“Majó” Theodorico Bezerra, o último coronel

Publicação: 2019-11-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Sérgio Trindade
Sócio do IHGRN

O coronelismo é, no dizer de Victor Nunes Leal, um fenômeno típico da política brasileira, durante a República Velha. Traços isolados de sua existência, porém, permanecem mesmo após o fim dela, como é possível verificar em vários estados brasileiros.

Aqui no Rio Grande do Norte, mais precisamente na fazenda Irapuru, de propriedade do “Majó” Theodorico Bezerra, práticas coronelistas persistiram até o último quartel do século XX.

Ressalto, concordando com Victor Nunes Leal: como fenômeno político morreu na Primeira República, com os seus estertores ali em meados dos anos 1930. Os coronéis, no entanto, seguiram existindo e resistindo.

Irapuru, polo econômico, cultural e político do Trairi, foi palco de práticas políticas que remetem ao fenômeno coronelista. E assim foi até o praticamente a morte de Theodorico Bezerra, quando a República Velha era apenas uma lembrança histórica.

Em Irapuru, praticamente toda a vida girava em torno da ordem do “Majó”, que criou um código normativo disciplinador que deveria ser obedecido incondicionalmente. Quem ali vivia, diz Lauro Bezerra, acreditava que “Irapuru era o melhor lugar para se viver.”

O “Majó” Theodorico Bezerra manteve Irapuru, quando o coronelismo morria, como espaço no qual predominava uma forma de poder local privado singular, um espaço de poder para enfrentamento de forças opostas e desagregadoras. Para viver por lá era preciso observar e cumprir o código de ética estabelecido pelo mandatário num quadro, a ser exposto na sala da casa do morador, e numa uma caderneta, por ele cedidos, onde estavam indicados os preceitos que deveriam ser cumpridos.

Os preceitos estavam divididos em duas partes:

I – Proibições: 1) Andar armado seja qual for à espécie da arma; 2) Tomar aguardente ou qualquer tipo de bebida alcoólica; 3) Jogar baralho ou qualquer outro tipo de jogo; 4) Fazer feira em outra propriedade que não seja Irapuru; 5) Caçar ou consentir pessoas estranhas a fazê-lo; 6) Possuir espingarda ou outra qualquer arma; 7) Brigar com seus vizinhos ou outra qualquer pessoa; 8) Fazer quarto a doentes; 9) Fazer baile sem consentimento do proprietário; 10) Criar os filhos sem aprender a ler e escrever; 11) Fala mal da vida alheia; 12) Inventar doença para não trabalhar.

II – Obrigações: 1) Fazer feira em Irapuru; 2) Botar os filhos na escola; 3) Zelar pela conservação de sua caderneta; 4) Limpar os seus roçados nas épocas necessárias; 5) Pulverizar as lavouras quando houver lagartas ou outra qualquer praga; 6) Conservar todo material agrícola que esteja sob sua guarda; 7) Zelar os animais de trabalho que estejam sob sua responsabilidade; 8) Zela e conservar sempre limpa a casa que mora; 9) Fazer suas colheitas na época necessárias; 10) Comunicar ao proprietário ou ao administrador, qualquer irregularidade que esteja havendo nesta propriedade; 11) Cumprir todas as ordens da administração; 12) Cumprir rigorosamente este regulamento. 13) Ser eleitor.

Com o código de ética estabelecido, o “Majó” controlava com mais eficácia os seus moradores.

O sistema funcionou sem maiores sobressaltos até meados da década de 1970 para o início da seguinte, quando o código passou a ser sistematicamente desrespeitado pelas novas gerações e o poder do mandatário começou a sofrer fissuras.

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