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A insustentável leveza de ser quem se é
Publicado: 00:01:00 - 01/07/2022 Atualizado: 23:26:37 - 30/06/2022
Teresa Oliveira
Escritora, advogada, mestra em Linguística aplicada pela UFRN

A semana começa, o mês de junho em vias de fechar as cortinas, noites frias, dias difíceis, outros nem tanto. Para cada madrugada escura há um amanhecer coroando; para cada desatino da vida, há uma fagulha de esperança nas mãos santas e perfumadas dos profissionais que, serenamente, administram o convivem com o CAOS do Hospital Walfredo Gurgel.

Na tarde de hoje, fui encontrar-me com Dr. Wender Batista, um primo querido. A finalidade do encontro era presenteá-lo com um exemplar do meu livro, cujo objeto central é a história de meu pai, Dr. Gentil. Queria que Wender lesse os meus textos e ficasse mais íntimo do homem que fizera o parto de um dos seus irmãos, em Alexandria – RN. 

Ao adentrar às portas do Walfredo, fui orientada a procurar meu primo no Politrauma (Wender é Cirurgião). Chegando lá, fui recepcionada por duas médicas muito educadas que informaram-me que ele estava no Centro Cirúrgico. A médica loira tentava ensinar-me o caminho. Eu, deixando transparecer o meu péssimo senso de direção, respondi que seguiria as placas.

- Que placas, moça? Não temos sinalização nos corredores – Falou a médica.

- As placas são as pessoas, Dra., vou perguntando no caminho. Eu chego lá. Não se preocupe! – Respondi sem saber nem para que lado deveria ir.

Sentado atrás das belas moças, havia um homem cujo jaleco permitia enxergar o seu nome. Espremi os olhos e li: Dr. Rafael Rosas – Cirurgião.

Antes que eu saísse desorientada, ele antecipou-se, ensinou o trajeto com a praticidade de um docente genuíno.
A passos largos e valendo-me das “placas humanas”, cheguei ao destino.

No trajeto, pensei estar atravessando uma “zona de guerra”, corredores lotados, macas no chão, gente correndo de um lado para o outro, além do barulho horrível de uma reforma interminável arrastada por alguns governos.

Finalmente cheguei em Wender, ainda deu tempo de vê-lo lutando para colocar um paciente no Bloco Cirúrgico. Enquanto a equipe preparava tudo e acionava o anestesista para iniciar o procedimento, meu primo passeou comigo em algumas alas do Hospital e me deu o presente de conhecer e conversar com Dr. Rafael Rosas, seu antigo professor, hoje colega de profissão e companheiro de plantão.
Olhos firmes, sorriso largo, conversa leve, assim como deve ser as suas mãos diante de um bisturi.

Com uma formação intelectual que dispensa comentários e comprovações, Dr. Rosas abriu as comportas do coração, da humildade, da humanidade e, sobretudo, do amor e do respeito que pratica a arte da medicina.

Corrigiu a minha ignorância quando, de forma assertiva, disse-me que é justamente aquela “zona de guerra” que salva o RN. Relatou a frustração de não poder fazer tudo o que gostaria. A falta de recursos também algema a alma de um médico.

Dr. Rafael não consegue enxergar-se em outra profissão, diz que é feliz fazendo SUS. Em todas as vezes chega ao plantão com vontade de resolver, vontade não diminuída com o passar dos anos. Na imensa maioria, ele resolve. É conhecido entre os colegas pela perícia, competência e compromisso com a profissão que abraçou. 

Dr. Rosas não espera reconhecimento da sociedade, para ele, o reconhecimento legítimo vem do paciente. O salário moral dele é resumido em apor sua assinatura numa alta hospitalar.

Quando questionado sobre suas frustrações, responde tranquilamente ter aprendido a conviver, inclusive, não perde a oportunidade de ensinar aos alunos mais jovens que para lidar com a vida, é preciso entender a morte como parte dela.

Além de ensinar medicina, Dr. Rafael dá conselhos financeiros aos alunos  e não esconde a preocupação com aqueles que escolhem a carreira pensando, primeiramente, nas cifras. Relembra que o caminho é longo, a jornada é árdua e, mesmo depois de mais de duas décadas dedicadas ao SUS, revela-se como um aprendiz. Aprende todos os dias, não abre mão da soberania do exame físico e ressalta a importância do “olho clínico” na carreira de qualquer profissional a saúde.

Por fim, enfatiza a empatia como condição sine qua non para ser um bom médico e um médico bom. Sem empatia, não há como ostentar um número no CRM.

Parafraseando  Cartola, digo aos queridos leitores: “Bate outra vez, com esperanças o meu coração (...)”

Por outra banda, contrariando Agenor de Oliveira, digo que volto ao jardim com a certeza que devo sorrir. Queixei-me às Rosas, as minhas bobagens, e percebi que além de falarem, elas consolam, salvam e exalam perfume todas as vezes que cruzam as portas do Centro Cirúrgico do Hospital Walfredo Gurgel.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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