A luta das pessoas com deficiência para mudar a visão estereotipada sobre suas vidas

Publicação: 2020-09-20 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Ivan Baron é um digital influencer com muitos seguidores. Marconi Araújo é bailarino de uma das companhias de dança mais prestigiosas do Rio Grande do Norte. Rafael Ribeiro é psicólogo e presidente de uma instituição de sua área. Em comum, eles têm apenas um determinado tipo de deficiência. São pessoas bem resolvidas e que levam a uma reflexão sobre o capacitismo, a discriminação vinda da ideia de que pessoas com deficiência são limitadas. No mês em que se celebra o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, 21 de setembro, é um momento para discutir as reais necessidades do segmento e mudar a visão estereotipada sobre suas vidas.

Créditos: Brunno MartinsMarconi Araújo teve pólio quando criança e perdeu o movimento das pernas. É bailarino cadeiranteMarconi Araújo teve pólio quando criança e perdeu o movimento das pernas. É bailarino cadeirante

As pessoas com deficiência representam 6,7% da população do Brasil, ou seja, cerca de 14 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É muita gente que enfrenta uma série de condições adversas no cotidiano, mas que não deixa de ser capaz de avaliar situações e encontrar soluções. O capacitismo surge quando reduz o deficiente a uma pessoa fragilizada e eternamente dependente – ao mesmo tempo em que louva suas conquistas como algo “excepcional”, e não natural. O capacitismo mascara os problemas reais.

Há um limite entre ser solidário e ser capacitista. O psicólogo Rafael Ribeiro, que tem deficiência visual, acredita que o capacitismo coloca a deficiência como algo central na vida da pessoa e já pressupõe que ela será incapaz de realizar questões ou atividades feitas pelas pessoas sem deficiência. “Ser sensível ao deficiente é compreender que a deficiência está relacionada também a um conjunto de características ligadas ao contexto social, econômico, político e cultural, que podem trazer maiores ou menores dificuldades na realização de tarefas cotidianas” analisa ele, que também é presidente do Conselho Regional de Psicologia do RN.

Créditos: Alex RégisIvan Baron tem paralisia cerebral desde os três anos de idade. Se tornou influenciador digitalIvan Baron tem paralisia cerebral desde os três anos de idade. Se tornou influenciador digital

O psicólogo afirma que compreender a pessoa com deficiência é saber que ela tem suas singularidades, sua própria história, e que ela tem, assim como dificuldades, suas potencialidades. “Essas potencialidades podem aparecer melhor se ela tiver um conjunto de condições sociais e econômicas garantidas para que possa ocupar espaços de direito na sociedade”, ressalta.

Segundo Rafael, o capacitismo se manifesta de forma mais expressiva nos contextos de escola e de trabalho, onde a concepção de aptidões e de capacidades são colocadas como categorias centrais. “Na educação, nós temos ainda um predomínio de métodos padronizados que desconsideram as singularidades das pessoas, dos estudantes”, diz. É desconsiderado que há diferentes tempos e diferentes formas de aprender incluindo as pessoas com deficiências. “Mas essa aprendizagem se dará a partir de uma forma diferente, na necessidade de suporte e adaptação das ferramentas pedagógicas”, diz.

Já no ambiente corporativo, a aptidão e a capacidade produtiva também são colocadas como central pela ideia de que um "corpo perfeito" é um "corpo capaz", pressupondo que um determinado trabalhador tem capacidade de realizar o maior número de tarefas possíveis. “A resistência nas empresas vem do pressuposto de que deficientes são incapazes de realizar determinadas funções, quando na verdade, as pessoas com deficiência precisam do trabalho, precisam ter sua singularidade observada para que sejam criadas as condições necessárias para que suas potencialidades sejam expressas”, diz.

Créditos: Alex RégisRafael Ribeiro, que tem deficiência visual, preside o Conselho Regional de Psicologia do RNRafael Ribeiro, que tem deficiência visual, preside o Conselho Regional de Psicologia do RN

Superando a superação
Um discurso comum em relação às pessoas com deficiência é o da “superação”. Algo que parece elogioso, esconde um preconceito – mesmo que boa parte das pessoas não tenha consciência disso. Para Rafael, o problema do discurso da superação é que naturaliza a compreensão de que os deficientes são incapazes, e que aquela pessoa que conseguiu alcançar determinados feitos na sociedade é uma "exceção". “A sociedade ainda desconsidera a necessidade de políticas públicas de inclusão, acessibilidade e a necessidade de uma mudança de concepção e de crenças em relação as pessoas com deficiência, para que elas possam exercer sua cidadania com dignidade”, ressalta.

O capacitismo também afeta a saúde mental das pessoas com deficiência, porque afetam a autopercepção de si, a autoestima e produzem a concepção de inferioridade – o que legitima a exclusão das pessoas com deficiência em grupos e espaços sociais. É algo que produz sofrimento psíquico, geram sentimentos de impotência, e de incapacidade, segundo o psicólogo.”Há um grande desafio para que possamos superar a negligência do estado brasileiro e da sociedade em relação às políticas de inclusão das pessoas com deficiência”.

Para que a sociedade passe a encarar o “outro” de forma mais natural, será preciso uma mudança estrutural no sistema de crenças da sociedade. “Precisamos com urgência nos indignar com a ausência de políticas estruturais de inclusão e acessibilidade, e cobrar do poder público e da sociedade um esforço e um investimento maior em políticas que possibilitem colocar a pessoa com deficiência em condições da equidade na sociedade”, diz. Diferenças devem ser vistas como potencialidades e motivos de agregação.

Influenciador com humor
Ivan Baron tem paralisia cerebral desde os três anos de idade, seqüela de uma meningite viral. Isso não o impediu de, aos 22 anos, se tornar uma das muitas estrelas que circulam pelas redes sociais. O jovem potiguar arrebanha milhares de ‘views’ através de vídeos didáticos e divertidos sobre inclusão, tendo mais de 100 mil seguidores no TikTok. O vídeo em que Ivan fala sobre as “3 Faces do capacitismo” foi compartilhado na semana passada pela página “Quebrando o Tabu”, que no Facebook é seguida por mais de 10 milhões de pessoas. Um sucesso de representatividade.

"Foi surreal, de repente uma página com milhões de seguidores no Instagram e no Facebook, postando um vídeo meu...sonho de todo influencer, né? Eu acredito que tenha dado bastante visibilidade para outras pessoas conhecerem um pouco do meu trabalho e quem sabe me dar uma oportunidade para adentrar as vidas delas”, afirma ele à TRIBUNA DO NORTE. No vídeo, Ivan explica como o conceito está enraizado na sociedade através do “discurso da superação”, da “vitimização” e da “visão médica ou de cura” e enfatiza que as pessoas com deficiência “não são coitadinhas” e querem ser protagonistas de suas histórias.

Ivan conta que a idéia de compartilhar suas vivências e necessidades nas redes virtuais surgiu de um sentimento de insatisfação. “Eu não me sentia representado em nada. O que eu vivia nunca era retratado e contado às outras pessoas. Nós somos plurais, um só tipo de história não pode nos definir", afirma. Chegando às redes, ele procurou um abordagem diferente: em vez de lágrimas, risos. “Eu poderia usar o clichê e contar uma história triste e todos se emocionarem, mas eu resolvi usar o humor ao meu favor. Tento recriar várias situações do cotidiano que Pessoas com Deficiência passam e acrescento uma dose de deboche. As outras pessoas que não vivem aquilo acabam aprendendo e também se divertindo", diz.

Ivan debocha do capacitismo, criticando-o com humor. Segundo ele, é algo que o irrita quando as pessoas insistem em perpetuar pensamentos ultrapassados sobre deficientes. “Por exemplo, ainda insistem em falar que somos  guerreiros ou guerreiras por termos tal condição. Esse tipo de discurso nos desumaniza e tira o direito de poder errar, ter sentimentos fora do esperado e tantas outras coisas capacitistas", diz. Ivan acredita que são preconceitos tão estruturais quanto o racismo e o machismo, e para acabar as pessoas devem primeiro se assumir como capacitistas, parar de reproduzir o discurso, e sempre ouvir e dar voz às pessoas com deficiência.

Palco com cadeiras
Marconi Araújo teve pólio quando era criança e perdeu o movimento das pernas. Adolescente criado na periferia, não tinha a menor perspectiva sobre dança como meio de vida até que, seguindo a dica de um amigo, participou de uma aula. Não parou mais. Já passou por três companhias, e atualmente é integrante do grupo Gira Dança, que há 15 anos incorpora pessoas de diferentes formações físicas, sendo uma referência da dança potiguar. Para ele, foi uma trajetória tão natural quanto seus movimentos corporais.

O bailarino cadeirante conta que se incomoda ao ver a “surpresa” das pessoas diante de alguém com deficiência que se projetou em algo diferente. “Muita gente ainda acha que devemos ficar dentro de casa, sendo cuidados. Sou bailarino desde os 18 anos, mas resumem tudo a uma ‘superação’. Todo mundo precisa desenvolver uma atividade na vida, sendo deficiente ou não, é natural”, afirma.

Marconi vê o capacitismo como uma diminuição da capacidade da capacidade das pessoas com deficiência. “Ao ponto de você receber ‘parabéns’ só por estar na rua. Em qualquer lugar o deficiente é visto como um alien. Até quando a gente está se divertindo e fazendo besteira no carnaval, como qualquer um, as pessoas se impressionam”, brinca. Ele afirma que hoje, no Gira Dança, o novo desafio é mostrar que a companhia existe por suas qualidades, e não apenas por ser um palco de inclusão. Todos no mesmo passo.