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Natal
“Houve grande avanço, tanto no campo clínico, quanto cirúrgico”
Publicado: 00:00:00 - 08/04/2018 Atualizado: 11:02:01 - 07/04/2018
Mariana Ceci
Repórter

Uma doença degenerativa ainda sem causa definida, e sem cura total: essa é a doença de Parkinson. Os sintomas, que afetam o sistema nervoso central, aparecem de forma gradual. Aos poucos, as pessoas que possuem a doença vão tendo, principalmente, sua coordenação motora afetada. Apesar das causas da doença ainda não terem sido descobertas pela ciência, os avanços nos tratamentos para o Parkinson avançaram muito nos últimos anos, com a contribuição, inclusive, de médicos e neurocientistas brasileiros. A neurocirurgiã e pesquisadora Raquel Martinez é uma das que, junto com um grupo de pesquisadores, conseguiu desenvolver uma técnica cirúrgica premiada internacionalmente, capaz de reduzir em 40% os riscos de infecção nas cirurgias no cérebro para pacientes com Parkinson. Em visita a Natal entre os dias 12 a 14 de abril para participar do Encontro de Anatomia promovido pelo Centro Universitário do Rio Grande do Norte (UNI-RN), com o tema “Anatomia e os desafios do século XXI”, Raquel concedeu uma entrevista à TRIBUNA DO NORTE sobre os principais avanços do campo de pesquisas para a doença e sobre as dificuldades de trabalhar com um tema que, mesmo com todos os avanços tecnológicos e científicos dos últimos anos, permanece repleto de mistérios. Confira a entrevista:
Cedida
Em Natal, para participar do Encontro de Anatomia do UNI/RN, a neurocirurgiã Raquel Martinez aponta avanços no tratamento do Parkinson e detalha técnica cirúrgica premiada internacionalmente

Em Natal, para participar do Encontro de Anatomia do UNI/RN, a neurocirurgiã Raquel Martinez aponta avanços no tratamento do Parkinson e detalha técnica cirúrgica premiada internacionalmente


A neurocirurgiã Raquel Martinez aponta avanços no tratamento do Parkinson e detalha técnica cirúrgica premiada internacionalmente

Não muito tempo atrás, o Parkinson era praticamente uma sentença de morte para aqueles que eram diagnosticados com a doença. Hoje em dia, no entanto, diversas técnicas foram desenvolvidas para melhorar e avançar no tratamento. A senhora fez parte de uma equipe que desenvolveu, inclusive, uma técnica cirúrgica premiada para o Parkinson. Quais foram os principais avanços em relação à doença nos últimos anos no mundo da medicina?

Houve um grande avanço no conhecimento da doença de Parkinson e, consequentemente, uma melhora dos tratamentos tanto no campo clínico quanto no cirúrgico. Embora até o momento não exista uma cura para a doença, os tratamentos disponíveis  atualmente oferecem uma boa qualidade de vida aos doentes. Dentre os tratamentos, ressaltamos o tratamento cirúrgico o qual possibilitou beneficiar um grupo de pacientes de difícil controle clínico e com isso ampliar a gama de pacientes que conseguiram tratamento adequado dos sintomas. Especificamente, o grupo a que pertenço sempre busca o aprimoramento, assim desenvolvemos um aparelho de cirurgia do cérebro que permitiu reduzir o tempo cirúrgico em 40% e diminuiu o risco de infecção. Esse trabalho foi premiado internacionalmente e teve grande repercussão por propiciar um avanço no campo cirúrgico.

O que uma pessoa com Parkinson, atualmente, deve esperar ao ser diagnosticada com a doença?

O paciente deve ter mente que embora sem cura, os vários sintomas da doença são passíveis de tratamento, o qual engloba o tratamento medicamentoso, o tratamento cirúrgico e a reabilitação motora e postural, entre as muitas opções multiprofissionais. O principal tratamento é o medicamentoso, sendo o cirúrgico associado para determinados pacientes que não apresentam melhora clínica com o primeiro. Cabe ressaltar que a reabilitação e o acompanhamento psicológico desempenham importante papel na melhora clínica.

O que, te fez seguir por esse caminho, de encontrar avanços e tratamentos para a doença? Há alguma motivação pessoal, além das científicas? Como você entrou nesse projeto?

Quando voltei do meu pós-doutoramento nos Estados Unidos, na New York University comecei a buscar locais de trabalho onde poderia contribuir com os meus conhecimentos em Neurociência. O meu objetivo era aproximar os conceitos e experimentos relacionados à pesquisa básica (aquela desenvolvida em laboratório) na área de neurociência, com aqueles desenvolvidos na prática clínica, através de estudos e tratamentos com seres humanos. Foi nesse momento que notei um distanciamento muito grande entre esses campos e meu objetivo era torná-los mais próximos e tangíveis, a fim de que produzissem importantes frutos para a sedimentação e construção de novos conhecimentos. Eu sempre acreditei que essa junção trouxesse ganhos imensuráveis, pois permite que as questões existentes na clínica fossem estudadas com o uso da pesquisa básica e esses conhecimentos retornassem para a clínica em benefício dos pacientes. Foi nesse contexto que me aproximei do grupo de Neurocirurgia funcional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e conheci os trabalhos que eram realizados com pacientes de Parkinson. Quando assisti à cirurgia para o tratamento dos sintomas motores em pacientes com Parkinson fiquei muito animada com os resultados e vi naquele momento uma área promissora e em ascensão em que eu poderia contribuir. E foi assim que a partir desse período, iniciei meus estudos com pacientes com Parkinson. Primeiramente, iniciamos um estudo pioneiro para desvendar o cérebro dos pacientes de Parkinson. Queríamos conhecer como as células do cérebro se comunicavam, para isso, desenvolvemos uma sonda que conseguisse coletar essas moléculas. Essa sonda foi patenteada e os nossos resultados publicados na revista mais importante da área. A cada estudo, eu ficava ainda mais encantada pelas oportunidades e pelo tanto que ainda pode e poderia ser feito para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Apesar dos avanços no tratamento, as causas do Parkinson ainda são um mistério para a ciência. Vivemos em um mundo de constantes descobertas e tecnologia, mas as causas para alguns fenômenos e doenças, principalmente quando envolvem nosso cérebro, permanecem inexplicadas. Esse é um desafio para quem trabalha na área?

Na verdade, eu considero que essa é a beleza do trabalho em neurociência, ainda existe muito para se desvendar e isso impulsiona a necessidade e importância da realização de mais estudos nessa área.

Quais foram os principais obstáculos com as quais você se deparou ao longo da pesquisa?

Os principais obstáculos até hoje incluem a falta de financiamento tanto para a pesquisa quanto para pagamento de salários de alunos e pesquisadores, o que dificulta muitíssimo a realização de trabalhos de qualidade.

O que te atraiu na ciência e, principalmente, na pesquisa?

 Em 1998 ingressei no Curso de Ciências Biológicas na Universidade de São Paulo, no campus de Ribeirão Preto. Exatamente nesse ano, comecei a participar da XXVI Semana de Bio-Estudos na qual eram oferecidos mini-cursos e palestras. Era meu primeiro ano, eu estava muito entusiasmada para conhecer todas as áreas de atuação do biólogo e queria aproveitar essa oportunidade. Dentre os minicursos oferecidos, escolhi o de estudo do comportamento. Em julho de 1999, a programação da Semana de Bio-Estudos estava praticamente estabelecida e eu já havia decidido, iria participar de dois minicursos um de “Introdução à Etologia” e outro de “Aspectos Ecológicos e Evolutivos do Comportamento Alimentar”. Mas eu queria mais do que simplesmente assistir o curso, eu queria procurar um professor que me ajudasse no estudo do comportamento. Nesse período eu morava com três alunas da Psicologia e durante um almoço perguntei se elas conheciam algum professor que trabalhasse com comportamento, uma vez que eu estava extremamente interessada no assunto. Elas se lembraram do nome do Prof. Dr. Sílvio Morato que é um professor do Departamento de Psicologia cadastrado no Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia. Dois dias depois, uma dessas colegas me apresentou ao professor Sílvio. Nós conversamos, ele me mostrou o laboratório e me explicou suas linhas de pesquisa. Eu queria conhecer tudo, queria aprender as técnicas e fazer experimentos, por isso rapidamente me ofereci para fazer um estágio no laboratório. Ele me abriu as portas do laboratório e do conhecimento. Além disso, permitiu que os doutorandos Marisol Lamprea e Fernando Cardenas, além do técnico Paulinho me ensinassem e ajudassem no que eu precisasse. A partir de então, eu comecei a visitar o laboratório constantemente. Eu gostava muito do trabalho no laboratório, a Marisol era uma pessoa muito disponível que me ensinava muitos conceitos, que orientava meu estudo e me ajudava. O professor Sílvio perguntou se eu estava interessada em fazer um estágio de Iniciação Científica com bolsa. Eu fiquei muito feliz com a oportunidade e aceitei na hora. Nós escrevemos um projeto para concorrer a uma bolsa do PIBIC de Iniciação Científica e ela foi aprovada. A partir daí, começou oficialmente a minha carreira no Campo Científico. A experiência de trabalhar em vários laboratórios, me possibilitou conhecer pessoas maravilhosas, aprender diversas técnicas, ter contato com grupos de pesquisa com visões e mentalidades distintas o que foi essencial para minha aprendizagem e amadurecimento pessoal e científico. Considero que as experiências foram e continuam sendo uma excelente oportunidade de amadurecimento pessoal e científico, a qual possibilita, em um futuro próximo, o aprimoramento ainda maior da qualidade dos trabalhos científicos a serem publicados. Com isso, os ganhos para a ciência brasileira e para minha carreira como formadora de novos recursos humanos altamente qualificados para o Brasil são inestimáveis. Acredito fielmente que essas experiências contribuem para propiciar crescimento profissional, intelectual e pessoal; além de ajudar a consolidar minha linha de pesquisa com relevância para o meio científico nacional e internacional.

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