A infância na Afonso Pena da filha do Engenheiro Roberto Freire

Publicação: 2019-10-20 01:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Na avenida Afonso Pena dos anos 50 o que imperava era o clima residencial, comunitário, onde os vizinhos eram bem próximos uns dos outros, a ponto da meninada crescer praticamente junta, feito primos - e com total liberdade para brincar na rua. No meio da garotada estava Ivone Freire, filha do casal Roberto Freire e Dona Lúcia. A casa de seus pais era central na rua. Ali, todas as crianças da vizinhança costumavam se encontrar para jogar bola no campinho do quintal e brincar. Única menina dentre sete irmãos, Ivone aprendeu cedo a não guardar desaforo. “Levava canelada no jogo, caia no chão, chorava, mas me levantava em seguida e ia atrás de descontar em alguém”, lembra com bom humor.

Filha do Engenheiro Roberto Freire, nome que batiza uma das vias mais famosas da cidade,  Ivone Freire lembra tanto dos veraneios na velha Ponta Negra de 60, como das histórias de infância na Avenida Afonso Pena, lugar que décadas depois inaugurou o primeiro restaurante self-service em Natal

O tempo de Ivone na avenida Afonso Pena durou só até a família se mudar para a Cidade Alta, onde passou a adolescência na rua Princesa Isabel. Mas a ligação de Ivone com a avenida não terminaria ali. Quis o destino que Ivone retornasse à Afonso Pena em 1989. Claro que não encontrou a rua do jeito que era antes. A casa de seus pais, por exemplo, já havia dado lugar ao hospital Papi. O que encontrou foi uma avenida que caminhava à passos largos para se firmar como importante pólo médico-hospitalar e principal reduto de lojas de grife da cidade. Foi nessa rua que Ivone inaugurou um empreendimento inédito em Natal naqueles anos. Ela abriu um restaurante, mas não um restaurante qualquer. Na verdade um self-service, o primeiro da cidade, conhecido por todos como Talher.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Ivone lembra histórias da Afonso Pena de sua infância, rememora os veraneios em Ponta Negra, nos anos 60, quando a via que leva o nome de seu pai, Roberto Freire, ainda não era asfaltada. Conta também histórias curiosas de quando abriu seu restaurante self-service e outros causos. Confira.

Afonso Pena
Quando morei na Afonso Pena as casas eram enormes. Essa avenida era como se fosse tudo uma família só. Todo mundo se conhecia. Pra você ter uma ideia, o portão da casa de papai não tinha chave, ficava aberto. As pessoas entravam para tomar café, comer biscoito. As crianças da rua iam todas joga bola no campo do quintal. Fui criada no meio de seis homens, mais um primo que morava com a gente. Então você imagina como era. Mas comigo era assim, quando eu levava canelada podia até chorar, mas ia descontar depois.

Abrigo Anti Aéreo
Na casa de papai tinha esse abrigo antiaéreo do tempo da guerra. Não sei a história dele, se já tinha lá antes da família chegar, nem sei se as outras casas da rua tinham também. O abrigo era todo de cimento. A pedra que tampava era muito pesada. A gente sempre teve curiosidade de ver como era lá dentro. Tinha uma escada. Acho que era um abrigo mais pra estocar comida. Mas a gente nunca foi de brincar lá não. Tínhamos muito medo. Meu pavor era chegar lá embaixo e ter inseto.

Hospital e Estacionamento
Passei a infância na Afonso Pena. A adolescência foi na Cidade Alta, numa casa na Princesa Isabel com fundos para a Felipe Camarão. Também tínhamos bastante amigos. Estudei no CIC. Morei lá até casar. Hoje, no lugar onde era a casa da Afonso Pena tem o Hospital Papi, e na casa da Cidade Alta hoje é um estacionamento, gerido pelo meu irmão.

Veraneios
O melhor daqueles tempos era o veraneio em Ponta Negra. Aquelas memórias são eternas. A gente passava cinco meses por ano lá. Era praticamente como fazer uma mudança. Chegávamos em Ponta Negra antes de terminar as aulas. Naquele tempo não tinha a estrada asfaltada ainda. E a ladeira para descer pra praia era comum o carro atolar. Lembro que tinha um poço onde a gente ia pegar água para tirar o sal do corpo.

A gente adorava pegar os pescadores no arrastão. Uma ruma de crianças. Não sei como eles tinham tanta paciência com a gente. Conheciam a meninada tudinha. Lembro que ninguém usava protetor solar. Passávamos o dia na beira na praia. Meus irmãos desciam o Morro do Careca de tábua, passam cera de carneiro. À tarde íamos para a Vila. Fazíamos algumas compras na venda de Dona Constância. Quem veraneava em Ponta Negra também era o pai de Nélio Dias, tinha o Camilo de Paula, pai de Marcos Sá, o Geraldo Santos, pai de Marcos Santos. Toda essa turma veraneava lá. Na casa de papai tinha uma quadra de vôlei e futebol. No lado tinha uma parede imensa de pedra. Todo mundo de tarde ia pra lá.

15 anos
Meu aniversário de 15 anos foi nessa casa, no veraneio. Mamãe pensando em fazer cachorro-quente para os “meus amiguinhos”. Eu com 15 anos e mamãe falando “amiguinhos” (risos). Quando foi à tarde começou a chegar tonéis de gelo, montaram um palco, começou a chegar gente. De repente meu aniversário tomou outra proporção, se tornou uma festa imensa. Nemésio apareceu, Newton Navarro chegou lá bêbado e ainda fez uma poesia pra mim. E eu por fora de shortinho. Mas foi um aniversário histórico. Aquela casa depois virou um clube do Banco do Nordeste.  Hoje não sei o que é lá, mas a quadra está lá na frente com o paredão branco.

Roberto Freire
A estrada para Ponta Negra era a menina dos olhos de meu pai. Lembro que ele dizia que o futuro de Natal estava para os lados de lá. Eu não acreditava na época. Achava Ponta Negra muito longe. Lembro que de pensar que nem meus netos veriam a cidade crescer até ali. Papai era visionário nesse sentido. Defendia que para ter progresso tinha que ter estrada, ponte, tudo que pudesse interligar o Estado. Construiu a estrada dentro de um sistema moderno de calçamento. Uma vez, no Natal, depois de assistir uma palestra espírita, sai pela avenida conversando com papai. É um lugar bem forte da cidade pra família.

Marmita
Antes de fazer o Talher, eu tinha uma marmitaria. Ficava numa esquina da Alexandrino de Alencar. Isso era em 1984. Ficava num ponto comercial. Na época não existia isso. As pessoas abriam marmitaria na própria residência. A ideia eu tirei de Brasília. Era uma cidade onde as coisas ficavam muito longe uma das outras, existiam poucas domésticas, então tinham esses lugares onde as pessoas passavam rápido para pegar uma carne temperada que seria cozinhada em casa, de modo prático e rápido. Trouxe essa ideia pra cá. Mas diferente de Brasília, que as pessoas compravam a carne crua para preparar, eu já vendia a carne pronta.

Talher
Um dia meu irmão me chamou para ir conhecer um restaurante novo que abriu em Brasília. Era um restaurante no peso. Enlouqueci com a ideia e voltei para Natal motivada a fazer algo do tipo. Procurei um ponto e encontrei esse lugar aqui na Afonso Pena. Era completamente diferente do que você está vendo agora. Antes era uma casa residencial e do lado se vendia um pão de leite muito conhecido na cidade. E no tempo que morei aqui, na infância, era uma propriedade grande, cheia de árvores. A gente pulava o muro para apanhar fruta, tinha até uma vaquinha. Mas sobre o restaurante, em pouco tempo começou a formar fila na calçada. Então eu expandi, adquirir a casa do lado, onde vendia o pão de leite. Comida no peso era novidade, eu ficava explicando como funcionava, né. Pega o prato aqui, se serve ali e volta para pesar na balança. Pra você vê, né, hoje a cultura do self-service está massificada em toda a cidade.





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