A música não para

Publicação: 2020-03-24 00:00:00
Tádzio França 
Repórter 

O mundo pode parar, mas a música nunca para. As restrições impostas pelas medidas de controle do coronavírus esvaziaram os palcos, mas deixaram as redes sociais mais musicais que nunca. A transmissão ao vivo pela internet virou o recurso oficial de cantores e músicos para exibir sua arte – e até receber por ela - em dias de isolamento social. Em Natal, vários artistas já aderiram ao formato desde o fim de semana passado, e estão intensificando suas novas agendas virtuais. São shows ao alcance de um clique.

Créditos: DuasestudioKhrystal já montou agenda virtual para próximos diasKhrystal já montou agenda virtual para próximos dias


A banda Mobydick viu de repente os dez shows que teria entre Mossoró, Currais Novos e Pipa serem cancelados. “Caiu tudo do dia para a noite. Foi um golpe muito grande pra gente, que tem 80% da nossa renda vinda dos shows. Precisávamos fazer algo”, conta o vocalista Glay Anderson. Após ver as iniciativas de outros colegas, veio a idéia da ‘live’. Glay chamou o colega Hugo Albuquerque, improvisou o cenário na sala de casa, ajustou o celular na TV, e soltou o som. Pelo menos 500 pessoas acompanharam o show via internet, no perfil do Instagram.

O bom resultado da primeira live garantiu as próximas, que serão aos sábados, às 20h. Glay estuda a adição de um terceiro músico, tocando cajon. O repertório é o habitual da Mobydick: “Tem o nosso repertório básico da noite, os clássicos do rock, músicas de nosso último DVD, ‘Poetas do Nordeste’, com releituras de Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, e também muito Raul Seixas, que a gente adora”, diz. A live também foi financeiramente compensadora, ressalta Glay. A colaboração voluntária é feita via transferência bancária, e a banda também conseguiu uma permuta com os bares Raimundo’s e Estação do Malte, em troca da divulgação de seu delivery durante a transmissão.

O músico pretende explorar outras possibilidades da live além dos shows. Em breve ele vai lançar o “Tarde do Vinil”, um encontro online em que vai pôr seus discos de vinil para tocar na íntegra, e conversar com os seguidores sobre. “Esse não terá fins lucrativos. Sou colecionador de vinis , e será uma maneira de amenizar o isolamento. Uma tarde para falar de música e diminuir a distância entre as pessoas”, diz. Glay também almeja aumentar o número de inscritos no canal da Mobydick no Youtube para poder realizar as lives também por lá.

A cantora Khrystal realizou sua primeira live no domingo passado no Instagram, e já montou a agenda virtual para os próximos dias. Em clima de encontro com amigas em casa, receberá Sílvia Sol no dia 26, Valéria Oliveira no dia 29, e Simona Talma no 1º de abril, sempre às 18h. “Eu considero esses primeiros encontros como um laboratório. É algo novo pra mim, mas mantenho o alto astral, a naturalidade. A gente canta e bate papo. É uma forma de aplacar essa solidão de agora”, diz. No repertório, Khrystal toca suas músicas e de outros artistas que ela gosta e o povo pede. Por enquanto, ela não está dispondo as contribuições voluntárias.

O bluseiro rocker Gustavo Cocentino costumava ter shows de quarta a domingo ao longo do mês. Com toda a agenda cancelada, vai pôr sua primeira live nesta quarta-feira, às 20h30. Ele conta que fará em formato solo, com bases pré-gravadas em samples e solos de guitarra por cima. Ele acredita que as lives têm potencial para reunir um público até maior do que os shows presenciais ao vivo. “A ideia principal é levar entretenimento para o pessoal em quarentena.  Sei que a cadeia produtiva economicamente falando está parada, mas quem quiser e tiver condições de chegar junto com um couvert simbólico, será bem vindo”, diz.

O guitarrista Cleo Lima foi o primeiro músico natalense a aderir às lives em época de coronavírus. A primeira foi na sexta passada, e teve uma repercussão que ele não esperava. “Eu fiquei muito feliz com o resultado, criou-se um astral bacana, meio de catarse coletiva. Tinha muita gente acompanhando e interagindo - não só comigo, mas também entre eles. Acho que já tava todo mundo meio agoniado sem ter contato e usou a live como uma válvula de escape”, diz. A primeira ele realizou no Instagram e Facebook, e também pretende levar até o Youtube.

O dia oficial das lives de Cleo Lima é a sexta, às 20h30, mas outras menores também estão no roteiro. “Farei  lives menores e informais no decorrer da semana. Fiz uma no domingo, tocando poucas músicas e conversando com o pessoal. As de sexta serão shows completos”, diz. O repertório é eclético e inclui  Beatles, Stevie Wonder, Eric Clapton, A-Ha, Duran Duran,  e algumas pérolas pop da música brasileira, como Cazuza e Legião Urbana. O músico achou satisfatórias as contribuições financeiras dos espectadores online.

Habituado a fazer transmissões ao vivo de seus shows há pelo menos 10 anos, o cantor Rodrigo Lacaz encara o atual momento com o repertório na ponta da língua e a câmera pronta para filmar. Uma de suas lives será nesta terça-feira, às 16h. “É uma experiência única, muito diferente daquele no olho no olho. Mas mesmo à distância, também é uma relação íntima. Cada um em seu abrigo gera uma experiência acolhedora”, disse.

Rodrigo costuma transmitir suas apresentações em perfis no Instagram e no Facebook, podendo receber contribuições voluntárias através de transferência bancária ou site de pagamento eletrônico. “É quase como se eu estivesse na rua. Toco abertamente e as pessoas ajudam se quiserem ou puderem. O artista precisa disso agora mais do que nunca”, afirma. Rodrigo é conhecido por suas releituras melódicas do pop e do rock internacional, mas a interatividade online permite que ele toque diversas sonoridades. O cantor afirma que essa é sua forma de contribuir para melhorar o ânimo das pessoas nesse período difícil. “Música é uma das melhores formas de cura que existe”.

O cantor e compositor Eliano Silva, jovem talento de Pau dos Ferros, está soltando a voz todos os domingos, às 18h, para seu público online. O músico já tocou em festivais como o MADA, e se destaca pelas suas canções poéticas que misturam MPB, folk, rock melódico, e pitadas de brega. O trovador rural ganhou um grupo de fãs apaixonados desde que lançou “Ecdemomania”, em 2015, seu primeiro álbum. Ele é um dos fundadores do coletivo Ribuliço, que agita a cena cultural de Pau dos Ferros com saraus, oficinas, e formações. O encontro agora é nas redes sociais.