Economia
Presidente da Andifes: “não podemos renegar o legado da experiência remota”
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 14:48:26 - 28/11/2021
Sobre os desafios da educação, ciência e tecnologia no pós-pandemia o Presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino (Andifes), Marcus Vinícius David, Reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), falou com autoridade na 39ª edição do Seminário “Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”, que aconteceu na última segunda-feira (22), com o tema “O futuro da Educalção no Pós Pandemia”. Ele enfatizou que, apesar do desafio das universidades públicas ser mais complexo do que na educação básica quanto ao retorno presencial,  a crise da pandemia da covid-19 ajudou a criar todo um legado remoto no sistema de ensino que não deve ser renegado. Pelo contrário. Segundo disse, deve ser utilizado como uma solução positiva. Mas Marcus Vinícius vai além e pontua que há ainda o desafio comportamental, uma vez que o confinamento e o medo da pandemia afetou a saúde mental da população. E mais uma vez, a redução no orçamento do ensino superior foi lembrado porque também dialoga com o acesso ao ensino superior, o desenvolvimento econômico e a capacidade do País em enfrentar crises como a trazida pela pandemia. 

Cedida


O Ensino híbrido deve permanecer nas universidades públicas no pós-pandemia? 
Temos todo um legado de ensino remoto e precisamos fazer ampla adaptação para o retorno das aulas presenciais nas universidades. A pandemia nos deu soluções positivas. No momento que oferecemos aulas remotas criamos uma rede de universidades federais onde um aluno pode se matricular em disciplina remota de uma universidade de outro estado. Começamos com quatro e estamos com 17 e a expectativa é todas no ano que vem. Uma disciplina remota tem esse potencial, o processo de mobilidade digital. A grande questão é se seremos capazes de aproveitar as potencialidades da experiência remota. Creio que isso vai ocorrer, teremos mudanças.

Como foi essa migração?
As universidades públicas têm acesso democratizado, todos os segmentos sociais têm acesso à universidade com 70% dos alunos da rede universitária federal vem de um segmento em que a renda per capita é inferior a 1.5 salário mínimo. Então, sentimos a necessidade de transformar o ensino remoto mas não ser excludente, de modo a criar condições para que esses alunos continuassem participando e tendo acesso a esse ensino de qualidade. Uma série de medidas de inclusão desses alunos chegou a ser adotada. Fizemos esse desafio e transformamos a educação de alta qualidade em educação remota.

E quais os próximos passos?
A próxima etapa é a retomada das atividades presenciais e não é só mandar os alunos de volta para as salas de aula. Tivemos legados da experiência remota e não podemos abrir mão dessas tecnologias.

De que forma isso vai ocorrer?
Os desafios para a educação superior nessa retomada são econômicos, pedagógicos e comportamentais. Temos uma situação diferente da educação básica, onde o aluno mora no bairro da escola. Na educação superior ele mora muitas vezes há 2 mil quilômetros da universidade onde faz o curso. Não podemos virar para o aluno e dizer que viaje essa distância para assistir aula uma vez na semana. Isso gera problemas econômicos e problemas de amplo movimento de mobilidade. Então, precisamos fazer uma adaptação para o amplo retorno das atividades presenciais. Grande parte das universidades já está com algumas atividades presenciais e práticas em andamento em algumas áreas.

O senhor falou em desafio comportamental...
A retomada da socialização mexe com a saúde mental da população. Algumas pessoas têm dificuldade de voltar à vida normal. Algumas pessoas adquiriam fobias e vamos ter que lidar com isso, com a saúde mental, com o acolhimento. Não é um problema menor, é um problema urgente.  

Além disso, há o desafio econômico, é isso?
O orçamento da educação superior, foi de R$ 7.3 bilhões em 2014 para R$ 4.5 bilhões em 2021. A redução é de quase 60% do orçamento discricionário das universidades. O Brasil fez a opção de reduzir investimento em educação superior e ciência e tecnologia. Se nós definirmos que nosso projeto de nação passa por criar uma indússtria com capacidade de competição global, fundamentado em tecnologias temos que reverter esse sistema.

A política fiscal do Governo, que promove cortes na educação, está equivocada?
Tudo o que explica essa redução é uma política fiscal que justifica a redução do investimento. Mas quando se tem uma política fiscal que se expansioniza por vários anos seguidos, você pode pressionar as taxas de juros, gerar desorganização econômica e causar danos na estrutura do estado severa. Isso se iniciou em 2015 e já vai para o sétimo ano. Além do mais ainda fizemos constar na Constituição que essa política de austeridade fiscal vai ter 20 anos.

Essa queda orçamentária afetou a pesquisa e a ciência?
Vinhamos numa curva de crescimento com ápice em  2014, com bolsa de divulgação cientifica, de iniciação cientifica, de auxilio a pesquisa... e começamos a ter uma redução drástica nos últimos anos. Estamos adotando uma política de redução de investimentos em ciência e tecnologia.

De que forma isso se reflete na produção científica, que foi tão essencial na pandemia da covid-19?
O Grande desafio é ou o Brasil muda seu papel na ordem econômica mundial, ou vamos continuar expostos a crises como esta. E para reverter essa situação precisamos implementar uma política de ciência e tecnologia, de educação superior. Esse é um desafio que se coloca. As universidades terão que, efetivamente, assumir e liderar a política de inovação no País.

Se isso não acontecer e tivermos uma nova pandemia,  conseguiremos dar respostas rápidas?
Se vier nova pandemia precisamos estar com infraestrutura pronta para dar resposta rápida. Isso aconteceu com o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) que nós precisávamos para as vacinas. O Brasil se propôs a produzir, mas não tinha um industria nacional preparada para isso. Nós precisávamos fazer o investimento em infraestrutura para ter a capacidade de produção do IFA. A suspensão do investimento em pesquisa lá atrás comprometeu o presente. Investimento em ciência e tecnologia precisa de um tempo de maturação e aí a gente precisa ter essa consciência de que precisa investir agora se quiser ter um resultado nos próximos 5 ou 10 anos.

Isso passa por mais acesso à formação superior, certo?
Na comparação com vários países do mundo o Brasil tem apenas 21% da sua população entre 25 e 34 anos com educação superior. Na Coreia do Sul, por exemplo, o percentual é de 70%. Nós temos menos de um terço da população com nível superior, bem abaixo dos países desenvolvidos.

Investimento em educação também se reflete no desenvolvimento econômico?
O Brasil não terá capacidade global se não criarmos um sistema de ciência e tecnologia que se transforme em inovação e que seja apropriado para a indústria nacional. Uma lição que tivemos na pandemia é hoje a grande dependência industrial. Podemos hoje fazer grande discussão sobre a ordem econômica mundial. O Brasil, como vários outros países, tomou decisão de reduzir seu papel como agente da produção industrial. Há 40 anos tinha 3% da população do mundo e 2% da produção industrial. O discurso que fazemos é que, no mínimo temos que trazer a produção industrial para 3% da produção do mundo, já que, 40 anos depois, o país continua com 3% da população do mundo, mas apenas 1% da produção industrial. Acho que é uma reflexão se debater universidade e setor produtivo. Se quisermos ingressar numa era na produção industrial.

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