Natal
A indústria têxtil resiste no semiárido
Publicado: 00:00:00 - 02/02/2018 Atualizado: 16:09:30 - 02/02/2018
Mariana Ceci
Repórter

Se as grandes civilizações tiveram início próximas a rios para se desenvolver, o povo sertanejo precisou usar da criatividade para explorar outros recursos da natureza e conseguir o mesmo feito. As tentativas de desenvolver a região, que apresenta um clima essencialmente semiárido, ou seja, semidesértico, não foram poucas. Em sua maioria,  dependeram da vontade dos pequenos produtores para vingar. 

Bruna Justa
A vocação do RN para a área têxtil sempre foi forte. Antes, com o algodão. Hoje, no trabalho das facções

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A atividade agropecuária na região registrou experiências de sucesso. Na primeira metade do século XIX, o Seridó pareceu encontrar sua verdadeira vocação: o plantio do algodão mocó. Com fibras longas e muito apreciado no mercado internacional, foram circunstâncias históricas que permitiram que o algodão se transformasse no “ouro branco”  potiguar. Com o início da Guerra da Secessão, os Estados Unidos, maiores exportadores mundiais de algodão à época ficaram impossibilitados de atender ao mercado, abrindo caminho para o produto brasileiro.

De acordo com registros históricos de Câmara Cascudo, em 1848 o porto de Natal embarcava 6 mil arrobas  (medida que equivalia a aproximadamente 12 quilos) de algodão mocó para o mercado internacional. Em 1866, um ano após o fim da Guerra da Secessão dos Estados Unidos, o número subiu para 140 mil arrobas exportadas pelos produtores potiguares.

A era de ouro do algodão, no entanto, entrou em crise. No século XX, durante a década de 80, a praga do bicudo, conhecido como “o câncer da cotonicultura” dizimou os algodoais de 132 dos 150 municípios produtores do Estado. Naquela década e nas seguintes, a seca também contribuiu para o processo de declínio do cultivo do algodão. Mesmo com a crise, o seridoense já havia aprendido o que fazer com o produto, e muitos dos municípios ficaram famosos pela sua produção de redes de forma artesanal.

Foi apenas no final dos anos 1990 que alguns empreendedores locais pensaram em aproveitar essa habilidade adquirida no cultivo do algodão para inserir a região em um novo setor econômico: o de confecções. No início dos anos 2000, começaram a despontar no Seridó as primeiras oficinas, as “facções” de costura. Organizadas em galpões, as oficinas começaram a produzir peças para grandes marcas e, aos poucos, foram se consolidando no mercado nacional e atraindo novos clientes.

Hoje, são 124 oficinas de confecção ativas em todo Estado, que produzem cerca de 18 milhões de peças de roupa anualmente. Estima-se que o negócio movimente cerca de R$ 60 milhões por ano na economia do Estado. Assim como no século XIX, a sobrevivência das oficinas dependeu em grande parte da organização dos pequenos empreendedores.

Observando que necessitavam se profissionalizar para poder competir com outros Estados, como Pernambuco, os empresários começaram a se organizar em associações. Em 2010, foi criada a Associação de Confeccionistas do Seridó (Asconf). É presidida por Zeca Medeiros, atual vice-prefeito de Cerro Corá e proprietário de uma oficina de costura na cidade desde 2007. Ele conta que a organização dos empresários foi fundamental para que as dificuldades iniciais fossem superadas e o ramo se consolidasse. “Em 2010, vimos que precisávamos nos unir para nos profissionalizar mais, nos adequar com rigor às leis ambientais e trabalhistas. Só assim conseguiríamos crescer no mercado nacional”, relata Zeca. A Asconf, atualmente, é formada por 29 empresários de oito municípios do Seridó. Somadas, as empresas empregam cerca de 1.600 funcionários. Outras cidades próximas também se uniram em outra associação comandada pela empresária Eva Vilma, de Parelhas.

Com a organização, os empresários perceberam que ainda precisavam de um impulso maior para crescer. Em 2013, foi criado o programa Pró-Sertão, pelo Governo do Estado. Com linhas de crédito disponibilizadas pelo Banco do Nordeste para a compra de maquinário e expansão das oficinas - além de consultorias, capacitação e treinamento do Sebrae e Senai - o segmento encontrou o subsídio necessário para dobrar de tamanho, em quatro anos. No total, já são 3 mil empregos diretos, uma receita considerável para municípios como São José do Seridó que, com 4.500 habitantes, possui um quinto de sua população empregada nas oficinas.


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