A misericórdia, conceito fundamental do Evangelho e chave da vida cristã

Publicação: 2020-07-10 00:00:00
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Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo de Natal

Prezados leitores/as,
Quero refletir com todos sobre um tema muito importante para toda a Igreja e, especialmente nestes tempos difíceis: a misericórdia. No segundo domingo da Páscoa, a Igreja celebrou a Festa da Divina Misericórdia, instituída pelo Papa São João Paulo II. É preciso afirmar: toda a Igreja é chamada a proclamar a misericórdia infinita de Deus. Ela é “o conceito fundamental do Evangelho e chave da vida cristã”, como afirmou o cardeal Walter Kasper em livro sobre o tema. A misericórdia divina constitui o núcleo e a suma da revelação bíblica sobre Deus. Ela não é um sentimento divino qualquer, ou uma atenção divina extraordinária. É o atributo divino por excelência, como afirma Santo Tomás de Aquino. É o próprio de Deus. Deus é misericórdia. Em todo o Antigo Testamento a mensagem da misericórdia está presente. O Deus do Antigo Testamento é apresentado, do Êxodo aos Salmos, como “misericordioso e piedoso, lento na ira e rico de graça” (Sl 145,8; cf. 86,15; 103,8; 116,5; e ainda Jn 4,2). Jesus mesmo assume essa revelação e dá um salto a mais: Deus é Pai misericordioso. E segundo o Evangelho de Lucas a misericórdia é a perfeição da essência de Deus. Deus não condena, mas perdoa, dá e doa numa medida boa, calcada, sacudida e transbordante; ela é sem medida.

O tema da misericórdia foi muitas vezes deixado de lado na reflexão teológica. Muito se falou dos atributos divinos provenientes de uma reflexão metafisica de Deus, isto é, numa reflexão filosófica, às vezes sem ligação com a revelação bíblica. Segundo o cardeal Kasper, as grandes obras de dogmática, tradicionais e recentes, tratavam a misericórdia como uma das propriedades de Deus, e só brevemente, depois dos outros atributos divinos. Mas, segundo o mesmo autor, o tema da misericórdia divina é um tema fundamental para o século XXI. E é possível reconhecer que foi no século XX, marcado por tantos acontecimentos trágicos (duas grandes guerras mundiais, holocausto, bomba atômica, etc) que a mensagem da misericórdia ressoou novamente na reflexão da Igreja. De São João XXIII a João Paulo II, do Concilio Vaticano II à Evangelii gaudium de Papa Francisco, de Santa Faustina à Santa Teresa de Calcutá, já não é mais possível falar de Deus sem entender que Ele é misericórdia, rico em misericórdia, como afirma São Paulo na carta aos Efésios (cf. Ef 2,4). 

Mas, falar de misericórdia não significa que Deus não exija de nós resposta, responsabilidade humana. Pelo contrário, é o amor misericordioso de Deus que empenha o homem. Deus quer que todos sejam salvos. Mas, a salvação consiste em viver na intimidade com Ele e no seguimento a Jesus, através do Evangelho. Porém, o seguimento a Jesus é alegria, é paz, é festa. Para acontecer não é o homem que produz, não é o resultado das obras do homem, é pura graça, é amor que transforma, que faz o homem nova criatura. E mais, a Igreja, comunidade de homens e mulheres salvos pela misericórdia divina, é a grande portadora da mensagem de misericórdia. Ela é a grande força da Igreja no século XXI. É a única que pode nos iluminar para que saibamos qual é a verdadeira imagem de Deus. Em todos segmentos da Igreja, suas pastorais, movimentos, serviços, o ministério, ordinário e extraordinário, e toda a organização da Igreja, tudo, compreendendo também, a sua catequese, tudo repousa na proclamação da misericórdia. “O coração da catequese é o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, que ultrapassa os limites de espaço e de tempo para se apresentar a cada geração como a novidade oferecida para alcançar o sentido da vida... O querigma é anúncio da misericórdia do Pai que vai ao encontro do pecador, não mais considerado como um excluído, mas como convidado privilegiado ao banquete da salvação que consiste no perdão dos pecados” 

(DOM RINO FISICHELLA. Apresentação do Diretório para a Catequese. Vaticano, 25 de junho de 2020).