“Hoje a gente vê uma hegemonia do que toca”

Publicação: 2017-04-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

Nem “iê/iê/iê”, nem as guitarras elétricas do rock'n'roll: foi ao som de uma sinfonia de Mozart que o potiguar Leno, primeiro rockstar da esquina do continente, recebeu a equipe da TRIBUNA DO NORTE na última quinta-feira (6) para falar de seus projetos futuros e lançamentos presentes. Com 68 anos e quase 50 de carreira solo o  músico, que ficou famoso através da dupla Leno e Lílian e de sucessos como “Devolva-me” e “Pobre Menina” na Jovem Guarda, se encontra agora em uma fase mais madura, preparando um novo álbum de músicas inéditas, mas que ainda trazem as familiares batidas que variam entre rock, pop e baladas,  e letras com temas que variam desde a relação dos humanos  com o universo e o planeta, e dos amores que resistem às dificuldades do tempo.

Antes de se debruçar sobre o novo trabalho de inéditas, no entanto, Leno, que possui três discos na lista do livro '100 Discos do Rock Potiguar Para Escutar Sem Precisar Morrer', lançou ainda nesta semana um novo álbum, desta vez ao vivo. Intitulado “Trilha Sonora” o trabalho, que foi gravado em shows realizados tanto em Natal como no Rio de Janeiro, traz algumas das músicas que marcaram as várias fases do artista ao longo desses quase 50 anos de carreira solo. A pesar de quase todas as 22 faixas serem de composição do próprio Leno, algumas contaram também com a colaboração de outros artistas como Renato Barros, Lilian Knapp e, como não poderia deixar de ser, Raul Seixas, que participou da composição e fez várias parcerias com Leno ao longo de sua carreira.
O músico potiguar Leno Azevedo está lançando um novo álbum que faz um apanhado dos quase 50 anos de carreira solo
Muitas das canções foram gravadas ao vivo pela primeira vez. O projeto conta ainda com alguns  covers de “Mr. Tamborine Man” de Bob Dylan, “Eu Não Existo Sem Você” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, “Objeto Voador” de Raul Seixas e encerra com uma faixa bônus, a única gravada em estúdio “Don't Know Why”, que ficou mundialmente famosa na voz da cantora estadunidense Norah Jones. Além de falar um pouco mais sobre o novo álbum e os projetos futuros, no bate-papo Leno também tratou de temas como a dificuldade de filtrar a música em tempos de internet e a desvalorização da produção local pelo público. Confira.

Apesar de seus ritmos não terem mudado tanto, a temática de suas letras amadureceu bastante do começo de sua carreira pra cá. Vamos ver um pouco de todas essas fases de Leno em "Trilha Sonora"?

“Como num conto de fadas nós vamos casar e toda tristeza vai acabar". Seria tão bom se fosse assim, né? Essa pureza, que alguns classificam como ingenuidade mas que eu acho que tem certa beleza, era bem comum nos meus primeiros trabalhos. Ao longo do tempo eu fui entrando em contato com outros estilos, ampliando o repertório, conhecendo outros músicos, e aí eu fui amadurecendo o meu próprio estilo também. Acho que essa nova fase é mais madura,mais centrada, mas eu tento não perder essa beleza dos primeiros anos que conseguia enxergar simplicidade no mundo.

Suas músicas mais novas tratam de temas como o meio ambiente, o universo e nossa relação com o planeta...

É, eu sempre fui ligado nisso. Tem uma música nesse album novo chamado "Flores Mortas" que foi uma das primeiras músicas sobre meio ambiente lançadas no Brasil. Quando gravei fez o maior sucesso nas rádios do Rio e de São Paulo, porque fala de poluição, da cidade grande, as pessoas não costumavam tocar muito nesse assunto. Tenho orgulho de ter feito essa música.
Considerado o primeiro rockstar, Leno ficou famoso nacionalmente ao estrear na Jovem Guarda na dupla Leno e Lilian
Como você analisa seus primeiros trabalhos em relação ao que é produzido atualmente pelas novas gerações?

Eu acho que existe uma diferença de tempos bem grande. Quando eu comecei eram os anos 60, aquelas músicas românticas, que dá pra chamar até de "ingênuas". Comparando com as músicas de hoje, o padrão que é divulgado pelas principais rádios e emissoras de televisão, essas músicas mais inocentes chegam a ser até transgressoras, porque hoje o padrão é muito baixo nível. O padrão vigente hoje é muito baixo, traz muita violência, em todos os sentidos.

Acho que inclusive algumas das minhas músicas antigas, como “Ciências e Religião” estão muito atuais, porque o mundo está muito violento. Vejo essas cenas de guerra na Síria, o fanatismo religioso e penso que cada vez mais estamos indo mais baixo na humanidade, não só no que diz respeito à música.

E o que você tem escutado, ultimamente?

De coisas atuais, nada. Não vou dizer que não tenha coisa boa, mas pra você garimpar algo bom no meio de milhões de arquivos – porque transformaram a música em arquivo – é muito difícil. Tem tanta coisa que pra eu descobrir uma coisa boa que me interesse, é difícil. Se for pelo que rola na mídia de modo geral eu acho que nunca estivemos tão mal na música popular, é a negação da música.
Eu fico vendo os festivais lá fora com aqueles caras numa mesa de som apertando um monte de botão e achando que aquilo é música. Desculpa, mas pra mim aquilo não é música. Eu sei que sempre teve de tudo, mas hoje a gente vê uma hegemonia do que toca.

Mas você não acha que isso é muito mais reflexo dos meios que reproduzem essas músicas constante e não de uma suposta falta de produção de música de qualidade?

Também. Eu acho que é muito dos meios, mas atualmente eu cheguei à conclusão de que se não houvesse tanta demanda por parte do público, os meios não colocariam tanta porcaria. Eu acho que a gente tá involuindo, de modo geral. O público é tão responsável pelas músicas ruins quanto os eleitores que vão votar em político ladrão sabendo que eles são corruptos. Acho que está havendo um emburrecimento mundial. Há um excesso de informação muito fragmentada e as pessoas não assimilam, parece que não há mais senso crítico. Se, por um lado, a internet é genial, parece que não estamos educados para usar a internet, com um mundo de informação, as pessoas só procuram besteira.

Na contramão do desenvolvimento tecnológico, que parece engolir os meios físicos de consumir música, o mercado do vinil tem ganhado espaço nos últimos anos. Você tem pretensão de relançar algum dos seus trabalhos em vinil?

Vai sair sim, no segundo semestre. Vamos lançar “Vida e Obra de Johnny McCartney” em vinil e eu fiquei bem feliz com isso. Um dos objetivos deu ter lançado esse último álbum, o “Trilha Sonora” em CD, foi também isso, proporcionar o formato físico, eu acho isso importante. Isso de só ouvir música em smartphone não tem graça não. Você não tem a informação, não tem a foto, tudo isso faz parte do trabalho de construção do álbum: a arte, o encarte, o nome dos músicos que colaboraram. Se você depende exclusivamente do celular, quando a internet cai, acaba tua vida.
Eu acho inclusive que há uma certa violência quando a gente está fazendo certas coisas na internet, como ler uma matéria ou até mesmo ouvir uma música e ver o vídeo, e do nada a atividade é interrompida e jogam um anúncio na nossa cara, atrapalha a leitura, atrapalha o que a gente tava escutando, você perde o raciocínio, isso é muito ruim e prejudica a experiência como um todo.

Você pretende fazer um lançamento do novo álbum? Algum show, festa...

Eu estive no Rio há 20 dias para uma apresentação, mas o disco não tinha saído ainda. Provavelmente vou fazer alguma coisa por lá. Em Natal, se aparecer algum convite. Nessa minha fase atual eu estou gostando muito de fazer show em teatro, com as pessoas sentadas, prestando atenção no que você está cantando, na performance, ouvindo de fato a música. Eu passei muito tempo fazendo show baile, com dança etc, e o formato acústico. Mas eu tenho vontade de fazer shows com esse novo disco assim, em teatro, um show completo. Mas eu não tenho me apresentado em Natal há um bom tempo.

Por que você acha que isso acontece?

Porque eu sou mais convidado para cantar fora. Eu acho que o potiguar não prestigia o que é daqui. Câmara Cascudo já reclamava. Eu acho que o natalense tem uma tendência a baixa autoestima: tudo que vem de fora é melhor. E quanto mais eu reclamo disso, aí é que não me chamam mesmo, mas eu falo. Não to aqui pra ganhar dinheiro, não moro em Natal pra trabalhar, já fiz meu nome às minhas custas com meu suor desde os 16 anos. Moro aqui porque gosto da minha cidade, gosto da cordialidade das pessoas, mas se eu for depender dos empresários daqui, das grandes produtoras daqui... Chamam não. Passei anos aqui e nunca fui convidado.

Os shows que eu fiz aqui, inclusive esse que eu gravei lá no Centro de Convenções, fui eu que banquei. Consegui patrocínio e montei o show. Eu acho que o artista também não pode depender só de Lei Rouanet e benefício não sei de quê. O artista tem que se virar mesmo, conseguir patrocínios às vezes diretamente até porque pra mim isso tem a ver com a própria qualidade da música. Se você fica dependendo de dinheiro do Governo Federal, acaba que você fica sem poder criticar quem está lá.

Para quando podemos esperar o álbum com músicas inéditas?

Olha, acho que para o final desse ano. Esse vai ser só de inéditas, e de estúdio. Ai vai entrar 'Lado a Lado', 'Poeira Interestelar', que já saíram em clipe. Vou esperar o “Trilha” ter seu tempo. Eu tenho muita música inédita acumulada, se for pegar tudo dá pra fazer uns três álbuns.
Vai ser um disco rock, pop que é minha praia, com baladas, porque eu gosto. Ainda estou selecionando o repertório e vai ter várias misturas de estilos.

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