“Medicina dos Horrores” (1)

Publicação: 2019-10-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Repito o que já disse outras vezes: eu deixei a medicina, mas ela nunca me deixou. Concluí o curso médico em 1965, e exerci a profissão por dezenas de anos, ao lado das atividades de professor da área. Quando encerrei o meu mandato de reitor da UFRN, em 1991, deparei-me com o dilema: voltar à prática médica ou prosseguir no caminho do trabalho em educação. Escolhi a segunda opção, e persisto nesse labor até os dias atuais. No entanto, apesar de me manter distante do dia a dia da clínica, os assuntos palpitantes da medicina muito me fascinam. Aliás, parece que o mesmo ocorre com a maioria dos médicos quando, por motivos vários, param de exercer a profissão. Vejo isso, com clareza, nas ótimas reuniões da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte, que tem entre seus integrantes um bom número de decanos, figuras ilustres que já optaram por encerrar suas intensas jornadas profissionais. Além dos avanços gerais da ciência médica, a história da medicina e a literatura vinculada à área prendem minha atenção de forma constante. A história da medicina se confunde com a história do homem.  Hipócrates, o Pai da Medicina, (460–377 a.C.), nasceu na ilha de Cos, na costa da Turquia, e, entre outras façanhas, deixou 412 aforismas, tais como: “A vida é curta, a arte é longa”; “Casos extremos, precisam de remédios extremos”; Hipócrates usava o cajado de Esculápio, o deus da cura, filho de Apolo, médico dos deuses.

Tinha lido algo a respeito do livro da médica inglesa Lindsey Titzharris, sobre a cirurgia do século XIX, em especial sobre a vida de Joseph Lister, e, de surpresa, essa obra chega-me às mãos. A amiga norte-americana Carmen Rixach, médica e professora universitária, em visita a Natal há alguns meses, trouxe-me de presente o livro The Buthchering Art, como se tivesse falado comigo antes. Carmen Rixach, que tem iguais interesses no tocante às leituras no campo cultural da medicina, disse-me ser amiga da autora inglesa acima citada. Nos Estados Unidos, o livro foi lançado em 2017, pela Scientific American FSC, e, no Brasil, em 2019, sob o título Medicina dos Horrores, com tradução de Vera Ribeiro, edição da Editora Intrínseca Ltda.

Algumas páginas do livro versam sobre as precárias condições das cirurgias, com ênfase nas primeiras décadas do século XIX. Sem anestesia e sem qualquer noção da importância da limpeza no campo operatório, o melhor cirurgião era aquele que fizesse sua tarefa com mais vigor e no menor tempo possível, pois era preciso força para fazer por completo a amputação de uma perna, por exemplo, e ser veloz para encurtar a tortura do paciente. Portanto, força e destreza eram as condições essenciais para um cirurgião de renome. Por volta de 1840, em Londres, surge em destaque o nome do cirurgião Robert Liston. Dizia-se que ele era capaz de amputar uma perna em trinta segundos, e, para manter as duas mãos livres, tinha de segurar a faca ensanguentada com os dentes, enquanto operava. “Sua velocidade era tanto uma dádiva quanto uma maldição”. Certa vez, ao amputar uma perna, decepou também um testículo do infeliz paciente. De outra feita, decepou três dedos do seu assistente, na ânsia de manter a fama de ser o mais veloz no manejo das lâminas cortantes. O paciente e o assistente morreram de gangrena.

Em próximo texto, pretendo comentar, de relance, a vida e o legado de Joseph Lister.





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