A mesa boêmia da Cidade Alta

Publicação: 2018-10-05 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Berço e primeiro bairro de Natal, a Cidade Alta tem muita história pra contar, e uma delas está em sua gastronomia. O local que já foi epicentro da vida social natalense atravessou séculos, décadas, e deixou um sabor todo próprio - que mesmo diante da diversidade dos dias de hoje, ainda mantém viva sua mistura entre interior, cidade grande, boemia, e província.

Antropóloga Thárgila e sua orientadora de mestrado, Julie Cavignac: estudo da cozinha boêmia do Centro
Antropóloga Thárgila e sua orientadora de mestrado, Julie Cavignac: estudo da cozinha boêmia do Centro

“É uma culinária específica. Essencialmente, uma cozinha de boteco, mas o boteco de uma cidade nordestina do interior, que se caracteriza pelos alimentos que são da nossa região”, afirma Thágila Oliveira, uma antropóloga apaixonada por gastronomia, que saboreia a comida do centro por prazer e também por estudo.

O tema de sua dissertação de mestrado é “A cozinha boemia: estilo alimentar, identidade local e sociabilidade na Cidade Alta”, um estudo feito entre degustações e observações.

A culinária da Cidade Alta tem perfil sertanejo e de boteco
A culinária da Cidade Alta tem perfil sertanejo e de boteco

Thágila não vê a gastronomia da Cidade Alta pelo viés da refeição, mas de uma comida de festa, daquelas pensadas para acompanhar uma bebida. “Não é comida para encher a barriga. Até pode, claro, mas a sinto mais como acompanhante para uma cerveja ou aguardente. É sabor para lazer, para uma festa”, analisa. Ela sabe que o centro está hoje repleto de restaurantes diferentes, entre self-services, cozinha oriental, europeia, e fast foods variados, mas é na comida de bar que o bairro mantém sua identidade.

O roteiro antropológico e gastronômico de Thágila passa pelo bar de Zé Reiera e se serve da galinha caipira, o chambaril com pirão, e a bisteca de porco, que ela destaca como seus favoritos. Já no Bar da Nazaré, outro local favorito, ela destaca o carneiro com macaxeira, a fava, e a galinhada que é servida só às sextas-feiras.  E ainda tem carne de sol, paçoca, picado, e baião de dois, alguns clássicos da área. Para Thágila, os bares e restaurantes que servem essa comida ajudam a manter a identidade de espaços que não costumam ter visibilidade. “A boemia faz parte da história do centro antigo. Não é só comer para saciar, mas também se sentir pertencente ao lugar. A culinária ressignifica esse ambiente”, diz.

Maioria dos comes do centro são a melhor companhia para uma cerveja gelada ou cachacinha
Maioria dos 'comes' do centro são a melhor companhia para uma cerveja gelada ou cachacinha

Almoço temático terá sorvete de “meladinha”
A pesquisadora e cozinheira Adriana Lucena transformou as memórias culinárias, baladeiras e afetivas dos anos 80 e 90 no cardápio de seu novo almoço temático, “A cozinha pop da Cidade Alta”, que ela servirá nesta sexta-feira na Galeria de Arte B-612, na Ribeira (com reservas já esgotadas). No cardápio terá caldo de mocotó, um cozido completo com arroz de pirão, e um sorvete baseado na histórica receita de cachaça e mel do Bar da Meladinha. E um cafezinho pra encerrar.

Chef Adriana Lucena serve hoje almoço em homenagem a cozinha da Cidade Alta
Chef Adriana Lucena serve hoje almoço em homenagem a cozinha da Cidade Alta

Adriana conta que não frequenta mais os sambas e festas do centro, mas continua aparecendo durante a semana, sem as badalações, para saborear as iguarias da área. “A comida da Cidade Alta, no geral, tem um perfil caseiro, por isso que é tão saborosa. Apesar do centro ter mudado muito, a comida se mantém a mesma”, afirma. O próximo almoço temático de Adriana já tem um tema: “Inspirações no Sertão”, no qual ela fará releituras de receitas antigas, de família, mas sem cair no regionalismo óbvio. Histórias sempre podem ser contadas de outra forma.





continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários