A migração sentida no corpo da dança

Publicação: 2017-08-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Vive-se no mundo uma crise migratória de dimensões jamais vistas desde a 2ª Guerra Mundial. Dezenas de milhões de pessoas, a maioria do continente africano, estão partindo de seus lugares de origem em busca de recomeçar a vida, seja em decorrência de catástrofes naturais ou humanas, extrema pobreza, guerras, perseguições religiosas, étnicas ou políticas. Tema urgente e global, a questão da migração, especialmente a migração forçada, estará em evidência no espetáculo “Inverno dos Cavalos”, mais nova montagem da Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão (CDTAM).

Coreografia ‘Inverno dos Cavalos’ deu forma a trilha original
Coreografia ‘Inverno dos Cavalos’ deu forma a trilha original

Com concepção, coreografia e figurino de Clébio Oliveira, bailarino e coreógrafo potiguar radicado na Alemanha, o espetáculo parte de uma profunda investigação para levar ao palco, por meio de movimentos de dança contemporânea, os vários aspectos que envolvem o processo migratório no ser humano. A estreia acontece neste fim de semana no Teatro de Cultura Popular (TCP), com apresentações no sábado (26), às 20h, e no domingo (27), às 17h. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Segundo Clébio Oliveira, a ideia do espetáculo surgiu há dois anos quando a crise de imigração tomou conta do noticiário na Europa. Desde então ele passou a refletir sobre a questão e a pensar maneiras de levar o assunto para a dança. “A migração forçada acontece para se escapar de algo que incomoda muito. Sua vida passa a depender de uma mudança geográfica. E existe no ato de migrar uma força muito grande”, diz o coreógrafo, que também observou nuances físicas e psicológicas no ato migratório.

“São várias as dificuldades que uma pessoa enfrenta quando é obrigada a viver numa outra cultura, com uma outra linguagem. Quando se vive num lugar de forma ilegal, se acaba sendo um pouco invisível. Quando não se está tudo resolvido, pode surgir uma doença específica, a Síndrome de Ulisses, que provoca tristeza, medo, solidão muito forte”, conta Clébio. “O espetáculo aborda esses dois lados. O processo migratório forçado e o psicológico, gerado pela síndrome. Falamos dos estados de sobrevivência. Sobre o que é possível fazer para sobreviver num lugar novo”.

O artista reside em Berlim e perto de sua casa existe um centro de refugiados. Foi lá que o artista tirou muitas das imagens e idéias para levar ao palco. “Essa montagem tem um caráter investigativo. Gosto de pesquisar o humano. Durante o processo faço entrevistas, interajo com pessoas. Tenho uma visão cinematográfica durante o processo, mas no sentido de tratar da verdade. É um trabalho documental”, afirma. “Não é possível nos colocar no lugar dessas pessoas. Por isso usando a imaginação como suporte. O espetáculo tem um olhar poético. Fazemos metáforas através do espaço, dos movimentos”.

Clébio Oliveira e Cia EDTAM levantam o tema da migração forçada
Clébio Oliveira e Cia EDTAM levantam o tema da migração forçada

Clébio Oliveira é um dos indicados ao prêmio APCA de Dança do primeiro semestre de 2017 na categoria “Coreografia e Criação”, pelo espetáculo “Primavera Fria”, da São Paulo Companhia de Dança.

A direção artística do espetáculo é de Wanie Rose e no palco estão seis bailarinos: André Rosa, Gabriela Gorges, Gustavo Santos, Juarez Moniz, Júlia Vasques e Will Gomes. A música é original, criada por Khalil Oliveira (ex-Plutão Já Foi Planeta) e com a colaboração do músico alemão Matresanch, que trabalha com o coreógrafo potiguar nos espetáculos na Europa. “No processo criativo a música é a parte mais difícil. Ela acontece posteriormente. A dança não vem pra música. Pelo contrário. Vou direcionando o compositor para aquilo que vai se desenvolvendo. A música vem para potencializar as ideias. O Khalil fez um trabalho incrível”, diz Clébio.

“Arte não é para entender. É para sentir”, diz coreógrafo
O espetáculo “O Inverno dos Cavalos” foi montado em tempo recorde. Clébio Oliveira  chegou em Natal no início de julho e desde então não parou. Foram por volta de 30 ensaios até a estreia. “Trabalhamos num ritmo impressionante. A CDTAM é uma companhia que dá para se montar de tudo. Ela favorece a vazão de ideias”, conta o coreógrafo.

“Tem gente que faz espetáculos fechadinhos. Eu não. Vejo a dança diferente. É fundamental mostrar possibilidades e deixar a plateia absorver de várias formas. Arte não é pra entender. É pra sentir. E a dança oferece múltiplas possibilidades de leitura”, explica o potiguar. “O espetáculo leva para vários lugares, como se a cada momento a gente perdesse o mundo de direção”.

Clébio Oliveira concorre ao Prêmio APCA deste ano, pelo trabalho “Primavera Fria”, para a São Paulo Cia de Dança

Essa é sua terceira passagem de Clébio pelo Brasil só neste ano, a segunda por Natal. Até o final de 2017 ele terá estreado quatro espetáculo e uma remontagem. “Desde outubro do ano passado venho trabalhando sem parar. Depois de Natal parto para Hungria”, conta o potiguar. “É muito difícil fazer arte em Natal. Tiro o chapéu para quem dança nesse Estado. Eu fui embora porque queria fazer mais. Para que não haja a necessidade de outros artistas migrarem, é preciso que exista no Estado bem mais apoio”.

Serviço
Estreia do espetáculo “Inverno dos Cavalos”, da CDTAM.
Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (R. Jundiaí, 641, Tirol).
Dia 26 de agosto, às 20h.



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