ).

Susanna acredita que daqui “uns três meses” o filme estará disponível em plataformas digitais como Globo Play e Canal Brasil – parceiros na produção.

Sambista nato, passista e tocador de reco-reco, Antônio Carlos já era conhecido como Mussum bem antes de imortalizar seu personagem na televisão. Aliás, antes de ingressar em Os Trapalhões, Mussum foi aluno da Escolinha do Professor Raimundo e foi o próprio Chico Anysio quem o incentivou a terminar as palavras com o indefectível “is”.

O documentário é narrado pelo ator Lázaro Ramos, que também contribuiu com a construção do roteiro, e faz um passeio por todas as fases da trajetória do Antônio Carlos: desde a infância humilde no Morro da Cachoeirinha, Rio de Janeiro; como se tornou músico e formou o grupo Os Originais do Samba na década de 1960 que fez sucesso no Brasil e exterior; até virar um trapalhão ao lado de Didi, Dedé, e Zacarias.

Foram quatro anos até o documentário ganhar forma e chegar às telas de cinema: “Foi bem trabalhoso levantar todo o material que precisávamos, pesquisamos muitos acervos (de TV, música e cinema), fomos atrás de familiares para conseguir imagens inéditas – a TV Globo também ajudou bastante. Costumo dizer que fizemos um trabalho de 'arqueologia'”, lembrou Susanna Lira.

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Em 1960, fundou Os Originais do Samba, que fez sucesso no País

Em 1960, fundou Os Originais do Samba, que fez sucesso no País

Em 1960, fundou "Os Originais do Samba", que fez sucesso no País

Negritude
Para Susanna Lira, que acumula mais de 20 anos de carreira e já dirigiu documentários sobre outros artistas como Clara Nunes e Jorge Loredo (o Zé Bonitinho), Antônio Carlos “tinha total consciência do papel dele, da representatividade. Era uma pessoa muito preocupada com educação e formação: ele que ensinou a mãe a ler, e não aceitava nota baixa dos filhos. Augusto (um dos cinco filhos do Mussum), me disse que nunca viu o pai bêbado. Sabia separar muito bem o personagem da vida pessoal”, destacou a diretora, que também assina produções que evidencia temas femininos como a presença da mulher no samba, pacientes portadoras de HIV e esposas que assassinaram seus companheiros.

Entre imagens de arquivos, a narração de Lázaro Ramos e a trilha sonora assinada pelo compositor e arranjador carioca Pretinho da Serrinha, o filme traz depoimentos de pessoas que fizeram parte do círculo de amizades e/ou profissional dele. Um dos depoentes é Manfried Sant'Anna, o Dedé, responsável pela ida de Mussum para Os Trapalhões em 1973.

Susanna recorda que não teve dificuldade em entrevistar as pessoas, ninguém impôs restrições. “Pelo contrário muita gente queria dar entrevista e não tivemos como encaixar todo mundo. Mas o depoimento que gostaria de ter registrado, e não consegui, foi do Bigode, da primeiro formação d'Os Originais do Samba. Ele é um querido, só não conseguiu conciliar a agenda”, garantiu.

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Com Dedé, Didi (e Zacarias), fez história no humor brasileiro

Com Dedé, Didi (e Zacarias), fez história no humor brasileiro

Com Dedé, Didi (e Zacarias), fez história no humor brasileiro

Na opinião da diretora, o sucesso do Mussum se mantém tão presente, mesmo depois de 25 anos de sua morte, devido “sua marca burlesca de driblar o sofrimento, o racismo, as dificuldade e a pobreza, era um cara que levava muito a sério tudo que ele fazia ao mesmo tempo que fazia rir”.

Roteirista, produtora e diretora, Susanna Lira admite sua relação com o cinema deve muito aos filmes de Os Trabalhões nos anos 1980. “Também sou do subúrbio do Rio, as coisas lá em casa eram difíceis, e ir ao cinema assistir os filmes d'Os Trapalhões marcou muito minha infância. Meu interesse pelo cinema vem desde essa época, e o Mussum sempre foi meu trapalhão preferido”.

Vocabulário do Mussum

"Negão é o teu passadis"

"Quero morrer pretis se eu estiver mentindo"

"Criôlo é a tua véia!"

"Vou me pirulitar!" (ir embora, fugir)

"Glacinha!" (gracinha)

"Cacildis!"

“No seu forevis!”

"Trais mais uma ampola!" (pedindo uma garrafa de cerveja)

"Suco de cevadis" (cerveja)

"Ô do jabá!" (chamando o Didi)

"Faz uma pindureta" (querendo fiado)

"Vai caçá sua turmis!"

“Não sou faixa-preta cumpadi, sou preto inteiris”

“Paisis, filhis, espiritis santis”

“Suco de cevadis deixa as pessoas mais interessantis”

“Mais vale um bebadis conhecidis, que um alcoolatra anonimis”

“Todo mundo vê os porris que eu tomo, mas ninguém vê os tombis que eu levo!”

“Ta deprimidis? Eu conheço uma cachacis que pode alegrar sua vidis”

Serviço:
Estreia do documentário “Mussum, um filme do cacildis”, da diretora Susanna Lira. Quinta-feira (4), na rede Cinemark – sessões de segunda à sexta, às 19h.

(Colaborou: Cinthia Lopes, editora)















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