Viver
A jornada real de 'Green Book'
Publicado: 00:00:00 - 24/01/2019 Atualizado: 21:39:25 - 23/01/2019
Por Mariane Morisawa

Ninguém tinha dado atenção a Green Book - O Guia até ele estrear no Festival de Toronto, em setembro, e imediatamente entrar para os prováveis candidatos do Oscar - uma previsão que se confirmou terça-feira (22), com as cinco indicações recebidas. O longa também ganhou três Globos de Ouro, de melhor musical ou comédia, roteiro e ator coadjuvante (Mahershala Ali), além do prêmio do Sindicato dos Produtores, um dos principais termômetros para o Oscar.

Patti Perret
Filme desponta como favorito na disputa do Oscar de melhor filme

Filme desponta como favorito na disputa do Oscar de melhor filme

Filme desponta como favorito na disputa do Oscar de melhor filme

Green Book - O Guia inspira-se numa história real. Nos anos 1950, com o Sul dos Estados Unidos ainda sob segregação racial, havia um guia de hotéis que aceitavam negros, o "green book" do título. Em geral, eram estabelecimentos bem simples.

Quando o pianista negro Don Shirley (Ali), um homem rico e refinado, resolve fazer uma turnê pela região, a gravadora contrata um motorista leão de chácara, Tony Lip (Viggo Mortensen), um ítalo-americano falastrão e racista. A viagem, claro, não começa muito bem. Mas aos poucos os dois desenvolvem um relacionamento próximo. "É um roteiro muito bem escrito, muito bem estruturado, com personagens bem desenhados. Eu ria alto quando estava lendo", disse Mortensen em entrevista durante o Festival de Zurique, no início de outubro. "Mas também provoca, fala de questões importantes como racismo e diferenças de classe."

Apesar de tratar de assuntos sérios, Green Book tem bastante humor e é quase um "feel good movie", um filme reconfortante. Seu diretor é Peter Farrelly, conhecido por comédias escrachadas como Quem Vai Ficar com Mary? e Débi & Loide - Dois Idiotas em Apuros, dirigidos em parceria com seu irmão, Bobby Farrelly.

Green Book - O Guia é o primeiro filme que Peter dirige sozinho, sem Bobby. Mas o diretor disse que não foi nada planejado. "Essa história caiu no meu colo, foi sorte", contou Peter. "Um amigo meu, o ator Brian Currie, me contou essa história inacreditável. E aquilo ficou na minha cabeça. Dois meses depois, liguei para ver como estava indo e me ofereci para me juntar ao projeto." Ele deixou claro que foi uma exceção e não uma tentativa de separação de Bobby. "Não tinha intenção nenhuma de fazer sozinho Mas o filho do meu irmão morreu há quatro anos de overdose, e ele ficou totalmente abalado."

Patti Perret
Viggo Mortensen e Mahershala Ali como o motorista Tony e o pianista Shirley em cenas de  Green Book

Viggo Mortensen e Mahershala Ali como o motorista Tony e o pianista Shirley em cenas de Green Book

Viggo Mortensen e Mahershala Ali como o motorista Tony e o pianista Shirley em cenas de “Green Book”

O cineasta disse que não achou Green Book tão diferente dos seus outros longas. "Nossos filmes tinham um tom e coração. Em alguns instantes tive de me conter diante de algumas piadas, mas foi isso."

O longa não poderia ser mais atual, concordam Mortensen e Farrelly. "As coisas não mudaram tanto assim", afirmou o ator. "Houve uma época em que a mobilidade entre classes era maior, mas agora existe uma enorme diferença entre ricos e pobres." Farrelly não concebeu o filme como uma mensagem. "Gostei desse 'bromanc' entre esses dois homens tão diferentes", garantiu o cineasta. "Se você se coloca no lugar do outro ou simplesmente conhece o outro e supera o medo do diferente, você vê que somos muito parecidos."

O filme, que desponta como favorito na disputa do Oscar de melhor filme depois do prêmio do Sindicato dos Produtores, agora tem de superar as controvérsias em que se envolveu desde então, como o uso de uma palavra preconceituosa por Viggo Mortensen, a divulgação de que o diretor, no passado, costumava baixar as calças para fazer graça no set ou o tweet de Nick Vallelonga, roteirista, produtor e filho de Tony Lip, falando mal de muçulmanos - o ator Mahershala Ali segue a religião. Além disso, precisa superar a fama de ser um Conduzindo Miss Daisy ao contrário e de usar mais uma vez um "salvador branco" para contar a história de um negro. A família de Don Shirley acusou o filme de falsear vários aspectos, incluindo exagerar a amizade do músico com Lip. (Com informações do Estadão Conteúdo)

Saiba mais...

Quem foi Don Shirley?
Don Shirley (1927-2013) foi um célebre pianista e compositor de jazz. Era americano descendente de jamaicanos. Estudou música clássica ainda criança e cedo começou a atuar em orquestras sinfônicas. Nos anos 50 passou a explorar o jazz. É reconhecido pela técnica excepcional no piano e pelo conhecimento erudito, tudo colocado à serviço de novas expressões jazzísticas. Dentre seus discos mais expressivos estão “Pianist Extraordinary" e “Piano Arrangements of Famous Spirituals", lançado como um álbum duplo.

O que é ‘The Negro Motorist Green Book’?
É o livro usado pelo motorista Tony Lip (Viggo Mortensen) para ajudar na viagem do pianista Don Shirley (Mahershala Ali) pelo sul dos EUA. Em tradução livre, o título quer dizer: “O livro Green do motorista negro”. A autoria é do americano Victor Hugo Green (1892-1960), um negro funcionário dos Correios. A publicação foi lançada em 1936 e chegou a ser comercializada até meados da década de 60, período de forte segregação racial nos EUA, em que restaurantes e hotéis não aceitavam negros e a assistência mecânica muitas vezes era negada para viajantes não brancos. A proposta do livro então era apresentar lugares e serviços menos hostis para os negros, auxiliando, dessa forma os viajantes negro, que começavam a adquirir seus próprios automóveis e pegar a estrada. O livro será adaptado para uma série de televisão, cuja ideia é acompanhar várias histórias de viajantes negros. (Redação TN).





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