"É muito importante se manter tranquilo", afirma potiguar infectada pelo novo coronavírus e já curada

Publicação: 2020-03-31 00:00:00
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Isadora Aragão sentiu os primeiros sintomas no dia 15 de março. Eram dores abdominais agudas abaixo do umbigo. Achou que era apendicite ou gases, mas não se preocupou porque a dor sumiu em pouco tempo. No dia seguinte veio a tosse seca e uma febre baixa; no outro, dor de cabeça intensa, diarreia e perda do paladar e olfato. Mas foram a falta de ar e o cansaço do quarto dia que lhe chamaram atenção para o risco de ter contraído a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. “Eu me sentia ofegante em ir do quarto para a cozinha, em tomar um banho”, conta.

Créditos: CedidaIsadora Aragão está curada, mas em isolamento social. Ela abriu suas redes sociais para ajudar pessoasIsadora Aragão está curada, mas em isolamento social. Ela abriu suas redes sociais para ajudar pessoas

Nesse dia, procurou ajuda médica e fez o teste para verificar se estava com o coronavírus no Hospital Giselda Trigueiro, referência em Natal para atendimento dos casos suspeitos e confirmados da doença. Aragão é fotógrafa, mora em Natal e tem 28 anos. Segundo soube cerca de uma semana depois de ter os sintomas mais conhecidos da covid-19 até então, também foi a quinta pessoa a ter a doença confirmada no Rio Grande do Norte - o quadro clínico dela foi considerado leve. Ela esteve em contato com um caso confirmado de coronavírus cerca de dez dias antes dos primeiros sintomas aparecerem, quando ainda não sabia, e por isso fez o teste.

“No dia em que eu senti a falta de ar e o cansaço, comecei a desconfiar que era mesmo coronavírus. Até então não desconfiava porque todos sintomas eram diferentes do que eu havia ouvido falar. A tosse seca só durou um dia e eu não sabia que perdia os sentidos”, relatou à reportagem nesta segunda-feira (30) já considerada curada da doença e sem sintomas. “Procurei o Hospital Giselda Trigueiro no mesmo dia, fiz o teste e fiquei em observação durante a noite, mas não precisei ir para a UTI. No dia seguinte fui liberada com a recomendação de ficar isolada em casa esperando o teste, dormi o dia inteiro em casa e quando acordei continuei com os sintomas”, contou.

Com a persistência do cansaço, da febre baixa e da falta de ar, Isadora voltou a procurar a urgência hospitalar e foi submetida a um raio-x e hemograma num hospital particular. Os exames deram normais e ela retornou para casa com a recomendação de se isolar, aguardar o resultado do teste para covid-19 e cuidar da imunidade. A partir desse momento passou a se sentir mais ansiosa, agravando um quadro emocional do qual sofria antes, e a desconfiar do que os médicos falavam.

Curada da doença, a fotógrafa agora se preocupa em explicar a importância de se manter calma quando os sintomas de falta de ar e cansaço aparecem. “Chegou num ponto que eu já não diferenciava o que era falta de ar por coronavírus ou ansiedade. Eu não acreditava em nada do que me diziam. Eu faço terapia e cheguei no ponto de precisar de apoio psiquiátrico. Inclusive, estou tomando medicação agora. Por isso, o mais importante é tentar se manter calmo”, conta.

“Foi bem difícil para mim saber que era caso suspeito porque é uma doença nova, que eu sabia que não tinha remédio. Fui o quinto caso daqui e foi bem assustador para mim. O que me faltou foram pessoas para me tranquilizar. Eu sentia que médicos estavam assustados por ser o início de tudo aqui. Tudo que as pessoas precisam no início do sintomas é se sentirem tranquilas: entender que é uma doença, que muita gente vai pegar, que tem sintomas leves e graves, e se os sintoma foram mais graves, vá até o hospital”, continua.

Depois que recebeu a confirmação do exame, no dia 26 de março, Isadora passou a receber ligações do Ministério da Saúde para ter o quadro clínico acompanhado e manteve isolamento total. No decorrer dos dias, começou a entender melhor que todos sintomas que sentiu nos primeiros quatro dias faziam parte da doença e a considerar uma doença específica, diferente da gripe. Os sintomas do cansaço, da falta de ar, febre e perda dos sentidos persistiram, mas ela tentava se manter tranquila.

Somente no último dia 29, 14 dias depois de sentir os primeiros sintomas, Isadora falou para os amigos que esteve com a doença e decidiu abrir a sua conta do Instagram (@isadoraaragao) para ajudar pessoas que se sintam da mesma forma. Somente a família e pessoas mais íntimas sabiam até então. “Eu percebi que todo apoio que eu precisava no início, dos primeiros sintomas, eu queria poder fazer isso pelos outros. A minha intenção é acalmar as pessoas e se elas gostariam de ouvir meu relato, para poder identificar algo. Meu objetivo maior é tranquilizar as pessoas”, disse.

A fotógrafa permanece em isolamento social, mesmo curada e considerada fora da faixa de transmissão (infectologistas estimam 14 dias). Ela considera importante permanecer nesse estado até o fim da pandemia porque o vírus ainda é desconhecido e pode haver reincidência. Para ela, o isolamento da sociedade vai gerar tempo para a rede de saúde prestar assistência aos casos mais graves e entender como o vírus se comporta.

Entre as principais preocupações de Isadora agora estão o cumprimento do isolamento e a violência doméstica que pode decorrer da situação no Brasil. “Com o isolamento, a violência doméstica vai aumentar. Eu acho que deveria haver medidas mais sérias para esses casos, sinto falta disso. É importante que as mulheres saibam que os serviços de assistência aos casos de violência doméstica continuam funcionando. Liguem para o 180 e denunciem os abusos.”

“Eu sinto que agora é um momento de mudança e de mais solidariedade. Por isso digo isso, e digo para as pessoas permanecerem no isolamento social e por isso abri minha caixa de mensagem do Instagram para ajudar pessoas que sintam sintomas como o meu a ficarem mais tranquilas. O medo tomou conta de todo mundo e continuar unido pode ajudar muito”, conclui.






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