Artigos
A lição da língua nas notícias
Publicado: 00:00:00 - 01/08/2021 Atualizado: 14:15:13 - 31/07/2021
João Maria de Lima 

O jornal é um veículo de informação que tem características próprias: alguns assuntos repercutem no futuro, outros são fugazes, têm interesse momentâneo e, por isso, envelhecem rapidamente. Com o surgimento dos blogues e redes sociais, esse envelhecimento ficou mais precoce. 
No entanto, esse fato só aumentou as possibilidades para o professor de língua portuguesa, uma vez que a notícia pode ser recolhida de diversas fontes, o que permite uma variada sequência de atividades: debate de assuntos que estabelecem relações entre o indivíduo e o mundo que o cerca, diferentes interpretações de um mesmo assunto, estudo dos recursos expressivos e das modalidades de texto próprios da linguagem jornalística, formas de inserir o discurso do outro, inserir ou escamotear a opinião do próprio jornal, análise de veículos que atendem leitores de interesse diversificado, produção de textos específicos, tais como notícias, editoriais, entrevistas, reportagens, etc.

Para tornar este espaço mais dinâmico, falaremos apenas do ensino das regras, neste primeiro momento, valendo-nos de notícias locais e atemporais. Para começar, vejamos esta: “O presidente da Assembleia Legislativa do RN, deputado Ezequiel Ferreira (PSDB), requereu uma série de medidas para o município de São Pedro, localizado na região Potengi do estado”. Podemos começar pelo uso das vírgulas, as quais isolam o nome que vem após o cargo “presidente da Assembleia Legislativa do RN”. Isso só ocorre quando somente uma pessoa pode ocupar o cargo. Se a frase fosse “O deputado estadual Ezequiel Ferreira (PSDB) requereu...”, não haveria vírgulas para isolar o nome do parlamentar, pois ele não é o único deputado estadual. Mas é o único presidente da Assembleia, afinal só um parlamentar pode ocupar o cargo. Outros exemplos: O prefeito de Natal, Álvaro Dias, foi diplomado para um novo mandato (só há um prefeito); O vereador Aldo Clemente defenderá a bandeira do Turismo (há outros vereadores).

Ainda no contexto da mesma notícia, “requerer” é pedir por meio de requerimento.  Mas há outros significados menos comuns, como “galantear”, “cortejar” (Muitos rapazes requerem aquela moça) ou “ser digno de”, “merecer” (A situação requer grande homenagem). Na hora de conjugar, fique atento, pois “requerer” e “querer” são irregulares. No presente do indicativo (eu requeiro/quero), no pretérito perfeito do indicativo (eu requeri/quis; ele requereu/quis).
Agora vamos a uma notícia em que o redator dá mau exemplo: “Carregamento de 3,5 toneladas de melão pele de sapo começou a ser vendida em terras chinesas após 45 dias de viagem”. Eis um caso em que o sujeito (carregamento) longe da locução verbal (começou a ser) traiu o redator. Carregamento começou a ser “vendido” era a forma correta. E, para não perder a viagem, vale lembrar que o substantivo (viagem) e a forma verbal (viajem) não podem ser confundidos.

Mais um escorregão muito comum: “Sicoob lança nova campanha de combate à violência contra a mulher”. A campanha é digna de todos os aplausos; a redação do texto não. Todo lançamento é de algo novo. Então, na frase acima, o adjetivo “nova” está sobrando. Isso se chama redundância, que também é conhecida como pleonasmo. Vejamos outros casos: “O preço do produto é barato”. O termo “barato” já encerra a ideia de preço. É impropriedade de linguagem dizer “preço barato” ou “preço caro”. Produtos, mercadorias ou serviços podem ser baratos ou caros, e não os “preços”. Estes serão baixos, módicos, altos, exorbitantes, abusivos. “Qual a sua experiência anterior?” (Toda experiência é anterior). “Há várias goteiras no teto” (Não há como se formar goteiras no chão, pois seriam poças); “Dividimos o bolo em duas metades iguais” (Ao usarmos o termo “metades”, não há necessidade de dizermos “duas”, nem “iguais”. Corrigindo a frase: Dividimos o bolo em metades ou dividimos o bolo em duas partes iguais).

Para encerrar, “Pagar contas em atraso aproveitando o 13º salário virou prioridade para boa parte dos natalenses neste fim de ano”. Ponto para o redator, pois esta é uma dúvida comum e um erro frequente: a diferença entre “fim” e “final”. No entanto, a solução é simples. Use “fim” como substantivo e “final” como adjetivo: fim do ano, fim de semana, fim do filme; partida final, capítulo final. Assim, chegamos ao fim do texto.







Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.







Leia também