A música corporal de Iara Rennó

Publicação: 2017-04-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


A paulista Iara Rennó é múltipla. Transita entre a poesia, o teatro, a música, a performance. Ela fervilha. Inquieta, em 2016 ela não lançou apenas um disco, mas dois, ao mesmo tempo, gêmeos, complementares. “Arco” e “Flecha” figuraram em muitas listas de melhores álbuns do ano e revelaram uma vigorosa intérprete e compositora, cuja abrangente sonoridade encontrou eco em muitos instrumentistas da cena musical brasileira, que acabaram participando dos discos.
Poético e teatral, assim é o bem avaliado trabalho da artista paulistana Iara Rennó
Em mini turnê pelo nordeste, Iara Rennó será vista pela primeira vez em Natal num show único, onde, munida apenas de voz e guitarra, mostrará toda sua multiplicidade criativa. A apresentação acontece na quinta-feira (20), dentro do projeto Caosmose Apresenta, no Zen Bar, em Pium. A programação, que começa às 19h, ainda conta com show dos potiguares Igapó de Almas e discotecagem de Luísa Guedes.

Iara mostrará no show o bem elogiado trabalho nos discos “Arco” e “Flecha”. O primeiro é um disco mais rock e funk, com banda formada só por mulheres, trazendo letras íntimas e subjetivas, algumas musicadas do seu livro de poesia erótica “Língua Brasa Carne Flor” (2013, editora Patuá). Já em “Flecha”, produzido por Curumin e com banda só de homens, as referências são outras, indo da música afro às cantigas populares, com uma sonoridade percussiva. Mas, apesar de mais focado nesses trabalhos recentes, o show mostrará um pouco dos dois primeiros discos da cantora – Macunaíma Ópera Tupi (2008) e IARA (2013). A artista também estará com exemplares à venda do livro “Língua Brasa Carne Flor”.

A apresentação também mostrará composições suas que são sucesso na voz de outros artistas, como “Chuva”, bastante tocada por Gabi Amarantos e pelo Jaloo. “O show será no formato voz e guitarra, mas estou vendo a possibilidade de usar base em uma ou outra música”, diz Iara, filha de Alzira Espíndola e Carlos Rennó. “Fiz uma turnê na Europa sozinha, mas que em alguns momento contou com amigos músicos. O que eu aprendi é que a música tem que acontecer seja com 10 músicos no palco ou apenas um. Mesmo que eu esteja só com o meu corpo no palco, a música vai acontecer. Tenho um pouco da veia teatral e sei fazer isso. A força da música reside na própria música”.

A cantora conversou com o VIVER, onde comentou sobre o interesse por várias linguagens artísticas, a vinda ao Nordeste e o viés feminista de alguns de seus trabalhos.

Sua apresentação solo é só voz e guitarra. Como você transpõe as músicas dos seus discos para esse formato solo, sem perder muito da força delas?
Tenho me interessado muito por esses shows que é só o artista tocando e cantando. Porque a música fica nua. Dá para ver a força do artista. Espero que as pessoas tenham essa mesma percepção com o meu show.

Você transita entre literatura, teatro, artes visuais, música. Como você consegue trabalhar com tantas linguagens?
Esse trânsito entre as linguagens acontece naturalmente. No meu caso é desde criança. Eu gostava de encenação, de pintar. Nunca explorei comercialmente, mas já trabalhei com desenho. Pra mim é uma comunicação muito orgânica entre a literatura, música, teatro, performance, instalação sonora. Me interessa fazer cinema, fazer um espetáculo multilinguagens. Esse trânsito livre me excita.

Você também é poeta. Como é casar poesia e música?
A literatura com a música foi meu casamento mais orgânico. Já musiquei poesias de outros escritores. E, no caso específico do disco "Macunaíma Ópera Tupi", todo o trabalho foi feito em cima de frases do livro de Oswald de Andrade. É minha obra máxima no quesito música e literatura.

A temática do corpo, do sexual, do feminino é algo que é bem visível no teu trabalho...
Isso me move há muito tempo. Minha mãe é um grande exemplo, como artista da música independente, que criou cinco filhos praticamente sozinha. É um tema que me interessa. Mas, antes de ser panfletário, é uma coisa muito orgânica. O corpo feminino e a expressão sexual dele é muitas vezes reprimida ou confundida, levando em alguns caso para o assédio. É muito interessante que hoje essa discussão esteja em pauta nacionalmente. É preciso radicalizar de vez os tabus e o machismo, o entendimento errado e antiquado sobre a mulher e sua sexualidade e posição no mundo.

Para um artista que tem a maior parte da agenda concentrada no eixo Rio-SP, como é sair em turnê pelo nordeste e de que forma isso pode ser aproveitado em novas parcerias?
É verdade, me estabeleci um pouco nesse eixo. É difícil fazer uma viagem mais longe, é caro. Me articulei com artistas produtores e fui feliz nessa conversa para dar certo esses shows. Quero conhecer novas sonoridades, interagir com os artistas locais. É importante promover esses encontros. É a melhor maneira de aproveitar essa viagem.

Serviço

Caosmose Apresenta Iara Rennó (SP)
Dia 20 de abril, às 19h
Zen Bar (Rota do Sol, Pium)
Entrada: R$ 15


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