A liberdade de estar na Ribeira

Publicação: 2017-05-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Só de Espaço Cultural Casa da Ribeira, onde é um dos fundadores e diretor artístico, Henrique Fontes tem 16 anos de convívio direto com a Ribeira, segundo bairro mais antigo de Natal – o primeiro é a Cidade Alta. Mas antes, em meados da década de 90, ele já frequentava a área como habitué das noites do Blackout, na Rua Chile. Foi nessa época, inclusive, motivado por uma onda de revitalização do bairro, que ele e outros artistas da cidade se juntaram para criar a Casa, reformando um prédio deteriorado na Rua Frei Miguelinho.
Henrique Fontes  | Ator, dramaturgo e diretor da Casa da Ribeira
Henrique Fontes: ator, dramaturgo e diretor da Casa da Ribeira

“Na Ribeira dá para ter uma imagem de Natal que não é muito vista, que não é a realidade dos shoppings, das universidades. A Ribeira parece que liberta. É o espaço da amizade”, descreve Henrique. Apaixonado pelas largas ruas e construções da Ribeira, o ator morou por quatro anos em um apartamento no Edifício Bila, localizado na avenida Duque de Caxias. Saiu de lá ano passado, mas sem perder o carinho e a vivência no bairro.

Para ele, a melhor forma de explorar o bairro é caminhando, buscando observar cada detalhe arquitetônico nas paredes depreciadas, conversando com as pessoas, moradores e trabalhadores que resistem no local. E é a resistência que Henrique vê como a principal característica da Ribeira. “A gente vê aqueles casarões que ainda se mantém de pé depois de não sei quanto tempo de abandono. Há espaços resistentes, como uma fábrica de sapatos artesanais que ainda insiste em atuar no local. A Ribeira é esse cenário de muitas revelações e surpresas”, reflete.

A visão romântica sobre a região, já não é a mesma de outros anos. Ela deu lugar a uma visão mais política e pragmática. “A Ribeira já é um pólo cultural. A gente vê em algumas pessoas uma adesão e um desejo de transformar o lugar num espaço ainda mais vivo e com estrutura melhor. Mas carece do interesse do poder público que já poderia ter estruturado melhor o bairro”, comenta Henrique. “Dos anos que estou lá, vários governos passaram, tiveram a oportunidade de fazer algo, mas não fizeram”.

Como começou sua relação com a Ribeira?
Um dos meus maiores influenciadores foi Paulo Ubarana, ainda nos anos 1990. Ele abriu o Blackout. O local promovia o Mad Monday, com a banda Mad Dogs, e nos outros dias sempre tinha atrações. Às vezes eu ia para a Ribeira de segunda a segunda. Aquele ambiente no Blackout, no B-52 (espaço para shows maiores, dentro do Blackout, onde hoje funciona o Galpão 29) me impulsionou a querer estar mais na região.

A Casa da Ribeira surge nessa época?
Nós do Clowns de Shakespeare procurávamos um espaço para fazer uma temporada com o espetáculo “A Megera Domada”. O Teatro Alberto Maranhão só permitia pautas esparsas. Foi o Paulo Ubarana que nos recebeu no B-52 para fazermos o espetáculo. Durante essa temporada descobrimos o prédio 52 da rua Frei Miguelinho. Estávamos interessados num espaço para ensaio e apresentações. Vínhamos procurando galpões na área e fomos atrás daquele prédio, um antigo depósito do Armazém Pará, fechado há dez anos, em estado avançado de decomposição...

E qual era sua visão do bairro no início da Casa da Ribeira?
A gente sabia que era uma área em estado avançado de deterioração. Mas havia uma esperança de revitalização, com um movimento de bares abrindo, artistas criando suas sedes. A gente acreditava que a prefeitura e o estado fossem desenvolver ali um pólo turístico, a exemplo de outros conjuntos culturais pelo Brasil. Mas não aconteceu. A revitalização nunca passou da fachada ou de reparos nas calçadas. Era uma vontade romântica, uma idealização, baseada nessa perspectiva de revitalização. 

E agora, depois de anos de convivência no lugar, está menos esperançoso?
Vejo mais pessoas morando lá. A Ribeira já é um pólo cultural. Desde a inauguração da Casa a gente vê uma adesão e um desejo de transformar o lugar num espaço ainda mais vivo e com estrutura melhor. Tem sua cena cultural, underground, mas carece do interesse do poder público que já poderia ter transformado o bairro num grande pólo. Dos anos que estou lá, vários governos passaram, tiveram a oportunidade de fazer algo, mas não fizeram.

Quais foram suas descobertas mais interessantes no bairro?
A Ribeira é esse cenário de muitas revelações e surpresas. Há espaços resistentes, como uma fábrica de sapatos artesanais que ainda existe, um mestre que conserta máquinas de datilografia, pessoas que apesar de toda modernidade continuam fazendo trabalhos manuais. Também fico muito impactado com a história do Beco da Quarentena.

Por várias características da Ribeira, morar no bairro te deu uma visão diferente de Natal?
A Ribeira recebe a todos. A gente encontra no bairro pessoas que buscam compreender um pouco mais a cidade. É o espaço da amizade, de conhecer pessoas de forma mais despretensiosa. Dá pra ter uma imagem de Natal que não é muito vista, que não é a realidade dos shoppings, das universidades. A Ribeira parece que liberta.

E o que você tem a dizer sobre a vizinhança?
Tem uma pessoa do bairro que é parte da Casa da Ribeira, é a mãe da Casa, que é Dona Chica. Por muitos anos morou num prédio praticamente vizinho a Casa, um sobrado que hoje infelizmente está interditado porque está ameaçado. Ela tem um bar em frente a Casa. Está sempre apoiando a gente. Já prestou serviço no café. Ela saiu daquela rua, mas continua no bairro. Ela representa muito da crença de que o bairro pode sim funcionar de manhã, tarde e noite, recebendo pessoas com estrutura.

O que se pode encontrar pela Ribeira numa caminhada?
Pra quem só vai no bairro à noite, aconselho ir à tarde, dar uma caminhada. Em cada cantinho tem um pedaço de arquitetura. Gosto de transitar pelas sedes dos grupos, todos na mesma rua da Casa da Ribeira, na Frei Miguelinho: Aboca, Espaço A3, GiraDança. Gosto também de passar pelo Beco da Quarentena e ver a obra de Guaraci Gabriel, aquela flor que sai do lixo que infelizmente é depositado pelas pessoas. Chegar na Rua Chile e ver a Escola de Dança do TAM cheia de alunos, funcionando todos os dias. Pedir para subir e ver o pôr-do-sol belíssimo lá de cima. No terminal marítimo tem um espaço que você pode acessar para também ver o pôr-do-sol. A Ribeira tem muitos cantinhos, vale a pena explorar.

O que você sente que falta na Ribeira?
O que falta para a Ribeira são os gestores públicos articularem suas ações – e na Ribeira estão localizados vários órgãos públicos que podiam estar mais articulados, para de uma vez por todas criarem as estruturas de revitalização do bairro. É preciso criar possibilidades para que as pessoas ocupem a região. A Ribeira precisa que o poder público intencionalmente transforme o bairro, do ponto de vista da estrutura, das parcerias público-privadas e através de leis de incentivo fiscal ou direto.

Colaborou:
Cinthia Lopes - Editora


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