A ILHA DO MEDO

Publicação: 2015-01-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Nelson Mattos Filho
avoante1@gmail.com

A Ilha do Medo, localizada na Baía de Todos os Santos, é um daqueles lugares que entram para a história navegando em um emaranhado de boatos, causos e mistérios. E entre o disse me disse, ninguém sabe realmente destrinchar os segredos ali escondidos. Sempre que procurei saber algo sobre essa ilhazinha isolada me deparei com fragmentos de meias verdades e por isso mesmo desejei pisar em suas areias de um branco convidativo.

Se olharmos a Carta Náutica, a vontade de chegar até lá naufraga em meio ao cinturão de uma Coroa ampla e ameaçadora, sem falar nas baterias de corais que fazem fileiras na tropa de defesa organizada pela natureza.

Navegando entre as lendas que compõem a paisagem pequenina dessa ilhota, que baliza várias rotas no mar do Senhor do Bonfim, acho que a história que mais se aproxima da verdade vem das nuvens que esvoaçam o mundo mágico internético.

A Wikipédia diz que: A Ilha do Medo é uma APA, aliás, a primeira da Baía de Todos os Santos; que ela pertence ao município de Itaparica; que tem área total de 12 mil metros quadrados; que no século XIX teve uso militar; que já foi usada como colônia de leprosos; que por lá ronda o fantasma de um padre que se recusou a celebrar uma missa em Itaparica; que os pescadores, que por lá se aventuram em pescarias noturnas, contam que ouvem gritos e uivos; que um velho pescador deu de cara com uma mulher diabólica que soltava fogo pela boca e após relatar o ocorrido ficou mudo para sempre e que um bando de fantasmas holandeses, dos tempos das invasões, assombra a tudo e a todos. Tem até quem fale em peste de moscas e mosquitos endiabrados e em mortais cobras venenosas rastejando em suas areias.

Porém, o que mais festejei foi saber que por lá não existe fonte de água doce e que por isso ela continua desabitada pelos irracionais homens sábios. Ponto para as assombrações que não bebem água! Pois é, a história da baiana Ilha do Medo é bem temperada.

Mas fui até lá. E sabe o que vi? Vou contar: Não sei se pelo meu zelo em preservar o casco do Avoante, ou simplesmente por medo, mas depois de zarpar de Itaparica para a tão sonhada excursão a Ilha do Medo, há, esqueci de acrescentar que alguns batizam a ilhota de Ilha do Meio, circundei todo o banco de areia em busca de algum canalzinho que tenha passado despercebido dos feitores das Cartas Náuticas, mas os caras são bons mesmo e não esqueceram nenhum detalhe.

Em marcha lenta, com um olho no ecosonda e outro no mar, jogamos âncora na profundidade de 3 metros e a pouco mais de uma milha de distância. Lógico que alguns vão questionar por que tão longe e por que não avancei um pouco mais. Outros mais críticos vão dizer assim: Bem feito, quem manda navegar de monocasco. Mas tudo bem, uns são mais corajosos, outros mais precavidos, alguns gostam de monocasco outros de multicasco. Felizmente a vida é assim!

Existe um canal estreito, raso e mais próximo, entre a Ilha e a Ponta do Dourado e até já naveguei por lá em duas ocasiões seguindo na esteira do barco de um amigo, mas confesso que ainda não tive coragem de navegar nesse canal por minha conta e risco.

A Ilha é dotada de uma flora em estado quase bruto, porém, para ser uma APA, Área de Proteção Ambiental, deixa muito a desejar e juro que nem sei se os zelosos fiscais da natureza se aventuram por lá. Vimos algumas ruínas em avançado estado de destruição e abandono. Caminhamos alguns metros entre uma trilha que não leva a nada. Dividimos o espaço da praia com alguns nativos de Itaparica que por ali faziam um piquenique, inclusive fomos convidados para apreciar o sabor do churrasco que estava uma delícia. Mas o que mais chamou atenção foi a grande quantidade de lixo, principalmente sacos e garrafas plásticas, que se esparramava por entre as arvores.

Diz à norma que rege as Áreas de Proteção Ambiental, administradas pelo ICMbio, que são áreas, em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotadas de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É o que diz a Lei. Mas entre o ser e o será existe o verbo.

Confesso que não posso afirmar se valeu ter colocado os pés na Ilha do Medo, apesar do banho de mar maravilhoso, mas o que vi foi o bastante e acho que nunca mais assombrarei seus fantasmas!

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