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Quadrantes
A máscara
Publicado: 00:00:00 - 12/06/2022 Atualizado: 12:22:22 - 11/06/2022
Cláudio Emerenciano [ Professor da UFRN]

Há duas palavras que expressam toda a magnificência da obra universal de Deus: amor e harmonia. O sentido da vida emerge desse vínculo indestrutível. Entrelaçamento infinito entre o amor e a harmonia. A beleza da Criação, em cujo universo o homem reflete imagem e semelhança de Deus, exibe formas perfeitas, divinas, incomparáveis, que envolvem tudo e todos na circunstância da paz. Construir o homem significa acionar o Espírito de Deus nele mesmo. Abrigá-lo. Preservá-lo. Misturarem-se vida e paz. Ao longo da vertente dos tempos, civilizações se foram, dissiparam-se, converteram-se em poeira do passado, porque violentaram a harmonia, ignoraram ou recusaram o amor, e renegaram a paz. As guerras, todas as formas de violência, as injustiças, o aviltamento da condição humana e a escalada da insensatez inviabilizam a ascensão espiritual e cultural da humanidade. Em qualquer tempo e lugar.

Os gregos, há mais de 2500 anos, aprimoraram todas as formas de saber, cultura e arte. Somente foram sobrepujados pelos egípcios na construção das pirâmides e em certos conhecimentos, até hoje inexplicáveis, nos campos da medicina e da manipulação de substâncias medicamentosas. André Bonnard, em “A civilização grega”, e Arnold Toynbee, em “O helenismo”, revelaram magistralmente essa cosmovisão. No teatro, por exemplo, no drama, na tragédia e na comédia, os atores se exibiam com máscaras. O objetivo era impedir que os caracteres do personagem se incorporassem à maneira de ser do ator ou atriz. Mas os romanos, posteriormente, conferiram à máscara o sentido que subsistiu até hoje. A máscara é um disfarce, que falseia a verdade sobre a personalidade de alguém. Coletivamente, passou a significar incoerência, hipocrisia, mentira. Também engodo, farsa, inconsequência, ridículo.

O Cristianismo deflagrou, até hoje, a mais profunda e radical transformação espiritual, ética, moral, política, econômica e cultural. Um mundo estribado na escravatura de pessoas e povos, banalizando o mal e a impiedade, degradando a mulher e a família, ruiu ante as verdades universais da “Boa Nova da redenção pelo amor”. Essas mudanças revelaram um tempo novo, em que cada ser humano, sem distinção alguma, passou a postular e deter os mesmos direitos e a merecer o mesmo respeito. Desde seus tempos primitivos, a fé cristã proclamou, através do próprio Cristo, suas Promessas. Foi no “Sermão da Montanha”. As “bem-aventuranças”: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus; Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram os profetas (santos) que viveram antes de vós” (Mateus 5, 3-11).  A ética e a moral cristãs emergem da prática do amor, da paz e da justiça.

A solidariedade e a caridade são um imperativo da fé. A Igreja é Santa e Pecadora. Por isso, quando São Francisco de Assis (ninguém imitou o Cristo como ele) se apresentou ao Papa Inocêncio III, pobre, descalço, esfarrapado, de certo modo denunciava a própria Igreja, parte dela descomprometida dos pobres e injustiçados.

A crise do mundo é espiritual, existencial e moral. No caso brasileiro, há circunstâncias particulares, específicas e peculiares. A crise política se confunde com crise moral. Há hoje, no Brasil, uma palavra com significado, amplitude e conteúdo relegados ao passado. Essa palavra é ética. Ética governamental. Ética profissional. Ética social. Ética individual. Convém refletir estas palavras de Roosevelt: “Nunca houve – e nunca haverá – uma solução conciliatória bem-sucedida entre o bem e o mal”.  O povo brasileiro é predominantemente cristão. Estou convencido de que uma mudança no Brasil começa no campo moral. E a fé cristã é sua fonte. Por isso deploro posturas de padres e pastores que semeiam confusão, perplexidade e indignação. Atitudes que debilitam a catequese e a vivência da fé cristã. Ignorando o amor e a paz

Anos atrás um padre, em Natal, na vigília pascal (celebração da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo), ao ler a renovação das promessas do batismo, exigiu que os fiéis prestassem o seguinte compromisso: “Prometo apoiar incondicionalmente as ações políticas dos movimentos sociais”. Esse não é um dos compromissos do batismo. O sacerdócio é sublime desde que se paute exclusiva e estritamente no Evangelho, nos Atos dos Apóstolos, nas Epístolas e nas Encíclicas, que revelam e traduzem a essência do Cristianismo. O padre, irrefletidamente, esqueceu o Cristo, quando disse: “Vós sois a luz do mundo”. Ali a paixão política transcendeu à fé. Cristianismo é amor, verdade, tolerância, perdão (misericórdia) e paz. A máscara é hipocrisia, manipulação, mistificação e vaidade que o Senhor condenou. Antíteses da fé.

A guerra na Ucrânia vem transgredindo, em escala progressiva, a fé, a ética e a moral cristãs. Seis milhões de pessoas, da noite para o dia (100 dias de conflito), abandonaram o país. Perderam tudo: casa, emprego, bens imóveis, assistência de saúde, segurança, escolas dos filhos etc. Não há limites para os bombardeios. Os hospitais são “prioridades” de destruição pelo inimigo. Enquanto no Brasil a práxis política criou um fosso entre o que a nação quer e acredita, e o agir da maioria dos seus dirigentes. Converteram a política numa falácia, que mina as instituições. Infelizmente.

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