Viver
A mesma rua, um novo nome
Publicado: 00:00:00 - 29/01/2013 Atualizado: 12:58:06 - 29/01/2013
Yuno Silva - repórter

Era uma vez uma rua. Uma rua no centro de Natal, com pouco movimento de tráfego que acabou se transformando em ‘área de lazer’ para boêmios e artistas. Adotada naturalmente como espaço cultural por quem costuma frequentar a Cidade Alta, essa rua é palco recorrente de eventos formais e informais; vocação que culminou com a criação de uma lei municipal institucionalizando o lugar como Espaço Cultural com letras maiúsculas. Porém, o trecho da rua Professor Zuza, entre a Av. Rio Branco e a rua Princesa Isabel, reforça a mania natalense de batizar, e rebatizar à revelia, qualquer beira de calçada da província em nome da necessidade de se homenagear essa ou aquela personalidade.
Trecho da rua Profº Zuza foi rebatizado para espaço cultural, através de Lei Municipal, com direito a placa na entrada
Na esteira desse costume, vimos a Av. Junqueira Ayres se transformar em Av. Câmara Cascudo; a rua das Virgens virar rua Câmara Cascudo; a praça Augusto Severo ser confundida com Largo Dom Bosco; e, agora, a parte da rua Professor Zuza ser renomeada como Espaço Cultural Ruy Pereira dos Santos.

O que está em jogo não é o mérito ou a justificativa para embasar o ato de respeito e admiração que se tem por alguém, na maioria dos casos, por sinal, uma justa homenagem, o ponto a ser considerado aqui é a falta de interesse em preservar a pouca memória que ainda resiste – e existe – na desfigurada capital potiguar.

Vereador Fernando Lucena: "Não fui eleito com voto de artista, mas fiz uma lei que cria um espaço cultural para a cidade"Nos casos específicos, a população não opina nem é consultada: apenas ‘tem que se acostumar’ com o novo endereço; e a imposição de um novo nome para aquele trecho da rua Professor Zuza  ganhou holofotes e críticas ferrenhas, de artistas e intelectuais habitués do Beco da Lama e adjacências, após a instalação de um pórtico no local, na última terça-feira (22), onde se lê “Espaço Cultural da Cidade do Natal Dr. Ruy Pereira dos Santos – Lei 0353/2012 de 9 de fevereiro de 2012 – Projeto do vereador Fernando Lucena Pereira dos Santos”. Os críticos questionam a indicação do nome do médico Ruy Pereira (1949-2010) para designar um espaço cultural, e acreditam que seria “mais interessante colocar o nome de alguém ligado à Cultura”, Marcelo Veni, produtor: "É um homenagem, e a memória do Dr. Ruy Pereira deve ser respeitada, não vejo problema nenhum nisso"diz o produtor Júlio César Pimenta, frequentador do lugar e cliente assíduo do bar de Zé Reeira – único ponto de apoio aos que por lá circulam.

“Admirava muito Ruy Pereira, uma pessoa íntegra e com posicionamento político coerente, mas defendo a mudança do nome, deveria ter tido uma consulta popular”, defende Pimenta.

POLÊMICA

O vereador Fernando Lucena, autor da lei e irmão do homenageado, disse não estar preocupado com a polêmica. Abimael Silva, editor e sebista: "Espaço cultural não se impõe, ele acontece naturalmente. Ali tem apenas um bom boteco, somente"“Esse questionamento não existe, a lei foi apresentada e aprovada na Câmara, não vou perder meu tempo com isso”, sentenciou. Para Lucena, se é para considerar o argumento de só batizar um espaço cultural com nome de artista, “então que o nome da Ponte Newton Navarro e da Praça Kennedy sejam revistos, pois Navarro não era engenheiro nem Kennedy pisou em Natal”, sugere o vereador, que não vê a denominação do espaço cultural como uma imposição.

Questionado pela reportagem do VIVER se não seria “mais simpática” a atitude de promover uma consulta pública, Fernando Lucena dispara: “A discussão é válida, mas quem não concorda com o nome que não frequente o lugar. Dácio Galvão, presidente da Funcarte: "O importante é valorizar iniciativas que possuem contexto cultural"Nenhum vereador tem obrigação de consultar a população quando elabora um projeto de lei. Me mostra um que faz isso?”, desafia. “Não fui eleito com voto de artista, mas fiz uma lei que cria um espaço cultural para a cidade. Sou a favor que se criem outros espaços culturais e que ponham o nome que acharem mais conveniente”.

Lucena lembra que o irmão Ruy Pereira, falecido em um acidente de carro em fevereiro de 2010, foi um dos responsáveis pela criação do Festival Literário da Pipa-Flipipa. Lerson Maia, diretor do IFRN-Cidade Alta: "Nosso interesse é ver a coisa funcionando, independente do nome"Quanto à placa, instalada sem conhecimento da Semurb, ele diz que mandou fazer com recursos próprios. “Está errado?”

“A placa é horrorosa”,  diz Abmael, e artistas se dividem

O sebista Abimael Silva, do Sebo Vermelho, que há 35 anos trabalha na Cidade Alta, criticou tanto a criação do espaço cultural quanto a estética da placa instalada no local. “Aquela placa é horrorosa, não combina com o local. Além do mais espaço cultural não se impõe, ele acontece naturalmente”. Silva defende que o lugar está muito mais para “espaço etílico” que para cultural: “Ali tem um bom boteco, somente”. O sebista reconhece a importância de Ruy Pereira no contexto político, “ele fez uma gestão exemplar na cidade de Serra Negra do Norte”.

“Um homem público como Lucena agir dessa maneira remete à ditadura. Não houve uma consulta à população, aos frequentadores da Cidade Alta, aos moradores da rua Professor Zuza. Se é para instalar um espaço cultural vamos fazer uma seleção de nomes e consultar a população, decidir democraticamente. Se até o Papa muda de ideia, o vereador também pode voltar atrás”, observou. Compartilham da mesma opinião o cantor Romildo Soares e o presidente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), Dorian Lima.

Já o produtor Marcelo Veni diz ser desnecessária a discussão: “É uma homenagem, e a memória do Dr. Ruy Pereira deve ser respeitada, não vejo problema nenhum nisso. Esse questionamento deveria ter sido feito antes, quando o projeto de lei foi aprovado no começo do ano passado na Câmara dos Vereadores”. Para Veni, mais importante que o nome do lugar é o que vem acontecendo por lá. “Os artistas têm coisas muitos mais úteis para fazer. Ruy Pereira era médico, tinha muita sensibilidade cultural e não necessariamente tem que ser artista para ser homenageado”.

APOIO

A placa instalada pelo vereador Fernando Lucena não passou pelo crivo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), órgão responsável pela regulamentação desse tipo de equipamento que verifica a possibilidade de poluição visual e prejuízos quanto à acessibilidade no local, e traz inscritas como entidades apoiadoras a Fundação Capitania das Artes e o Instituto Federal – no caso o campus IFRN-Cidade Alta, vizinho 'de parede' do Espaço Cultural.

A parceria com a instituição cultural do município foi firmada na gestão anterior, mas o presidente da Funcarte Dácio Galvão ressalta que “o importante é valorizar iniciativas que possuem contexto cultural, independente  da nomenclatura”. Galvão contou que recebeu o vereador Fernando Lucena na semana passada para uma primeira conversa . “Não acompanhei essa questão”, avisa Dácio. , amigo pessoal do patrono Ruy Pereira – um detalhe, garante o gestor, “que não muda em nada meu posicionamento diante da possibilidade de parceria”.

No local funciona o Bar do Zé Reeira e já abrigou eventos como Festival de Cinema GoiamumLerson Maia, diretor do IFRN-Cidade Alta também segue o mesmo discurso: “Nosso apoio diz respeito a existência de um espaço cultural aqui ao lado, que vem sendo um local importante como extensão acadêmica para nossos alunos de Produção Cultural. Quando fomos procurados para apoiar a ideia de formalizar sua existência, não questionamos o nome que seria dado, pois nosso interesse é ver a coisa funcionando independente do nome”, verificou Lerson, que admitiu não aprovar a estética da placa. “Poderia ter um ar mais antigo para estar contextualizado com o Centro Histórico”, observa.

O IFRN vem movimentando o espaço cultural com eventos periódicos como o primeiro ciclo de Intervenções de Artes Visuais, que resultou na criação de um mural coletivo, e atividades do Goiamum Audiovisual.

* atualizada às 10h do dia 29 de janeiro

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte