A linguagem das placas e dos avisos

Publicação: 2020-06-28 00:00:00
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João Maria de Lima
Professor

Filho meu, ouvindo a instrução, cessa de te desviares das palavras do conhecimento.  Pv 19,27

Identificar o certo ou o errado quanto à ortografia é um exercício constante no cotidiano de um leitor atento. No entanto, tal desempenho torna-se mais complexo quando se trata de outros temas da língua, nem sempre muito evidentes. Na maioria das vezes, desvios da norma culta, de tanto serem vistos, incorporam-se à nossa rotina.

Houve um tempo no qual as lojas nos centros comerciais – hoje mais conhecidos como shopping centers – exibiam cartazes com os dizeres “Vendemos à vista” ou “Vendemos a vista”. Esse é um caso do que podemos chamar de “falsa crase”, pois usa-se “à” mesmo sem a contração de dois “aa”. A lógica diz que não deve ocorrer o acento indicativo de crase (que significa fusão). Basta recorrer ao masculino: Vendemos a prazo.
 Então, por que o “à”? Para evitar confusão. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender “a vista” (o olho), explicam as gramáticas tradicionais. Processo semelhante ocorre com “bater à máquina”. Sem o acento, parece que se deu pancada na máquina. Esse duplo sentido ocorre, geralmente, nas locuções que indicam meio e instrumento: Feriu-se à faca; Escrever à tinta; Feito à mão; Fechar à chave. Sem risco de duas interpretações, fica a critério de quem escreve.

Quando o assunto é nome de logradouros, grafam-se com inicial maiúscula os nomes de ruas, praças avenidas e edifícios: avenida Roberto Freire, avenida Jaguarari, rua Ulysses Caldas. Isso todo mundo sabe. Mas há um detalhe que poucos observam: as palavras que identificam o tipo de logradouro e a palavra edifício são grafadas com inicial maiúscula, se antes do nome ocorrer preposição. Por isso, deve-se escrever “praça Pedro Velho”; mas Praça das Flores; edifício Barão do Rio Branco; mas Edifício da Torre; avenida Seis; mas Beco da Lama.

Todos os dias, lemos um aviso na porta dos elevadores: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”. Estaria esse tão importante alerta em bom português? Resposta negativa. Não se deve escrever “verifique se o mesmo”, mas sim “verifique se ele”, porque a palavra “mesmo” não é pronome pessoal e não deve ser usada como tal. “Mesmo” é pronome demonstrativo. Nesse caso, só deve ser empregado quando acompanhar um substantivo: “a mesma pessoa”, “os mesmos funcionários” ou, como na canção: “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim”. 

Assim fica fácil entender que não se deve dizer “Falei com o professor; espero que o mesmo reveja a minha nota”, e sim: ... espero que ele reveja ... Outro registro importante diz respeito ao emprego da forma verbal “encontra-se”, do qual não se deve abusar. É melhor dizer “está parado”. Em resumo, o texto adequado seria assim: “Antes de entrar no elevador, verifique se ele está parado neste andar”.

A forma verbal “encontra-se” ainda merece um comentário. Geralmente, ouvimos este aviso: “O médico já se encontra no hospital” ou “Fulano não se encontra no momento”. Uma simples substituição por “estar” traz clareza ao texto: “O médico já está no hospital” ou “Fulano não está”. Dessa forma, evitam-se construções absurdas como “Ele encontra-se ausente”e “A menina encontra-se desaparecida”. 

Outra advertência muito vista em algumas repartições, “É proibido” – e sua variação “É proibida” – deixa muita gente confusa. Isso porque às vezes se lê: “É proibido a entrada” ou “É proibida entrada”. Desse jeito, é proibido proibir. Para acertar, é fácil: se a palavra “entrada” vier acompanhada do artigo feminino, flexiona-se “proibido”: “A entrada é proibida”; “É proibida a entrada”. Mas, se “entrada” estiver desacompanhada, deixemos “proibido” invariável: “É proibido entrada”. Como se vê, basta atenção. “Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio.” (Pv 19,20).







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