Economia
“Inovar agora é para sempre”, afirma Carlos Carmo Andrade Melles, presidente nacional do Sebrae
Publicado: 00:00:00 - 16/01/2022 Atualizado: 16:49:29 - 15/01/2022
O presidente do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Carlos Melles, avalia que a crise econônica gerada à reboque da pandemia da Covid-19 reforçou a vocação empreendedora do brasileiro. Ele explica que a taxa de empreendedorismo potencial, composta por cidadãos que não têm um negócio, mas pretendem abrir uma empresa em até três anos, teve um incremento em todo país. À TRIBUNA DO NORTE, Melles apresentou as tendências do mercado do empreendedorismo para 2022, que passsam, principalmente, pelo reforço nos processos de modernização e digitalização das atividades empresariais, como forma de garantir maior eficiência e atender melhor os consumidores. Leia a entrevista:
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Inovar agora é para sempre, afirma Carlos Carmo Andrade Melles, presidente nacional do Sebrae

Inovar agora é para sempre, afirma Carlos Carmo Andrade Melles, presidente nacional do Sebrae


Como um dos efeitos colaterais da pandemia da Covid-19, a crise econômica acabou empurrando muitos brasileiros para a abertura do próprio negócio nos últimos dois anos. A elevação do número de pequenas e microempresas é positiva?
O Brasil cada vez mais tem demonstrado a sua vocação empreendedora. Nos últimos anos, temos presenciado um crescimento recorde do empreendedorismo no Brasil. São mais de 20 milhões de empreendedores, que representam 99% das empresas brasileiras e são responsáveis por mais de 70% das novas vagas de trabalho criadas em 2021, 44% da massa salarial dos empregos formais e por quase 30% do PIB brasileiro. Entre março de 2020 e novembro de 2021, 4,2 milhões de pequenos negócios foram criados no Brasil, o que corresponde a mais de 23% do total de empresas desse segmento. A criação desses negócios permitiu que milhões de brasileiros que se viram sem um emprego, pudessem encontrar no empreendedorismo uma fonte de renda e ocupação.

O inchaço de microempreendedores também não mostra uma dificuldade da economia em gerar empregos?
Com o aumento do desemprego causado pela chegada da Covid-19, muitas pessoas se viram forçadas a empreender, mas a pandemia do coronavírus fortaleceu também nos brasileiros o desejo de ter um negócio próprio no próximo triênio. De acordo com o relatório da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020, realizado no Brasil pela parceria entre Sebrae e o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), a taxa de empreendedorismo potencial, composta por cidadãos que não têm um negócio, mas pretendem abrir uma empresa em até três anos, teve um incremento de 75%, passando de 30%, em 2019, para 53%, em 2020. A pesquisa fez uma estimativa de que 50 milhões de brasileiros que ainda não empreendem querem abrir um negócio. Desse total, 1/3 teria sido motivado pela pandemia, mas os outros dois terços não. A pandemia fez com que ter um negócio virasse uma forte motivação para milhões de brasileiros, não apenas pela alta do desemprego; tanto que - pela primeira vez na série histórica da pesquisa - ter uma empresa passou a ser o segundo maior sonho do brasileiro, perdendo apenas para o desejo de viajar

Quais são os principais desafios para empreender em 2022?
Temos que ser realistas e saber que 2022 ainda não será um ano fácil para os empreendedores, que ainda sentem o impacto da pandemia e agora são pressionados pelo aumento de custos. Por isso é importante os donos de pequenos negócios fazerem as contas e ficarem atentos ao fluxo de caixa do negócio. Eles não podem também deixar de lado a digitalização. Com a volta das pessoas às ruas é importante aliar o digital com o físico. Nos últimos dois anos, os empreendedores tiveram que se reinventar para enfrentar uma crise sem precedentes e os donos de micro e pequenas empresas devem incorporar essa nova atitude na hora de planejar um novo negócio ou redefinir estratégias para aproveitar as oportunidades de mercado. Hoje o empreendedor reavalia dia a dia o seu negócio, ouve o seu cliente e se reinventa sistematicamente. Inovação agora é para sempre e isso significa também incorporar em definitivo o digital nas suas ações. O mundo hoje é phygital, que é a fusão do digital, com o presencial, com o físico.

Como a crise econômica (inflação crescente, câmbio imprevisível e desemprego em alto) pode afetar o setor em 2022?
Desde o aumento da cobertura vacinal, as micro e pequenas empresas começaram a apresentar sinais de recuperação, mas apesar da reabertura e da flexibilização das restrições, os novos desafios que aparecerem para os empreendedores são justamente os ligados ao aumento de custos. E esse é um problema que afeta praticamente todas as atividades. Segundo a 13ª edição da Pesquisa de Impacto do Coronavírus nos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), metade dos empresários disse que o aumento de custos é o que mais tem dificultado a recuperação financeira. Em segundo lugar, vem a falta de clientes. Depois, as dívidas de empréstimos, com impostos e com fornecedores.

Quais os setores mais propícios para a empreender em 2022?
Uma das mudanças que a pandemia trouxe para os pequenos negócios brasileiros foi a aceleração no processo de digitalização das empresas. De acordo com levantamento feito pelo Sebrae, em parceria com a FGV, sete em cada dez micro e pequenas empresas se digitalizaram o que acaba criando ou aumentando as oportunidades em segmentos voltados para a tecnologia da informação como suporte técnico, manutenção, desenvolvimento de aplicativos e websites, gestão de mídias sociais e gestão de marketing digital, logística, além de serviços de biometria, de automação residencial e empresarial e realidade virtual para teste de produtos e serviços, por exemplo. Outras atividades tradicionais também devem demonstrar sinais de recuperação e se tornarem boas oportunidades de negócios, como por exemplo os de alimentação fora do lar e de turismo. Mais atividades que podem crescer em 2020, por estarem ligadas às mudanças no perfil do consumidor brasileiro, são aquelas voltadas para a população com mais idade. Com a crescente proporção de idosos na população já se cria nichos com oportunidades específicas em áreas como saúde e bem-estar, atividades físicas, turismo e serviços em geral. Outra tendência é o aumento de animais domésticos. O mercado pet já conta com grandes players de varejo, mas também oferece muitas possibilidades para pequenas empresas de higiene e embelezamento, alojamento e treinamento de pets. É  outro segmento que tem sido bastante procurado no Sebrae.

O que o Sebrae planeja para 2022? Quais as ações para fortalecer as MPE?
Nós estamos trabalhando muito na educação empreendedora, nos agentes de desenvolvimento, nos agentes de inovação e no crédito assistido para que esses quatro componentes possam melhorar a eficiência e melhorar a produtividade da micro e pequena empresa.

O que o governo federal precisa fazer para fortalecer o setor?
Uma das primeiras iniciativas que deve ser adotada nesse ano é a sanção do Projeto de Lei Complementar 46/21, de autoria do senador Jorginho Mello (PL/SC), que institui o Programa de Reescalonamento do Pagamento de Débitos no Âmbito do Simples Nacional (RELP) e que foi aprovado no fim de dezembro pela Câmara dos Deputados. O RELP poderá ajudar todos os empreendedores que passam dificuldades intensificadas com a crise do coronavírus. É uma medida que vai impactar milhões de pessoas que empreendem no país e precisam desse respiro para recomeçar. A proposta cria uma isonomia para os empreendedores, que terão os valores de desconto de redução de multas e juros proporcionais à queda de faturamento na pandemia. 

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