A imitação

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República • Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL • Mestre em Direito pela PUC/SP

Uma coisa que sempre me impressionou – e tem me impressionado cada vez mais nestes tempos de Internet e de uso constante das tais “redes sociais” – é a capacidade do ser humano para imitar/repetir cretinices e “lugares comuns”, como se tivesse dizendo algo deveras importante. E eu não estou falando aqui da propagação intencional das “fake news”. Isso é outro problema, muitíssimo grave e até criminoso. Falo do simples ato de repetir estultices e platitudes, embora com os trejeitos de um Rui Barbosa (1849-1923), certo de que afirma a “coisa mais certa de todas as coisas”.

Outro dia, dei de cara com uma explicação científica para essa mania de imitação nos animais racionais, o que me deu a ideia de escrever este artigo. Antes que alguém me pergunte, já adianto que não se trata da teoria do “reflexo condicionado” de Ivan Pavlov (1849-1936), muito embora eu já tenha ouvido falar de sinais de salivação nos seguidores do nosso “rei dos animais”.

Esse meu achado se deu com a leitura de um pequeno texto – “Les lois de l’imitation”, de Solenn Carof – sobre Gabriel Tarde (1843-1904), que faz parte do caderno “Les 100 penseurs des sciences humanies” das edições/revista “Siences Humaines” (abril-maio de 2018). Uma revista que só me caiu em mãos porque, enferrujado na arte de “Madame Bovary”, voltei a estudar o idioma do grande Gustave Flaubert (1821-1880). Corri para a boa Aliança Francesa de Natal, mas saudoso do meu tempo de Alliance Française Paris Ile-de-France. À época, Paris era uma festa!

Segundo li no texto acima referido, para Gabriel Tarde, basicamente, a realidade social que enxergamos é formada por um conjunto de consciências individuais ligadas entre si pelas “leis da imitação”. Na verdade, “isso se dá como uma onda ou uma corrente magnética, que se propaga de indivíduo para indivíduo. Cada indivíduo recebe dos outros, dessa maneira, ideias ou representações das quais se apropria quando as julga boas, copiando-as e transformando-as. G. Tarde vê nisso o princípio fundamental do fato social. A imitação está no centro de toda a vida social e explica bem tanto as situações estáveis como as mudanças. Assim, o gênio é aquele que foi capaz de reagir aos vários fluxos imitativos de modo a criar algo diferente. A história nada mais é do que o processo pelo qual os indivíduos se reinventam na imitação, de uma civilização para outra. Em L’Opinion et la Foule (1901), G. Tarde também faz uso do princípio da imitação para explicar o nascimento da opinião pública. Ela é formada pela coesão mental que nasce entre leitores separados. Essa coesão, possível graças à imitação, transforma uma massa de leitores anônimos em um coletivo de opiniões” (e aqui fiz uma tradução livre do texto em francês).

Ao mesmo tempo filósofo, sociólogo e criminologista, outrora rival de Émile Durkheim (1858-1917), Gabriel Tarde é considerado um dos fundadores da psicologia social e, embora esquecido um tempo, volta, de uns anos para cá, à ribalta das ciências humanas. Merecido. Em tempos de hiperinflação das redes sociais, se quisermos entender cientificamente a tal opinião pública, devemos prestar atenção no que visionariamente disse o autor de “As multidões e as seitas criminosas” (1893), sobretudo nas suas “leis da imitação”, mesmo que já decorridos mais de cem anos do seu falecimento.

E foi para me familiarizar mais com Gabriel Tarde que tomei emprestado, da biblioteca do meu pai, uma edição do seu livro clássico “A opinião e as Massas” (“L’Opinion et la Foule” já referido acima), publicado entre nós pela Martins Fontes, em 2005, como parte da “Coleção Tópicos” dessa ótima editora (coleção que, com aquela capa vermelha característica, muitos de vocês devem conhecer).

Comecei a leitura pela Introdução, é claro. É de Dominique Reynié, acadêmico e cientista político francês, especialista na “ciência da opinião pública”. Gostei. Especialmente, na parte em que o resenhador lembra que, para Tarde, “a imitação, compulsória ou espontânea, eletiva ou inconsciente, transforma a descoberta individual num fato social. A opinião, a ideia ou o desejo de um torna-se progressivamente a opinião, a ideia ou o desejo de um grande número. O futuro normal de uma inovação é sua propagação, seu futuro ideal é a propagação universal. À questão de saber sobre o que repousa esse fenômeno de imitação de um indivíduo por outro, depois por uma multidão, Tarde responde que ele provém da sugestão, que não é mais que uma forma de ‘hipnotismo’”.

Entretanto, mais à frente, descobri que Gabriel Tarde também explica o fenômeno da imitação não só como resultado de um hipnotismo, mas, também, de um sonambulismo. Aí me assustei. Consta que não sou sugestionável. Mas preciso dormir. E se essa imitação toda é fruto do sono e do sonho, de tanto hoje assistir repetir e triunfar as nulidades, rogo tanto a Deus como ao diabo que me livrem de ser abduzido por esse pesadelo.

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