A morte pede licença

Publicação: 2020-09-23 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Outro dia foi a burocracia federal e, à época, registrei aqui, a impor uma espécie absurda de certificação, expedida pela Funai - Fundação Nacional do Índio - reconhecendo oficialmente a condição de cacique para assim ter a ajuda do órgão. Acabava ali, a chance de quem, por mérito ou tradição, desejasse ser líder de sua tribo. E como se este país, dito inzoneiro, já não tivesse cheio de falsos caciques, todos eles acampados e refestelados ali, na esplanada dos ministérios.  

Nem bem a carne, fraca e pecadora, recuperava-se do susto, veio um estrupício a ferir a tranquilidade do espírito. Leio no blog de Carlos Santos, o mais bem informado das bravas terras que botaram Lampião para correr, que há um grave problema por lá: alguém, de um olhar agudo e percuciente, descobriu que os cemitérios de Mossoró estão operando, ou seja, sepultando seus defuntos, sem a competente e indispensável licença ambiental, passíveis, pois, dos rigores da lei.

Escrevo que os cemitérios estão passíveis, bem com a propriedade pomposa do jargão jurídico, mas sei, Mossoró tem a carne e a alma inquebrantáveis. Não acredito que os mortos de lá, como de qualquer cidade, vila ou povoado, deixem a terra onde viveram por esta ou aquela lei, decreto, portaria, taxa ou emolumento. A morte prescinde de tudo, de todas as falíveis e ridículas exigências, sob pena da carne, pobre e impura, apodrecer sob o nariz das autoridades.   

Aliás, Senhor Redator, nestes quase setenta anos de vida, entre sossegos e desassossegos, não conheço nada mais estranho do que autoridade constituída. Nem sei ao menos a que serve e se destina. Nunca aceitei a glória de cargos públicos, embora algumas vezes convidado, e por isso não apus - é assim que se diz? - a assinatura sem nobreza em algum papel timbrado. Vivi, isto sim, sob o timbre da vida, trocando palavras por margarina, feijão e pão. E nunca neguei.

E se amanhã, fugindo das perigosas digressões - por desleixo ou petulância - a direção dos cemitérios de Mossoró não requerer a competente licença ambiental, o que, por ventura, pode acontecer? Que os mortos não morram, se estão morridos, neste tão arrevesado e pobre léxico? E se ainda assim, pelo inexorável que é sua majestade, a morte, seus cortejos, fúnebres ou alegres - uns deixam saudade, outros alegria - o que deverá fazer o coveiro no seu já tão velho ofício?  

Sei não. O mundo anda a cada dia mais estranho. A criatividade humana venceu todos os umbrais da lógica. Nem nota que muitos dos ofícios inúteis que inventou já vão caindo no desuso dos tempos virtuais. Claro, os sapateiros não resistirão, afinal agora os sapatos são descartáveis. Como o relógio, a caneta, o lenço. Nem por isso o mundo será melhor. Será sempre uma pândega, como diria o bruxo genial Machado de Assis. Com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”. 

ROL - De um economista com anos de atuação no Estado, depois de fazer a leitura do ‘RN cresce +’, o seu plano de desenvolvimento: “Não passa, a rigor, de um rol de boas e inegáveis intenções’. 

PERDAS - Sem querer o nome exposto, nem da empresa que representa, afirma que o Estado, precisa tentar inverter o sinal de menos: “Parar de perder o que tem e de ser preterido em tudo”.

SAÍDA - Para ele, o Estado precisa ter bons projetos e garantir bons negócios: “Isto não se faz sem parceiros. A pobreza de ideias e de espírito público da nossa bancada federal é uma lástima’.  

LUTA - O Fórum Potiguar de Cultura saiu fortalecido da articulação com o governo para acesso aos recursos da Lei Aldir Blanc. É hoje a instituição gestora que luta, de fato, pela cultura no RN.

UMBIGO - Uma visão isenta da ação cultural no RN revela facilmente que tudo acontece fora das instituições formais de cultura que giram em torno dos seus umbigos e seus egos flamejantes.

CAVIAR - Líder do governo, e fiel ao PT, o deputado George Soares teve a promessa de receber de presente do colega José Dias, Caviar de esturjão do mar Cáspio. O Beluga, nobre como o ouro.  

TOPO - A editora CJA, desta Natal, numa bela ousadia lança a primeira obra de ficção inédita no Brasil: ‘A Nuvem Púrpura’, de Shiel. No portfólio, elogios de Wells, Borges e Stephen King.

JOGO - De Nino, infarento, olhando a intelectualidade conterrânea pagando o preço dos gulosos da glória: “Quando o carreirismo entra pela porta da frente a cultura sai pela porta dos fundos”.

BRASIL - O antropólogo Mércio Gomes, hoje um dos nomes mais qualificados da antropologia cultural brasileira, ex-secretário de cultura do Rio e ex-presidente nacional da Funai, na revisão final do seu novo livro: ‘O Brasil em Convulsão’, programado para ser lançado no próximo ano.

TEMAS - O livro está estruturado em quatro temas: a moral que hoje guia o Brasil; o confronto da democracia brasileira com o modelo grego; o Brasil além da Direita e da Esquerda; e a visão de imolação do Mito. Ano passado, Mércio lançou ‘O Brasil Inevitável’, nacionalmente elogiado.

ALIÁS - Mércio é filho de Currais Novos, reside no Rio - foi professor da UFRN no início da carreira - já comunicou ao presidente da Academia de Letras, Diógenes da Cunha Lima, que não será mais candidato à vaga do jornalista Murilo Melo Filho. Com isto perde, e muito, a Academia.







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